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"É evidente que vai haver aumento do preço da luz. Não há milagres"

João Branco, presidente da Quercus, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. A seca e a floresta foram os principais temas abordados por João Branco.

"É evidente que vai haver aumento do preço da luz. Não há milagres"
Notícias ao Minuto

04/12/17 por Patrícia Martins Carvalho

País João Branco

O preço da eletricidade na fatura do consumidor vai mesmo aumentar. "É inevitável", garante o presidente da Quercus que refere que a pouca chuva que já caiu em território nacional não é o suficiente para equilibrar as contas nesta equação onde a água teima em sumir.

A falta de água, sublinha João Branco, é também resultado da errada política florestal que Portugal tem. A predominância dos eucaliptos em detrimento, por exemplo, dos carvalhos é um fator que prejudica a abundância de água. Já para não falar no clima e, consequentemente, nos incêndios.

E aqui a indústria da celulose tem muita culpa, defende o responsável, que elogia a iniciativa do Governo em alterar a legislação referente aos eucaliptais. No entanto, faz sobressair, é insuficiente.

António Mexia disse que o “preço da eletricidade não é definido em Portugal” e, por isso, não é de esperar um aumento do preço para os consumidores para breve.

Essa é uma declaração, no mínimo, um bocado demagógica. É evidente que vai haver aumento de preços para o consumidor. Se não for agora, vai ser no futuro porque não há milagres. No ano passado, entre janeiro e outubro, os distribuidores de energia estavam a comprar a energia a 35,7 euros por megawatts/hora, este ano o preço no mercado grossista foi, em média, de 51,1 euros.

É então inevitável que o consumidor sinta na carteira este aumento?

É inevitável. Pode ser mais tarde porque há mecanismos de estabilização do preço para que as flutuações diárias do mercado não sejam sentidas pelos consumidores, mas este dinheiro alguém vai ter de pagar e de certeza que não vão ser as empresas de distribuição.

Esta chuva que caiu não resolve a situação, de todo. Situação de seca vai manter-seA pouca chuva que já caiu está longe de ser suficiente para travar a seca que se vive em Portugal e Espanha?

Esta água que caiu vai ficar, primeiro, na terra e só depois, quando a terra estiver saturada de água, é que os solos vão começar a ceder água para as bacias hidrográficas. Esta chuva que caiu não resolve a situação, de todo.

E não é expectável que chova o suficiente para colmatar esta situação.

Até ao final do ano não há previsões de grandes chuvas, o que significa que esta situação de seca se vai manter.

Foram tomadas as medidas de precaução necessárias para fazer face a uma situação como a que vivemos atualmente?

Poder-se-ia ter feito mais, porque estas campanhas de poupança de água que estão a ser feitas agora já deveriam ter sido feitas. Aliás, deviam ser feitas ao longo do ano. Isto pode parecer uma ‘chinesisse’, mas não é. Uma torneira aberta gasta à volta de 10 litros de água. Se toda a gente fechasse a torneira um minuto poupar-se-iam 100 milhões de litros e isso em 365 dias dá muitos milhões de litros de água. A verdade é que como estamos a falar de números muito grandes todas as ações de poupança de água contam.

Se as pessoas tivessem gastado metade da água que gastaram durante o verão agora não havia falta de águaHá mais alguma coisa que o consumidor doméstico possa fazer para poupar água?

Sim. Existem os redutores de caudal que são uns aparelhos que se enroscam nas torneiras e têm a capacidade de reduzir o caudal de água até metade. Se as pessoas tivessem gastado metade da água que gastaram durante o verão agora não havia falta de água.

Mas no verão tivemos um calor extremo que propiciou demasiados incêndios…

Os incêndios não influenciaram esta falta de água.

Não?

Não tem nada a ver. O que influencia a falta de água é o tipo de floresta que temos. Ou melhor, a falta dela.

Está a falar dos eucaliptais?

Estou. Já se sabe que os eucaliptos são grandes consumidores de água. A Quercus defende as florestas húmidas, que são aquelas à base de carvalhos. Estas florestas, não só aumentam a disponibilidade de água no terreno, como influenciam o clima de modo positivo, tornando-o mais húmido e, logo, menos seco, menos propício a incêndios.

Qual é a percentagem, em área florestal, dos carvalhos?

Os carvalhos ocupam menos de 2% da nossa área florestal. Os eucaliptos ocupam entre 30 a 40%. Há um milhão de hectares de eucalipto, sendo que, teoricamente, a área florestal anda à volta dos 3 milhões de hectares.

São números muitos díspares…

Um milhão de hectares de eucalipto é um absurdo em Portugal. É absolutamente necessário reduzir essa área o mais possível.

Há empresas por trás e isto torna-se num círculo vicioso. O lobby da indústria da celulose é muito poderosoConhecendo as vantagens do carvalho, porque é que é o eucalipto que predomina?

Porque há empresas por trás e isto torna-se num círculo vicioso. Os pinhais estão a transformar-se em eucaliptais porque, ao arderem, os eucaliptos vão espalhar as sementes e acabam por se sobrepor às ouras espécies. Quantos mais eucaliptos há, mais ardem, mais aumenta a área de eucalipto e torna a arder mais floresta. É um círculo vicioso que não foi quebrado.

Porque não?

Porque nunca houve interesse político em quebrar este círculo e porque o lobby da indústria da celulose é muito poderoso.

As duas grandes tragédias deste ano, em matéria de incêndios, serão suficientes para acabar com este lobby?

Não, mas já tem havido sinais positivos, embora insuficientes.

Temos de dar o mérito a este Governo que mudou a legislação que limita a plantação de eucaliptos. Mas a lei é insuficienteQue sinais são esses?

Temos de dar o mérito a este Governo que, pela primeira vez na história, mudou a legislação que limita a plantação de eucaliptos. Mas a lei é insuficiente, porque só limita em algumas situações, não tem em conta a expansão natural do eucalipto e não tem em conta que também já é preciso fazer diminuir as áreas de eucalipto.

Como reagiram as indústrias da celulose a esta iniciativa do Governo?

Reagiram ferozmente e até ameaçaram com a deslocalização de empresas. Tentaram por todos os meios que esta nova legislação, que mesmo assim é muito débil, não fosse aprovada. E vão continuar a reagir.

Já está a decorrer uma petição, que vamos apresentar no Parlamento, para proteger os carvalhosAcredita que o Governo vai dar mais algum passo no sentido de aprimorar a lei?

A Quercus já está a trabalhar nesse sentido e até já está a decorrer uma petição, que vamos apresentar no Parlamento, para proteger os carvalhos. É incompreensível que Portugal, um país de carvalhos, tenha menos de 2% da sua área florestal ocupada com esta espécie autóctone.

Por que razão assim é?

A verdade é que uma boa parte dos eucaliptos nasce sozinha, mas quem planta eucaliptos fá-lo por uma questão de rentabilidade. Só que os custos também são muito elevados porque depois os eucaliptais ardem a meio da produção e não só. Não nos podemos esquecer de toda a poluição que é causada pela indústria da celulose. Veja-se o que se passa em Vila Velha de Ródão, no Rio Tejo.

Reconversão do eucaliptal em outro tipo de floresta pode ajudar as economias locaisA questão económica é sempre utilizada na defesa dos eucaliptais. Mas é esta a única espécie capaz de fazer mexer a economia?

Não. Nós hoje estamos numa fase em que a reconversão do eucaliptal em outro tipo de floresta pode ajudar as economias locais. Há muitas coisas positivas em ter outras espécies até porque nós temos outras indústrias que estão em risco por causa da expansão do eucaliptal.

Como por exemplo?

A fileira do pinho, por exemplo, é muito importante para Portugal para a produção de aglomerados de madeira. A fileira da resina é outro caso que está a ser seriamente prejudicado com perdas de postos de trabalho e perdas graves para a economia porque estas espécies estão ser substituídas progressivamente por eucaliptais.

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