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"Fui o único a propor uma solução para o problema financeiro do Sporting"

Vencido nas eleições do ano passado, o gestor volta às urnas no próximo dia 8 de setembro . Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o candidato revela os trunfos para chegar à presidência do Sporting.

"Fui o único a propor uma solução para o problema financeiro do Sporting"
Notícias ao Minuto

02/08/18 por Fábio Aguiar

Desporto Madeira Rodrigues

A cerca de um mês e uma semana das eleições no Sporting, Pedro Madeira Rodrigues mostra-se confiante numa vitória no próximo dia 8 de setembro. Em entrevista exclusiva concedida ao Desporto ao Minuto, o candidato considerou que chega "mais forte" depois da derrota para Bruno de Carvalho no ano passado e revelou os trunfos com que conta nesta corrida à liderança do emblema de Alvalade.

A cerca de um mês e uma semana do ato eleitoral, com que convicções parte para esta fase da campanha?

Com a convicção cada vez mais substanciada em factos de que nós somos a equipa com um projeto consistente, com ideias inovadoras e com aquilo que o Sporting precisa para voltar a viver os seus valores, com uma visão ambiciosa, ou seja, do grande Sporting, que é a bandeira da nossa equipa. Queremos pôr o Sporting a ganhar! É fácil dizer, mas nós temos conseguido concretizar a forma como o vamos fazer. O Sporting tem tido um problema imenso com a crise identitária e isso foi talvez a pior repercussão destes últimos tempos, com Bruno de Carvalho em particular, mas também é algo que vem de trás. O Sporting precisa de voltar a viver os seus valores, a sua identidade, e nós estamos a conseguir isso: Trazer para o Sporting estas pessoas que vivem os valores, que eu aprendi quando era miúdo e joguei no Sporting, a garra e a vontade de vencer, mas com desportivismo, respeito e humildade. É isto que faz o Sporting ser grande e é também isto que temos vindo a perder.

Está confiante numa vitória no próximo dia 8 de setembro?

Acredito que estamos no caminho certo, sem convencimentos de espécie nenhuma e com a humildade de ouvir o que os sócios dirão depois. Tivemos a experiência do ano passado, que foi muito dura. Aí não conseguimos passar a nossa mensagem, aprendemos, eu aprendi pessoalmente, e estamos a fazer isto de forma mais consistente. Era normal que a única pessoa que se candidatou contra Bruno de Carvalho, e que no fundo antecipou que este mandato não ia correr bem, avançasse agora. Mas eu não o iria fazer só porque sim! Tinha de ter condições para isso e muni-me de duas condições fundamentais. O Sporting vive uma crise financeira profunda e acho que as pessoas ainda não perceberam isso. Teremos de alertar para esse facto. Além disso, tínhamos de ter esse apoio financeiro. Por outro lado, o futebol. Nós não somos campeões há 16 anos e, por isso, teríamos de ter uma equipa forte para o futebol.

Não há tempo para perder e não há transições para fazer. É urgente que entre uma equipa para fazer um mandato de quatro anos e consiga pôr o Sporting a viver os seus valores e, principalmente, a ganhar  

Foi com essas diretrizes que decidiu avançar.

Sim, só com isso é que eu iria avançar. Foi isso que fiz, juntei uma equipa Diretiva, de Assembleia Geral (AG), de Conselho Fiscal (CF), um pouco do que deve ser o sportinguista, com a tal integridade e com relação com o desporto. Tanto o Pedro Feist como o António Tânger, os candidatos, respetivamente, à AG e ao CF, viveram o Sporting como desportistas, tal como eu, e depois tiveram todos carreiras de sucesso cá fora. E é isso que queremos trazer para o Sporting. Queremos gente preparada para servir o Sporting. Não há tempo para perder e não há transições para fazer. É urgente que entre uma equipa para fazer um mandato de quatro anos e consiga pôr o Sporting a viver os seus valores e, principalmente, a ganhar. 

Sente que chega com uma posição mais reforçada em relação às eleições ano passado?

Claramente! As pessoas não me conheciam, por um lado, e estava a enfrentar todo um sistema, por outro. Todo o sistema que rodeou Bruno de Carvalho, que estava com muita força na altura. Além disso, ele tinha todo o sistema com ele, ou seja, todas estas pessoas que agora aparecem, desde José Maria Ricciardi, até Rogério Alves... Todos eles, que agora são candidatos. O Álvaro Sobrinho também! No fundo, eu enfrentei este grupo grande e depois ainda fui enfrentar o Jorge Jesus. Agora é muito mais fácil, pois as pessoas já me conhecem, já conhecem a minha integridade, o meu sportinguismo, a minha coragem, a minha competência e acho que já estão mais disponíveis para me ouvir.

Na altura não o quiseram ouvir?

Não, as pessoas nem me quiseram ouvir. O Bruno de Carvalho é que era! De repente, as pessoas perceberam que eu tinha razão e pensaram: 'Bem, o Pedro antecipou este cenário'. E acho que um líder é isso mesmo. Deve antecipar situações e ver mais à frente. Claro que todos se podem enganar, mas os líderes não se podem enganar tanto. E o que eu vejo é uma série de pessoas que se enganaram redondamente. Não venham com a conversa de que Bruno de Carvalho mudou! Ele sempre foi o mesmo! Deslumbrou-se um pouco mais? Acredito que sim... Mas entendo que as pessoas se tenham enganado. Não guardo nenhum ressentimento por quem me ofendeu ou por quem mentiu, mas pessoas que queiram ser presidentes do Sporting não podem ter este erro de avaliação, pois podem voltar a tê-lo no futuro.

Acredita que agora está mais perto de vencer?

Acredito, sem dúvida, que estou mais forte do que na última vez. Além disso, conheço ainda melhor o Sporting e fui capaz de me rodear de uma equipa ainda mais competente. Da última vez foi tudo um pouco de forma mais voluntariosa. Atirei-me para a frente porque era preciso marcar esta posição. O Sporting não é Bruno de Carvalho e, acima de tudo, foi isso que eu fui dizer. Apresentei um projeto, esse projeto está solidificado nesta altura e sinto-me muito mais capaz, com a equipa que tenho comigo, de responder aos anseios dos sportinguistas.

Notícias ao MinutoPedro Madeira Rodrigues visitou a redação do Desporto ao Minuto e revelou, em exclusivo, o que mudou no seu projeto, em relação às eleições do ano passado © Carlos Fernandes

Ou seja, a grande diferença para estas eleições não é tanto o projeto, mas sim o conhecimento que os sócios já têm do Pedro Madeira Rodrigues?

O projeto, na sua essência, é o mesmo, mas fomos melhorando vários aspetos. Temos uma equipa mais consistente para conseguir concretizá-lo. Neste momento, este projeto é ainda mais urgente. Se há um ano a questão dos valores não era tão importante e as pessoas não me quiseram ouvir, agora, depois de tudo aquilo que aconteceu, perceberam que o clube precisa de gente séria, íntegra, competente e que nos traga vitórias. Aquilo que eu apresentei da última vez, ou seja, a questão da integridade e da seriedade, agora é mais valorizada pelos sportinguistas. Por aí, as pessoas vão ouvir-me mais.

Além disso, tenho pessoas excelentemente competentes. Estou muito orgulhoso de ter conseguido trazer pessoas como o prof. Mariano Barreto, que tem tanto conhecimento de futebol e de Sporting, o prof. José Tomaz, também com muito conhecimento de Sporting e das modalidades. Da última vez não o tinha conseguido, por muito respeito que tenha pelas pessoas que trouxe. Depois, há toda a equipa que juntei para o futebol, desde o Delfim, que já estava connosco no ano passado, o Ricardo, o Marco Aurélio, o Balakov, o Luís Gonçalves, o Lima, que felizmente já está a trabalhar no Sporting, e isso é ótimo, para além do treinador, que é exatamente aquilo que o Sporting precisa nesta altura. 

Há alguns candidatos que estão a ser mais oportunistas. Viram agora uma oportunidade maior, não havendo Bruno de Carvalho, pelo menos com aquela força. É mais fácil aparecerem agoraComo explica que num momento tão conturbado, seguramente um dos mais difíceis da história do Sporting, surjam tantos candidatos?

Eu não vou querer fazer juízos de valor sobre as motivações de cada um. Penso que todos estão motivados pelo mesmo, de uma forma geral, ou seja, servir o Sporting. No entanto, há alguns que estão a ser mais oportunistas. Viram agora uma oportunidade maior, não havendo Bruno de Carvalho, pelo menos com aquela força - vamos ver se será candidato ou não. É mais fácil aparecerem agora. Eu acho que estas pessoas viram aquilo que eu vi na altura, mas não tiveram a coragem de enfrentar ou de saírem 'chamuscados', porque eu saí, de certa forma, 'chamuscado'. A minha imagem e o meu nome foram muito denegridos e eu sei que tenho que recuperar os recuperar, pois tenho consciência de que muita gente que acreditou no que Bruno de Carvalho disse sobre mim. Portanto, eu tenho que recuperar essa imagem e acredito que o estou a conseguir.

Acha que essa experiência anterior diferencia a sua candidatura?

Já me disseram que isso me beneficia, o facto de haver tantos candidatos, por ser diferente de todos os outros. Fui o único que lá esteve, sou o único que tem coragem de dizer aquilo que é melhor para o Sporting, sou o único que apresentou uma equipa consistente do início ao fim. Enfim, tenho uma série de diferenças em relação a todos os outros. Isso beneficia-me! Agora, não sei se para o Sporting é bom haver tantos candidatos. No entanto, acho que no fim do dia vamos ter três ou quatro candidatos fortes. 

Pensa que nem todas as listas vão chegar ao fim, é isso?

Não vão... Ou melhor, os sportinguistas vão fazer aquilo que fizeram, por exemplo, em 2011, escolhendo três ou quatro que têm maior probabilidade de ganhar. Não tenho dúvidas de que nós vamos lá estar no lote dos favoritos. 

Quais serão os seus principais rivais nesta corrida?

É difícil dizer... Houve o aparecimento de José Maria Ricciardi, uma figura forte, muito conhecedor do Sporting, mas também com muito 'handicaps'. Já o Frederico Varandas arrancou à frente, mas tem vindo a perder terreno. Ele diz que foi o primeiro, mas não! Eu avancei há um ano, bem antes dele! O João Benedito tem uma boa imagem, mas as pessoas ficam com dúvidas sobre se será capaz já... Enfim, não sei. Os sportinguistas é que vão decidir.

José Maria Ricciardi, que estava há muito tempo interessado em ser presidente do Sporting. Surpreende-me é o 'timing', vem muito tarde e isso demonstra hesitação. É isso que me surpreende maisSurpreendeu-o esta candidatura de última hora de José Maria Ricciardi?

Não me surpreendeu pelos sinais que eu via no José Maria Ricciardi, que estava há muito tempo interessado em ser presidente do Sporting. E este era o momento, já que já não está no banco, está com um projeto pessoal. Surpreende-me é o 'timing', vem muito tarde e isso demonstra hesitação. É isso que me surpreende mais. Repare: Há cerca de dois meses, Álvaro Sobrinho, o maior acionista privado do Sporting, identificou quem é que queria para o Sporting: Rogério Alves no clube e José Maria Ricciardi na SAD. E eu aí percebi logo que estes dois ou iriam aparecer juntos ou... Não sei. Dá-me a ideia de que Álvaro Sobrinho, ou alguém, não querendo fazer juízos de valor, percebeu que o grupo de Rogério Alves não está com a força que gostaria que estivesse. Como tal, quiseram fazer uma candidatura aglutinadora, com todos os que apoiaram Godinho Lopes e que apoiaram Bruno de Carvalho. Contudo, o candidato não está a revelar a força que desejavam. Isto é a minha interpretação! Posto isto, aparece agora José Maria Ricciardi, não sei se com o apoio de Álvaro Sobrinho, mas ele é um homem generoso, consegue fazer o bem pelo Sporting. Mas não vou esquecer isto que o Álvaro Sobrinho disse: 'Quero o Rogério Alves para o clube e o José Maria Ricciardi para a SAD'. Acho que os sportinguistas também não irão esquecer-se disso.

A situação financeira no Sporting é o grande desafio para quem for eleito?

Não tenho nenhuma dúvida quanto a isso e infelizmente fui o único que propôs uma solução para isto. É uma solução básica, pois não é fácil. Tenho contactos internacionais, que fui granjeando ao longo da minha vida em gestão, nos últimos 25 anos, e o Imran Mohamed, que tem uma grande relação com o Médio Oriente. Já começámos a explorar esse mercado no ano passado, na última campanha, onde estivemos no Kuwait e nos Emirados. Agora temos esta solução para o Sporting. Vamos ter de fazer um empréstimo obrigacionista considerável para resolver os problemas que vêm do passado, os problemas da tesouraria e, de certa forma, o futuro. Serão, pelo menos, 100 milhões de euros. Temos de ter uma garantia, acreditamos que a conseguiremos no mercado, mas também não queremos dar uma taxa muito generosa, pois o Sporting não tem capacidade para o fazer. Deste modo, vamos ter esta ajuda dos nossos parceiros do Médio Oriente. 

Notícias ao MinutoCandidato mostra-se confiante numa vitória no próximo dia 8 de setembro © Carlos Fernandes

A maioria da SAD também é um objetivo?

Sim, vamos ter a maioria da SAD. Aqui Álvaro Sobrinho terá muito a perder. Vamos ficar com quase 90% da SAD, que depois iremos ou não vender, consoante as necessidades do Sporting, tendo sempre, pelo menos, a maioria. Disso nunca abdicaremos! O que eu gostava era que o Sporting tivesse 100% da SAD. Confesso que me faz um pouco confusão esta coisa das empresas. Podem chamar-me antiquado, mas eu vejo o Sporting como um clube único. Contudo, isso não é possível para termos equipas competitivas e um futuro sustentável.

Quais serão os outros grandes desafios para o candidato que for eleito?

O grande desafio é unir o Sporting. Viu-se no último jogo uma minoria ruidosa, que também esteve presente na AG do dia 23 de junho, e as pessoas vão ter de ser capazes de unir o Sporting. Não fará mal que uma pessoa ganhe com 40%, pois o dia depois é que vai mostrar. Eu tenho uma grande vantagem em relação a todos. Eu passei o que passei para que o Sporting volte a viver os seus valores e para que o Sporting seja o Sporting. E o Sporting sendo o Sporting é um clube democrático, onde não nos identificamos só com uma pessoa. O Sporting nunca pode ser confundido com uma pessoa e esse foi o grande erro de Bruno de Carvalho, para o qual eu alertei. E eu, como pessoa que sofreu isto na pele, dizendo-o antecipadamente, vou ser capaz de unir, ao não mostrar ressentimento, rancor ou qualquer tipo de sentimento desse tipo. Somos todos sportinguistas! Para quê isto? Sportingados? O que é isto? Eu levei com isso e, como tal, jamais farei esta divisão entre bons sportinguitas e maus sportinguistas. Portanto, sei bem o que é preciso fazer para unir o clube.

Mas os resultados também serão importantes...

Claramente! Sei também que temos de pôr rapidamente as nossas equipas a ganhar e acreditamos que o vamos conseguir, com pessoas competentes, preparadas e até capacitadas a nível internacional. Seja no futebol ou nas modalidades. Isso é fundamental para o próximo presidente. Se for eleito, vou ser um presidente 'low profile', isto é, vou querer dar destaque às nossas equipas e aos nossos adeptos. Nesse aspeto terei um comportamento muito diferente do de Bruno de Carvalho. Temos de pôr as nossas equipas a ganhar e não vamos ter tempo para perder! Teremos algum estado de graça no início, mas rapidamente vamos ter de ter resultados e é para isso que vamos trabalhar com todo o afinco. Somos pessoas do desporto e por isso não prometemos vitórias. Isso é só para quem não vem do desporto. Temos adversários, temos contingências, mas vamos fazer tudo para ganhar!

Disse há uns tempos que quem vencesse as eleições teria de ter consciência que iria ter de começar do zero. Será mesmo assim?

O Sporting nunca começará do zero, o que eu falo é do virar da página. Tudo que o aconteceu, desde o ambiente na AG, passando pela final da Taça de Portugal, até aos incidentes na Academia, tudo deve ser deixado para trás. Isso é que é começar do zero. Agora, temos muito orgulho nos 112 anos de história e temos de voltar a reviver esses valores. O Sporting correu o risco de perder a sua identidade nos últimos anos. Mesmo antes de Bruno de Carvalho tivemos muitos problemas. Numa espécie de dinastia, houve o afastamento dos sócios e Bruno de Carvalho teve esse mérito de os aproximar, de encher o estádio, e isso é preciso manter e até fazer crescer. Mas temos de voltar a viver a identidade do Sporting e a liderar, dando sempre o exemplo, ajudando os clubes mais pequenos a crescerem. O Sporting foi o primeiro a fazer a SAD, o primeiro a construir a Academia e temos de voltar a liderar. A nossa formação, por exemplo, ficou para trás. Fiquei muito feliz por ver os sub-19 a ganhar o Europeu, mas a verdade é que só lá estão três jogadores do Sporting. Aí perdemos muito e temos de recuperar.

Há algo que está a correr muito mal na nossa formação e nós temos de rapidamente atacar isso. É muito preocupante e é isso que está a corroer o Sporting por dentroEssa identidade do Sporting consegue-se trazendo referências do clube?

Também! Estamos a trazer referências, mas não são só nomes, são pessoas competentes! Na formação queremos ter pessoas identificadas com o Sporting, ex-atletas que estejam a acompanhar cada uma das equipas. Eu tive o privilégio de ter Osvaldo Silva, que acompanhava a nossa equipa. E eu fartei-me de falar com ele sobre a vitória na Taça da Taças, de como era jogar no Sporting e do jogo contra o Manchester United. Essas coisas fazem o Sporting. O que aconteceu agora com o Gelson, o Podence e o Rui Patrício é algo que não pode acontecer. Há algo que está a correr muito mal na nossa formação e nós temos de rapidamente atacar isso. É muito preocupante e é isso que está a corroer o Sporting por dentro. 

Existe a necessidade de formar homens, como tanto se fala?

Sim, temos de formar homens, mas como? Vamos apostar muito na figura do treinador, não o treinador para fazer carreira, mas o treinador pedagógico, que goste mesmo de estar com os miúdos, de os ajudar a formar. Nós queremos ganhar na formação, mas sobretudo queremos criar miúdos e prepará-los para o que eles irão enfrentar depois como profissionais de futebol. Por isso, teremos de ter treinadores muito capazes e condições na Academia para ter exigência, rigor, disciplina e comportamento. Temos de ter tudo isto! Vamos fazer uma coisa tão simples como fazer um manual, com o apoio do Rick Perry, que esteve na génese da criação da Premier League e foi CEO do Liverpool, da identidade do Sporting. Isso será transversal a tudo o que nós fazemos. Tudo o que fazemos tem de estar de acordo com o manual. E na Academia isso será fundamental para depois os miúdos não fazerem o que o Rui Patrício fez.

Não foi só o Rui Patrício! No passado foi o João Moutinho, o Simão... Todos eles saíram do Sporting, o clube que lhes deu tudo. Viraram as costas e vieram dizer que os outros clubes é que são bons  

Vejo que ficou desiludido com a forma como um jogador que era já símbolo do clube acabou por sair...

Sim, mas atenção! Não foi só o Rui Patrício! No passado foi o João Moutinho, o Simão... Todos eles saíram do Sporting, o clube que lhes deu tudo. Viraram as costas e vieram dizer que os outros clubes é que são bons. O que está a acontecer com a nossa formação? Nós temos isso identificado e temos as pessoas certas para fazer reverter esta tendência negativa. Há gente boa, o Sporting tem gente boa, sem dúvida, mas se calhar não a tem aproveitado.

Notícias ao MinutoAposta na formação é um dos principais pontos da candidatura do gestor © Global Imagens

Como viu o regresso de alguns jogadores, como Bruno Fernandes, Bas Dost ou Battaglia?

Não me surpreendeu. Surpreendeu-me é que fossem tão poucos. Dos nove voltaram três, ou seja, um terço, mas gostávamos que voltassem os nove. Isso seria o normal. Sei que passaram por muito, humanamente consigo percebê-los, mas a partir do momento em que Bruno de Carvalho sai, já não há razão para eles não voltarem. Ainda bem que temos o Bruno Fernandes, o Bas Dost e o Battaglia, que são fundamentais para o futuro do Sporting. Mas custa-me muito ver o Sporting a ter no plantel o número mais baixo de jogadores formados no clube dos últimos 20 anos. E já mandámos embora o Francisco Geraldes - ou ele foi-se embora. Eu lembro que Bruno de Carvalho herdou muitos miúdos oriundos da formação, como Bruma, William Carvalho, Dier, Adrien, João Mário... Enfim, nós não teremos esta herança. Por isso, vamos ter de trabalhar para o futuro do Sporting, com a consciência de que este é um processo a médio/longo prazo, mas que terá de ter resultados o mais depressa possível. Penso que o nome de Ranieri faz os adeptos sonhar com isso mesmo. Vamos trabalhar passo a passo, subir  esta montanha para quando sairmos, seja lá quando for - eu não me imagino a ficar no Sporting 20 ou 30 anos, acho que isso não é bom, pois as pessoas depois confundem-se com o clube -, sairmos com as bases sustentadas para quem vier ter um Sporting melhor do que aquele que recebemos.

Era exatamente isso que lhe ia perguntar. Que características o levaram a escolher Claudio Ranieri?

Eu gostava muito de Malcolm Alisson, que tinha aquele carisma, aquela presença e uma certa 'pancada'. Mas eu gostava imenso daquela figura, tal como do Bobby Robson, que tive o prazer de conhecer pessoalmente. Era um 'gentlemen', um homem de bem, mas ao mesmo tempo um raçudo, que tinha uma visão do mundo e atraía os holofotes para o Sporting. Depois de tudo o que nos aconteceu, percebi que o Sporting precisava de ter uma figura destas, ou seja, de alguém que, depois da nossa imagem ter sido manchada mundialmente, a pudesse recuperar só com o seu nome, alguém que fizesse os adeptos acreditar, alguém que privilegiasse o respeito e a exigência. E o Ranieri traz isso tudo, é algo bom para o Sporting e até para o futebol português. À partida pareceu-me uma boa ideia, mas depois fui falar com ele para perceber as suas motivações e fiquei impressionado com o que ouvi.

Para Ranieri, o Sporting é um desafio grande, mas está cheio de vontade de o abraçar. É um treinador que está habituado a situações difíceis e essas já não o impressionamPorquê?

É um homem cheio de garra, que quer ganhar títulos, ficou viciado em vencer depois do que aconteceu com o Leicester e a verdade é que, olhando para o seu currículo, verificamos que esteve sempre perto de ganhar, abriu caminho para outros, pegou em clubes numa situação muito complicada, como a Juventus, o próprio Leicester, o At. Madrid, a Roma ou Monaco, que estava na Segunda Divisão. E ele foi capaz de os reerguer. Para ele, o Sporting é um desafio grande, mas está cheio de vontade de o abraçar. É um treinador que está habituado a situações difíceis e essas já não o impressionam. Além disso, a experiência que ele traz também é importante. É uma figura quase intocável! Claro que terá de ter resultados, mas penso que ele o vai conseguir.

Foi fácil o acordo?

Sim, defini o perfil e depois de falarmos percebi que estávamos em sintonia. Demonstrou querer apostar na formação, já tinha um conhecimento profundo do Sporting, disse-me os jogadores que queria que ficassem e depois aceitou esperar até 8 de setembro. Ele está mesmo em sintonia connosco. 

Pelo que sei, fez questão de conversar com José Peseiro...

Sim, esperava que a Comissão de Gestão escolhesse um treinador para dois meses, mas acabou por escolher para um ano. Falei com o José Peseiro e percebi que ele está totalmente preparado para fazer um trabalho de dois meses. Pôs-me completamente à vontade e aqui tiro-lhe o chapéu pela coragem que teve em aceitar este projeto e de disponibilizar o lugar a partir de 8 de setembro. Foi impecável e gostaria de destacar isso. Já fez questão de o dizer publicamente, que acha normal que os candidatos surjam com treinadores, e  não consigo ver as coisas de outra forma. Como gestor, sempre que posso escolher as minhas equipas, escolho, mesmo que isso me custe algumas críticas, como já acontece, muitas delas bastante injustas. Já ouvi dizer que Peseiro é melhor treinador do que Cláudio Ranieri, que estou a perturbar a equipa... Mas os jogadores são flores de estufa? Isto é o Sporting Clube de Portugal! Perturbar a equipa porque há a possibilidade de mudarmos de treinador para o Claudio Ranieri? Algum jogador vai estar desmoralizado por causa disto? Peseiro não vai estar motivado para fazer ainda melhor o seu trabalho? Eu não consigo perceber! Acho que são muitos anos sem ganharmos e há pessoas que ficaram com esta mentalidade, do derrotista, do coitadinho... 

Falta cultura de vitória?

Vamos trazer essa cultura de vitória para o Sporting! A minha vida é ganhar, lutar sempre, não ganho sempre, como nas últimas eleições, mas a cultura de vitória é essencial. Não podemos ficar satisfeitos com segundos lugares nem com idas à Liga dos Campeões. Uma das coisas que mais me chocou recentemente foi festejarmos o segundo lugar. Já o tínhamos feito com o Paulo Bento. Isto acabou! O Sporting precisa muito de ter esta alma e esta garra de ganhar e não ficarmos contentes com o mínimo. 'Ai foi o possível...' Não! O Sporting quer o impossível, o Sporting quer o melhor e o Sporting é o grande Sporting. À vezes as pessoas esquecem-se disso. 

Como já disse, faz questão de escolher as suas equipas. Nessa sua equipa está reservada alguma surpresa de última hora para o plantel, isto, claro, para o mercado de inverno?

Temos identificado o que gostaríamos de ter e vocês podem facilmente perceber o que nós estamos a procurar. Queremos campeões no Sporting, queremos gente com alma do Sporting, temos alguns no plantel, não tenho dúvidas disso, mas queremos mais. 

Peço que oiçam bem e que percebam que, mais do que nunca, o Sporting precisa de gente com caráter, capacidade de gestão, liderança, que seja ambiciosa e que viva os valores do Sporting. Nós vamos trazer tudo isso

Numa espécie de mensagem final para os sócios, o que gostaria de dizer?

Gostava que desta vez os sócios olhassem para nós, ouvissem todas as propostas e, no meio de tantos candidatos, há uma vantagem. As pessoas vão querer conhecer os projetos, as equipas, e isso é uma vantagem. E peço às pessoas que se deixaram ir atrás de tanta coisa, das mentiras que se disseram sobre mim, que não vão atrás disso, nem de lugares comuns, nem de ideias pré-concebidas, nem de comentadores que não são pessoas imparciais, mas sim que pensem por si e que pensem no que é melhor para o Sporting Clube de Portugal. Nós lá estaremos. Vamos começar agora um périplo pelo núcleos. O que eu peço é que oiçam bem as pessoas e que percebam que, mais do que nunca, o Sporting precisa de gente com caráter, capacidade de gestão, liderança, que seja ambiciosa e que viva os valores do Sporting. Nós vamos trazer tudo isso. Temos de ganhar no futebol, nas modalidades, como já fizemos no ano passado, mas queremos mais, nomeadamente a nível europeu. Estamos a tentar trazer o basquetebol para o Sporting e isso não é impossível. Temos muito bons contactos lá fora. Acho que o céu é o limite, as pessoas têm de acreditar nisto e ser ambiciosas. E nós vamos trazer esta ambição e garra de vencer para o Sporting. 

Campo obrigatório