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"Sinto que esperavam mais de mim e acho que desiludi muita gente"

Depois da Eurovisão e a caminho do primeiro álbum, Cláudia Pascoal falou sobre o seu novo single 'Ter e Não Ter', recordando ainda o percurso feito até este momento.

"Sinto que esperavam mais de mim e acho que desiludi muita gente"
Notícias ao Minuto

18/04/19 por Sara Gouveia

Cultura Cláudia Pascoal

Tornou-se mais conhecida pelo grande público depois de - acompanhada por Isaura, que escreveu e compôs o tema - ter interpretado 'O Jardim' no Festival da Canção, música que lhe garantiu a vitória e a levou a representar Portugal na Eurovisão, em 2018. Ainda antes disso experimentou a apresentação no programa da SIC Radical, 'Curto Circuito', e passou por vários concursos de talento como o 'Ídolos', o 'Factor X' e o 'The Voice Portugal' mas, admite, "nunca quis ganhar nenhum".

Agora, em entrevista ao Notícias ao Minuto no momento em que lança o seu primeiro single 'Ter e Não Ter', Cláudia Pascoal garante que "estar sempre a mudar não é incerteza" e que percebeu que "desta é que é" e que o seu futuro passa pela música. O primeiro álbum em nome próprio, com lançamento previsto para setembro, conta com a produção de Tiago Bettencourt e "vai ter algumas surpresas", revela.

Desvenda ainda alguns planos futuros, sem deixar de recordar os vários desafios e o percurso que fez até então.

Que idade tinha quando fez a primeira música? Era sobre quê?

Devia ter os meus 16 anos e tinha o excelente nome de ‘Miopia’. Lembro-me que tinha uma frase muito parola como: “Sofro de miopia sem ti” e falava de distâncias focais. Era péssima.

Nunca quis ganhar nenhum daqueles programas. Queria mais ver como era, tinha imensa curiosidade Antes de enveredar pela música ainda tentou a apresentação no programa Curto Circuito, da SIC Radical, e passou por vários concursos como o Ídolos, Factor X e o The Voice. O que traz desses dias?

Trago muitas experiências e amizades que ainda hoje prevalecem, mas sempre foi mais pela experiência, nunca quis ganhar nenhum daqueles programas. Queria mais ver como era, tinha imensa curiosidade e como a comunicação e apresentação estão muito envolvidas na minha vida quis perceber como funcionava esse mundo, como era a produção que estava por detrás disso. Foi essa a vontade.

Ajudou-me imenso, principalmente depois de ter ido para o Festival da Canção e para a Eurovisão, foi quase uma escola. Se bem que percebi que tinha apenas uma ideia, porque depois foi tudo vezes mil.

Neste momento estou a fazer o álbum, mas acho que desta é que é, que já não mudo maisNuma entrevista descrevia-se como “uma miúda que muda de carreira de meio em meio ano e muda de cabelo de semana em semana”. Com essa necessidade constante de reinvenção não há o perigo de se perder o foco?

De todo. Acho que um dos grandes medos dos meus pais era esse, porque quis sempre estar envolvida em várias coisas, mas eu sabia que as levava sempre até ao fim. O estar sempre a mudar não é incerteza, é mesmo esse foco de querer fazer coisas diferentes, qualquer coisa que está dentro de mim, mas finalizá-las.

Neste momento estou a fazer o álbum, mas acho que desta é que é, que já não mudo mais. Agora já percebi mesmo o que quero fazer e é a música.

Porquê a música?

Porque sempre adorei comunicar e não há maneira mais genuína e que chegue a tanta gente como a música. Acima de tudo é essa a razão. Adoro dizer qualquer às pessoas e as pessoas ouvirem.

Olhando para trás, qual foi o impacto que a participação na Eurovisão teve na sua vida?

Na minha vida pessoal foi um bocadinho mais difícil, mas serviu para escrever uma música, que é exatamente a ‘Ter e não ter’, que fala sobre as pessoas que se afastaram pelo peso que tinha em cima de mim, mas profissionalmente foi das melhores coisas que me aconteceu. Nunca tive tanta exigência no meu trabalho mas também tanto orgulho.

Representar um país é muito estranho, mas foi inacreditável em todos os sentidos.

Por causa disso agora estou a lançar o meu primeiro single, mas já há imensa gente que já me conhece e que até tem curiosidade para ir ouvir. Podem gostar ou não gostar, mas têm alguma curiosidade, ainda antes de a coisa sair.

Apesar de aparecer em todas as entrevistas com um sorriso na cara foi muito difícil mantê-lo, às vezesÉ um peso grande?

É um peso muito, muito grande, foi muito difícil. Apesar de aparecer em todas as entrevistas com um sorriso na cara foi muito difícil mantê-lo, às vezes. Mas acho que consegui e acho, genuinamente, que fiz o meu melhor.

Sente que, depois da Eurovisão, foram abertas portas que não teriam sido de outra forma?

Sim... talvez. Mas acho que se nota mais no espalhar do meu trabalho, neste momento. Porque estou a trabalhar com a Universal e com o meu produtor Tiago Bettencourt, mas isso já estava a acontecer antes. Quer dizer, o Tiago foi depois, mas as coisas já se estavam a encaminhar para aí antes da Eurovisão, para a criação do meu álbum. Claro, que ganhar o Festival [da Canção] e ir à Eurovisão ajudou-me e deu-me mais confiança.

Quando soube que tinham vencido o Festival da Canção e que iam à Eurovisão, tinha noção do que aí vinha?

Não, não tinha mesmo noção. Genuinamente achava que ia ser muito mais fácil. Não imaginava a quantidade de entrevistas e de horas que íamos passar em tantos sítios.

Noutro dia escrevi o meu nome no Google para procurar uma fotografia específica para publicar e vi fotografias que já não me lembrava sequer que tinha tirado ou entrevistas que não me lembrava de ter dado, porque foram umas atrás das outras. Foi muito cansativo, ou seja a parte que eu mais gostava, que era da comunicação, acabou por ser a parte que mais me cansou, honestamente. O que é irónico.

Na altura desmenti, disse que não, mas claro que sim. Era um peso muito grande. Acho que Portugal tinha esperança que fizéssemos a ‘dobradinha’ e era impossível Houve algum tipo de sentimento de responsabilidade acrescida por Portugal ter vencido no ano anterior?

Claro que sim! Na altura desmenti, disse que não, mas claro que sim. Era um peso muito grande. Acho que Portugal tinha esperança que fizéssemos a ‘dobradinha’ e era impossível. Um país ganhar duas vezes a Eurovisão dois anos seguidos era completamente impossível. Senti sempre um peso com isso e claro que as pessoas estavam sempre a comparar-me com o Salvador [Sobral] e, por vezes, preocupava-me. Mas fui sempre fiel a mim mesma, por isso a minha preocupação não era ser comparada ao Salvador, apesar de ter de explicar às pessoas que não havia motivo de comparação, sequer, porque éramos duas pessoas muito distintas.

Uma coisa verdadeira, tanto no Salvador como em mim, é que fizemos o nosso melhor. Depois os resultados foram o que foram. Sinto que esperavam mais de mim e acho que desiludi muita gente, infelizmente, mas fiquei muito contente por o Salvador ter trazido a vitória para casa, porque assim pude representar o meu país no meu país.

Senti que estava a desapontar, que estava a desiludir o meu país, foi horrível. Ao mesmo tempo foi um alívio tão grande perceber que já tinha acabado, que já tinha cumprido a minha missãoO que é se sente quando num ano Portugal ganha a Eurovisão, com o Salvador Sobral, e no ano a seguir fica em último, convosco?

Foi um misto, nesse dia foi um misto. Senti que estava a desapontar, que estava a desiludir o meu país, foi horrível. Ao mesmo tempo foi um alívio tão grande perceber que já tinha acabado, que já tinha cumprido a minha missão, que tinha feito o que tinha de fazer. Mas na altura foi mesmo trágico para mim, principalmente quando tudo acabou, as luzes baixaram e acabou o programa. Lembro-me que houve uma multidão gigante que permaneceu no recinto e começou a cantar ‘O Jardim’, isso foi um momento indescritível que vou guardar para sempre.

É difícil sair da ‘sombra’ do concurso?

Talvez, mas ainda estou muito no início. As reações têm sido positivas, mas não sei onde é que isto vai levar. Mas acho que as pessoas já percebem que cada coisa é a sua coisa. Na altura do The Voice lembro-me de ter pensado que agora ia passar a ser a ‘miúda do The Voice’ e não, passado um bocadinho já era a ‘miúda da Eurovisão’ e quem sabe agora passo a ser a ‘miúda do 'Ter e Não ter'’, vamos ver o que é que acontece.

As pessoas fazem muitas críticas à letra do Conan Osiris, mas é o que é. A música dele tem uma mensagem, ao mesmo tempo que te faz saltar e bater o pé e é diferente

O que acha da escolha de Conan Osiris para representar Portugal este ano?

Acho muito bem. Sou amiga de vários dos concorrentes [do Festival da Canção], mas de todas as músicas realmente a dele [‘Telemóveis’] foi a que me fascinou mais, porque trazia algo tão genuíno e tão autêntico.

Depois de estar dentro da Eurovisão percebi que é mesmo isso que se pede: uma música genuína com uma mensagem. As pessoas fazem muitas críticas à letra do Conan Osiris, mas é o que é. A música dele tem uma mensagem, ao mesmo tempo que te faz saltar e bater o pé e é diferente. Defendo sempre a diferença, gosto e acho que ele traz isso mesmo.

Algum conselho?

Que não dê tantas entrevistas como eu dei, porque cansa muito [risos].

Tem um novo single, ‘Ter e não ter’, é o primeiro desde a Eurovisão. Como é que se define esta música?

Primeiro uma das coisas que eu queria era que a minha primeira música tivesse um ukulele, porque sempre me apresentei com um ukulele nas mãos, sou eu, se me definisse num instrumento era um ukelele, sou pequenina, vou para todo o lado e sou divertida.

Queria que a música fosse a mais genuína possível tendo em conta o meu estado de vida agora e por isso o videoclipe passa-se em sítios importantes para mim -  esta sala da Universal onde estamos agora, o 5 Para a Meia-Noite que foi a minha casa de tantas entrevistas, o café que aparece no início, que era para onde ia no pouco tempo que tinha com os meus amigos. Queria que fosse uma passagem mesmo real do meu último ano e a música fala dos meus dias e dias sozinha num hotel a tentar divertir-me, a dançar nos corredores, tudo isso aconteceu, sou mesmo essa pessoa. O que me fez afastar um bocadinho das pessoas, por necessidade profissional e isso magoou-me, mas é perceber e aceitar essa realidade.

Fala de ter essas pessoas presentes sem elas estarem mesmo lá…

Sim isso mesmo. Quantas vezes os meus amigos diziam na brincadeira, mas era verdade, que só sabiam de mim pela televisão. O que era uma coisa horrível de se ouvir, magoava-me tanto e fazia-me pensar que realmente estava muito afastada das pessoas, mas é preciso aceitar.

Não vão ser só músicas bonitas, também vai ter a minha ‘parvalhice’ e alguns momentos humorísticos, espero que as pessoas entendam, porque eu sou um bocado estranhaO lançamento do álbum está previsto para este ano. Quando é que o público o vai poder ouvir e o que se pode desvendar para já?

O lançamento está previsto para setembro e tem várias participações. Não só a cantar, mas principalmente na composição. Literalmente peguei nesta oportunidade para convidar e para tomar cafés com as pessoas que eu mais adorava e admirava na indústria e no mundo da música e, felizmente, todas elas aceitaram. Estou a construir algo que me fascina imenso.

Ainda por cima estou a trabalhar com o Tiago Bettencourt, que adoro de coração e posso dizer que este disco vai ter algumas surpresas, não vão ser só músicas bonitas, também vai ter a minha ‘parvalhice’ e alguns momentos humorísticos, espero que as pessoas entendam, porque eu sou um bocado estranha.

Vai ser todo em português?

Sim, todo em português. É engraçado porque sempre compus em inglês, mas de repente por causa d’O Jardim’, que nem é uma música minha é da Isaura, acabei por me deparar com essa necessidade de comunicar na minha língua e tenho escrito sempre em português agora. Acho que é mais direto e mais genuíno porque toda a gente percebe e a mensagem passa, o que é uma grande preocupação minha.

Como foi trabalhar com o Tiago Bettencourt na produção deste álbum?

Ele compreende-me imenso. Houve uma fase que nem eu me compreendia musicalmente em formato de estúdio e ele percebeu-me, daí concretizamos a ‘Ter e Não Ter’. Agora estamos a trabalhar nas restantes músicas, mas estou mesmo contente.

Mas no início foi difícil porque ele pediu-me para tomar o pequeno almoço às 7h da manhã e eu odeio acordar cedo [risos]. Pensei logo ‘isto vai correr mal, vai correr mal e não vamos conseguir trabalhar juntos’, mas felizmente ele converteu-me a essa coisa de acordar cedo e temos trabalhado imenso e feito experiências com o que eu quero fazer e com o que ele quer fazer. Tem sido muito engraçado, temo-nos tornado grandes amigos e foi uma grande força porque eu era do Porto e mudei-me recentemente para Lisboa.

Como foi essa mudança?

Complicada, que eu gosto mesmo muito do meu Porto [risos]. Mas já encontrei o meu grupinho e o meu convívio e já sei onde se sai à noite [risos], por isso já não é mau.

Tem dois projetos musicais muito diferentes: um a solo de baladas e outro numa banda de jazz, gipsy e rock, vamos poder ouvir todas essas influências neste disco?

Acho que a minha influência de jazz está sempre presente, porque é aquele estilo musical com que mais me identifico, mas afastei-me muito mais dessa versão alternativa de mim. Acho que foi uma fase muito boa e construtiva, mas agora estou numa fase mais sólida e mais direta do que quero fazer. No entanto, sinto que vai haver sempre essas influências meio estranhas nas minhas músicas. Há uma, aliás, em que tenho rancho no meio portanto espera-se tudo, honestamente, neste álbum.

E depois do lançamento do álbum o que se pode esperar de Cláudia Pascoal?

Se tudo correr muito bem, como espero que corra, que ande por aí a dar concertos e a comunicar diretamente com as pessoas a minha música, não só através das plataformas digitais, mas frente a frente, ao vivo e espero que haja essa oportunidade.

Veja abaixo o vídeoclipe de 'Ter e Não Ter':

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