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Será o PSD, "ainda enferrujado", capaz de captar “eleitores bailarinos”?

Arrancou formalmente a era de Rui Rio como líder do PSD. Num começo meio atribulado, com acusações de "traição", ainda durante o Congresso devido à escolha de Elina Fraga para 'vice', importa agora saber se este 'novo' PSD vai ter força para se erguer e voltar a dar luta a um PS que continua na crista da onda e não dá sinais de esgotamento.

Será o PSD, "ainda enferrujado", capaz de captar “eleitores bailarinos”?
Notícias ao Minuto

08:32 - 25/02/18 por Melissa Lopes 

Política Análise

Rui Rio não tem propriamente uma tarefa fácil em mãos. Com pouco tempo até às eleições europeias e legislativas, ambas no próximo ano, o novo líder do partido tem pela frente várias missões, sendo a primeira delas flagrante: Afinar a máquina comunicacional, ainda "muito enferrujada", aponta o politólogo Adelino Maltez ao Notícias ao Minuto, numa conjuntura que é desfavorável ao novo líder, sobretudo a ano e meio das eleições, lembra o também politólogo António Costa Pinto. 

Unir o partido, dividido entre 'Passistas' e apoiantes do novo líder, é outra tarefa que se afigura árdua, tendo em conta o Congresso de há uma semana. “Unir o partido consegue, nem que seja unidade na diversidade. A questão é saber se tem eleitores que o tirem do ponto baixo em que se encontra, isso nem o próprio Rio sabe”, afirma Maltez, sublinhando tudo depender de como a imagem  – “que não era muito conhecida dos portugueses” – vai ser recebida. 

Por seu turno, o politólogo António Costa Pinto comenta que "crises de sucessão" nos partidos políticos não são novidade, mas frisa que o atual "processo de afirmação política do novo líder do PSD" acontece numa conjuntura de "maior incerteza". E explica porquê: "Em primeiro lugar porque o PS, aparentemente, encontra-se em crescimento de intenções de voto. Em segundo lugar, porque Pedro Passos Coelho, que foi líder durante bastante tempo, deixou ficar, naturalmente, um setor do partido, os seus apoiantes".

Afigura-se como outra dificuldade o facto de Rui Rio não estar no Parlamento e de não ter sido ele próprio a escolher o grupo parlamentar. "Isso dá lugar a, eventualmente, fações de oposição no grupo parlamentar, o que raramente acontece porque, em Portugal, quer o PS quer o PSD tendem a ter maior centralização em que a autonomia do grupo parlamentar é relativamente pequena", fundamenta Costa Pinto.

A eleição de Fernando Negrão para líder da bancada, com 39,7% da votação, expressa, aponta o politólogo, mostra precisamente a "clivagem interna" do partido e "a dificuldade de afirmação do líder perante o grupo parlamentar que, na sua maioria, inclusivamente apoiou o candidato derrotado [Santana Lopes] e que era fiel a Passos Coelho". Neste sentido, o professor universitário lembra que a "arena parlamentar continua a ser muito importante" e que a "imagem de unidade do partido é importante, sobretudo a um ano e meio das eleições legislativas". 

Tempo escasso para Rio até às legislativas de 2019

Acresce ainda à lista de obstáculos do PSD a falta de tempo. "Rio tem um tempo curto, numa conjuntura que já é relativamente difícil para o líder do principal partido da oposição conseguir afirmar", considera Costa Pinto, notando que a "conjuntura económica e a estabilidade jogam a favor do PS" e que "o eleitorado, ao contrário do que pensa, quer no centro direita quer no centro esquerda, não gosta de partidos e ainda gosta menos de partidos em conflitualidade interna, pelo que isto pode ser mais um fator prejudicial à performance eleitoral". 

Adelino Maltez defende que Rio "precisa de mais seis meses”. “Rui Rio não ocupava o espaço mediático, os instrumentos que o PSD tem para o espaço mediático estão todos desatualizados, as correias de transmissão do PSD já estão desatualizadas. Isto vai ter alterações a médio prazo, naturalmente”, indica o especialista que vê a máquina comunicacional deste PSD "ainda muito enferrujada". 

O PS conseguiu construir – “porque antes também não o tinha” – um terreno “extremamente favorável”. “Não há dúvida de que António Costa tem um conforto, tem as vias todas ocupadas e não perde pitada”, afirma o politólogo, demonstrando que isso está patente, por exemplo, no facto de conferências de imprensa de ministros deste Governo serem transmitidas simultaneamente pelos três canais de televisão, nos telejornais das 13 horas, onde “circulam um milhão de eleitores que votam PS ou PSD”. “Há aqui uma política bem montada de comunicação e de imagem. O PSD não tem isso, nem vai ter (...) O PSD tinha uma grande estabilidade que o Marcelo roubou para a Presidência da República. Vai demorar uns tempos a afinar isto", completa. 

E se não resultar? E se Rui Rio não conseguir levantar o PSD? Nesse caso, defende Maltez, “o problema não é para o PSD, é para o sistema político”. E acrescenta: “Se o PSD entrar em espiral decadente, o sistema político altera-se e o sistema político depende sempre de um dos dois partidos se ameaçarem um ao outro”.

Quanto à polémica em torno de Elina Fraga, Adelino Maltez e Costa Pinto entendem que não é um fator de grande relevância. O sucesso ou insucesso do PSD, considera Maltez, não se pode “reduzir a um caso [Elina Fraga]". O politólogo antevê que “daqui a 15 dias” esse seja já um assunto esquecido. O sucesso de Rui Rio, reforça ainda, depende é de o PSD se conseguir libertar da posição em que está e de, num ano, crescer pelo menos 5%”. Para Costa Pinto, o caso Elina Fraga "é um epifenómeno" que "poderá ter apenas um impacto conjuntural". "São situações que, no geral, marcam os grandes partidos. Os grandes partidos estão cheios de Elinas Fragas", desvaloriza.

PSD e PS de braços abertos um para o outro? 

Já sobre a nova abertura - "que não é nova, é velha" -  na relação com o PS para formar consensos, Adelino Maltez não vê nada de novo. “O que interessa aqui é que em matérias de defesa e segurança, matérias de administração interna, matérias de justiça sempre houve um tratado entre o PS, PSD e CDS e, nalguns casos, o PCP e outros. Julgo que isso não vai ser muito difícil de alcançar e pode aliviar um bocado a bolsa de cada um de nós se houver mais estabilidade nestes processos”, vislumbra Maltez, lembrando inclusive que o Presidente da República já disse que quer consensos. “Isto é uma posição de conservadores do sistema. Vai continuar a existir e é para manter”, conclui, frisando que não se trata propriamente de uma coligação governamental. “Não é propriamente um acordo formal de regime, com caneta e fanfarra, não é preciso. Está tudo conservado e estabilizado há 40 anos”.

António Costa Pinto afirma que “não é de esperar” grandes pactos de regime pelo simples facto de se estarem a aproximar eleições. Tendo sido o PSD de Passos Coelho percecionado como mais à Direita do que é habitual, "é natural que o novo líder esboce uma reconquista dos tais 800 mil votos perdidos". "Uma parte deste recentramento do discurso do PSD tem que ver com essa tentativa de recuperar desse eleitorado", constata. 

Seja como for, Maltez crê que só as sondagens podem revelar se o PSD de Rio vai no caminho certo ou não. No seu entender, daqui a um mês as sondagens estarão na mesma. Contudo, admite que “pode haver uma alteração psicológica”. “Como é que o estilo político como o de Rio capta este milhão de eleitores bailarinos, que passam do PS para o PSD?  É uma incógnita para todos e o verdadeiro desafio do ex-autarca do Porto.

O politólogo faz, no entanto, uma ressalva lembrando o caso de Cavaco Silva. “Às vezes, aqueles políticos que nós pensamos que não são do nosso agrado são os que captam o homem ‘médio’. O doutor Cavaco quando apareceu, ninguém o entendia, no entanto, ele ganhou as eleições por maioria absoluta”. Como se explica isso? “Tinha uma intuição do que era o homem ‘médio’, o bom político é precisamente esse, é aquele que consegue perceber, com métodos próprios ou intuição, para onde é que vai o eleitorado. Depende muito dessa aventura”, finaliza.

Perguntamos nós, será Rui Rio um homem de intuição?

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