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"Há muito plástico que não precisa de estar nas prateleiras"

Will McCallum, ativista antiplástico da Greenpeace do Reino Unido, lançou este ano 'Viver Sem Plástico', um guia para ajudar na gradual diminuição de um dos grandes flagelos ambientais. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, refere que as ações individuais são de extrema importância.

"Há muito plástico que não precisa de estar nas prateleiras"
Notícias ao Minuto

04/09/18 por Anabela de Sousa Dantas

Mundo Will McCallum

Um estudo divulgado no início deste ano revelou que o plástico que existe no Oceano Pacífico ocupa uma área que equivale a três vezes a França. São quase 80 mil toneladas de detritos de plástico num lençol de lixo entre a Califórnia e o Havai. E este é apenas o maior dos cinco lençóis de plástico de grandes dimensões que se encontram nos oceanos.

O plástico é mesmo um dos grandes flagelos ambientais desta era e urge uma tomada de ação. Will McCallum, Head of Oceans da Greenpeace do Reino Unido, é uma das vozes a pedir mudança, num contexto global constringido por interesses económicos.

Este ano, o ativista britânico lançou o livro 'Viver Sem Plástico', um guia com pequenas mudanças para diminuir a dependência do plástico no dia a dia, que foi lançado em Portugal pela editora Objetiva. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o autor, que pede para as pessoas partilharem exemplos de uso irresponsável de plástico, como forma de responsabilização das empresas, reflete sobre o grave momento que o mundo atravessa, em termos de sustentabilidade.

McCallum não acredita que seja possível impacto a longo prazo sem ação governamental, mas sublinha que a ação individual de pessoas e empresas é perentória. A Comissão Europeia apresentou uma proposta de estratégia visando, nomeadamente, a proibição de determinados produtos de plástico não reutilizáveis, mas é necessária a legislação que tarda em chegar, e que pode ser encorajada pela ação individual dos cidadãos.

Eu sei que Portugal tem sido fustigado pelos fogos. Nós já estamos a viver esta mudança e agimos como se nada fossePor que razão as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade devem ser as principais prioridades mundiais, conforme costuma dizer?

Porque o nosso futuro depende disso. É uma resposta muito simples. Estamos a assistir a mudanças no nosso planeta a um ritmo sem precedentes, vemos habitats a serem destruídos a um ritmo sem precedentes, vemos as temperaturas a subir, condições meteorológicas extremas, em todo o planeta, é assustador. Eu sei que Portugal tem sido fustigado pelos fogos, que estão a aumentar. Nós já estamos a viver esta mudança e agimos como se nada fosse.

As coisas só vão piorar, portanto, agora estamos numa encruzilhada em que temos de escolher, como sociedade: ou tentamos reduzir os combustíveis fósseis, limitar as emissões, reduzir a perda de biodiversidade - pelo bem da alimentação, pelo bem da subsistência, pelo bem de gerações futuras, para poderem gozar dos mesmos benefícios que nós temos -, ou continuamos como se não fosse nada, por um período de tempo muito curto.

Os Estados Unidos, que são o segundo maior emissor de gases com efeito de estufa do mundo, quer sair do Acordo de Paris. Acredita que cidades, estados e negócios individuais vão conseguir impedir os efeitos das mudanças climáticas agindo sozinhos, à margem dos governos?

Não, é preciso que os governos ajam também, mas o que ações individuais ou ações de empresas fazem é dar aos políticos que querem fazer o correto o mandato para o fazer. Se as pessoas e as empresas disserem ‘queremos isto’, fica muito mais fácil para os políticos poderem avançar com propostas. Vemos isso com os plásticos no Reino Unido, em que os supermercados estão a comprometer-se com a redução do uso de plástico e isto dá aos políticos uma tarefa mais fácil na altura de passar legislação.

Para mudança a longo prazo o que precisamos é de legislação, não podemos depender das empresas para mudanças a longo prazo, mas a curto prazo, o papel das pessoas e dos negócios, individualmente, é enorme.

Que responsabilidade têm companhias como a Coca-Cola, a Unilever ou a Nestlé?

Uma responsabilidade enorme. São companhias que, de acordo com investigações da minha equipa, fizeram constantemente lóbi contra qualquer esforço para apertar as leis em torno da produção de plástico. Tentam ativamente contornar qualquer responsabilidade partilhada. Têm uma responsabilidade enorme e há muito tempo que tentam culpar as pessoas, dizendo que a responsabilidade é delas. E produzem plástico em áreas que não têm infraestruturas para lidar com isso. Eles têm de assumir responsabilidade. No mínimo, têm de parar de fazer lóbi contra mudanças positivas.

Vamos começar por nos livrarmos de produtos que não sejam recicláveis ou que se reciclem poucoQue práticas implementadas por uma empresa ou por um país gostaria de destacar como positivas?

Quaisquer práticas que tenham objetivos de redução, que ainda se veem pouco. Vemos isso nas ilhas Seychelles, estão ser pioneiros, banindo a importação de plásticos de uso único [palhinhas, copos, etc]. Mas o país ou a empresa que serei o primeiro a promover será aquele que introduzir objetivos de redução. Há muito plástico que não precisa de estar nas prateleiras, pode-se reduzir muito facilmente. Vamos começar por aí. Vamos começar por nos livrarmos de produtos que não sejam recicláveis ou que se reciclem pouco. Vamos fazer isso até ao final do próximo ano e depois olhamos para objetivos de redução.

A quantidade de plástico que produzimos nos últimos 10 anos aumentou drasticamente e pode duplicar nos próximos 10 anosAcha que o plástico foi uma epidemia silenciosa?

Sim, acho que sim, acho que nos apanhou de surpresa. A quantidade de plástico que produzimos nos últimos 10 anos aumentou drasticamente quando comparada com os anos anteriores, e pode duplicar nos próximos 10 anos. É um problema que está a crescer muito, muito rapidamente. Mas também acho que o conhecimento científico sobre a escala e o impacto do plástico ainda está em fase embrionária. Quando mais se souber sobre o assunto, espero que haja menos desculpas para não fazer nada.

Onde sugere que as pessoas comecem já a cortar no plástico, no seu dia a dia?

O livro está, naturalmente, cheio de formas de o fazer mas, no meu entender, o que as pessoas devem fazer, em primeiro lugar, é livrarem-se dos itens de plástico que só usam uma vez: copos para café, garrafas, sacos e palhinhas. Se for uma das muitas pessoas do mundo que consume apenas um daqueles itens todos os dias, isso já tem um impacto enorme no ambiente.

Em segundo lugar, é necessário ser-se mais organizado na altura de fazer compras. Pesquisar, fazer uma lista antes de sair de casa, levar almoço ou lanche para o trabalho, ao invés de comprar pelo caminho, aprender com as gerações antes de nós, que não desperdiçavam tanto.

Em terceiro lugar, é preciso encontrar aliados, encontrar amigos e colegas que também o façam. Só assim conseguiremos lidar com este problema, agindo em conjunto. Falar com pessoas sobre o porquê de o estar a fazer e ver a reação. Assim pode-se partilhar as ideias e partilhar as práticas.

Se não fizermos algo agora, as coisas só vão piorarO que o move nesta luta contra o plástico?

Ir até ao mar e vê-lo lá. Sempre que estou num navio ou a andar de caiaque na costa ou mesmo se estou de férias na praia, vejo-o lá. E saber que cada peça de plástico que vejo vai ser levado para o oceano, onde se vai desfazer em microplástico e onde poderá viver durante centenas de anos. É isso que me motiva, isso e saber que a produção se prepara para duplicar nos próximos 10 anos. Portanto, realmente, se não fizermos algo agora, as coisas só vão piorar.

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