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Agora que debates acabaram, vamos a 'votos': Quem ganhou e quem perdeu?

Três politólogos elegem Paulo Raimundo e André Ventura como os candidatos que menos bem estiveram nos debates, concordando ainda que Pedro Nuno Santos 'brilhou' no frente a frente com Luís Montenegro, apesar de ter tido piores prestações noutros debates.

Agora que debates acabaram, vamos a 'votos': Quem ganhou e quem perdeu?

Depois de 30 debates televisivos - 28 opondo dois líderes partidários e dois com todos os partidos (com e sem assento parlamentar) - e um debate nas rádios, quem esteve melhor? E pior? Quem surpreendeu? E quem desiludiu? Em termos gerais, e segundo a análise de vários politólogos consultados pelo Notícias ao Minuto, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro destacam-se pela positiva, com Paulo Raimundo e André Ventura a serem apontados como os candidatos com piores prestações, ainda que por razões diferentes. 

Paula do Espírito Santo, José Adelino Maltez e André Freire são unânimes: os debates são necessários, foram úteis e "esclarecedores", e têm o poder de mudar o sentido de voto

"Penso que no caso de Pedro Nuno Santos as expectativas não eram muito elevadas, e ele acabou por evidenciar-se mais no debate com Luís Montenegro. Já não esteve tão bem no debate com todos", começa por avaliar Paula Espírito Santo, professora de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

Ainda à esquerda, a politóloga diz que Paulo Raimundo também se foi evidenciando - "dentro do seu estilo próprio de não se evidenciar a si mas sim ao partido" -, e que "Mariana Mortágua "teve alguma dificuldade porque não começou da melhor forma, e prolongou ali um assunto [ sobre as rendas da avó] que se foi estendendo". 

"Inês Sousa Real, do PAN, também não entrou com o pé direito porque André Ventura acabou por não deixar, criando ali muito ruído. Mas depois foi firmando a mensagem essencial. Rui Tavares é um bocadinho fora do espectro porque tem a imensa do pensador, com um debate mais reflexivo e que aprofunda os temas, e neste caso o debate não o serve tanto. Não se pode dizer que seja ganhador nos debates mas manteve o nível que se esperava", continua. 

Para a professora universitária, Luís Montenegro também "teve um bom desempenho". "Não tanto quando se confrontou com Pedro Nuno Santos, mas foi mais regular. As expectativas eram boas e acho que não defraudou. Podia ser mais afirmativo, nomeadamente no que toca a viabilizações. Mas também trata-se de uma estratégia", afiança. 

No caso do Rui Rocha, "não esteve muito bem ao longo do tempo". Não pela forma como afirma as suas ideias, que são muito "matraqueadas", usando os mesmo chavões, "mas porque esteve muito virado sobre ele próprio nos debates". 

Por fim, "Ventura foi o que esteve pior, do ponto de vista da comunicação". "No caso dos debates o que ele fez foi, sobretudo, introduzir ruído. Contudo, também se pode interpretar que aquele formato combativo de quase tentar liquidar quem está à sua frente, com aquele vocabulário e aqueles insultos,  também pode desencadear a ideia de disrupção reativamente a um discurso tradicional e que pode ter seguidores. Mas do ponto de vista democrático não prestou com serviço. 

Termos mais debates seria terrível, teríamos discos riscadosJá para o politólogo José Adelino Maltez, os debates foram “esclarecedores mas pouco surpreendentes”

"Confirma-se o que se previa, os debates são muito bem organizados e eles antes de falarem já têm tudo decorado, tornando-se maçadores. Dizem sempre o mesmo. Cada um diz o seu discurso, mas sempre em repetição. Neste sentido, termos mais debates seria terrível, teríamos discos riscados", considera o politólogo, professor universitário e investigador de Ciência Política.

No entender de Adelino Maltez, "houve algum automatismo daquilo a que se chama propaganda com o diálogo". "Cada um de nós, à segunda vez de um candidato num debate, já sabia o que iam dizer. Fossem quais fossem as perguntas, as respostas eram que já tinham no argumento", lamenta. 

O politólogo prefere não dar ‘notas’, método tão amplificado nestes debates, mas faz sobressair que “alguns dos pequenos” acabaram por ficar para trás nos debates, “o que pode levar ao desaparecimento da sua presença no Parlamento”. 

"O senhor do PCP [CDU] não aqueceu, a senhora do PAN empancou, o Ventura cansou… Perderam a oportunidade de falar e não resultou", afirma ao Notícias ao Minuto, frisando ainda a "falta de preparação dialética do candidato do PCP [CDU] que nem dramatizou a necessidade da presença do partido no Parlamento". 

Por sua vez, o politólogo André Freire considera que "Montenegro se saiu muito bem no confronto com André Ventura, mas com Pedro Nuno Santos já esteve menos bem"

"Depois, Pedro Nuno Santos também esteve bem com Luís Montenegro e noutros debates, nomeadamente com Ventura, ficou um bocadinho aquém daquilo a que nos tem habituado. Nalguns debates esteve abaixo do que era expectável, em termos de combatividade", prossegue, alegando que houve "heterogeneidade".

Segundo André Freire, "Mariana Mortágua também esteve muito bem". "O Rui Rocha, de certa maneira, também se revelou. Marcou uma presença das ideias liberais", afirma, apontando "pouca tarimba" a Paulo Raimundo. 

"Acho que está ainda a ganhar de endurance. [Raimundo] fez passar a sua mensagem, da importância de valorizar os salários, mas é uma pessoa que ainda tem pouca tarimba nos debates", afirma André Freire.  

"Depois o Rui Tavares e a Inês Sousa Real, acho que tiveram boas prestações, combativas, com ideias diferentes, e acho que isso foi positivo. O André Ventura, no seu registo, também foi heterogéneo, embora a falar por cima dos outros", defende. 

Confronto entre Pedro Nuno e Montenegro destacou-se

Sendo unânime que o debate entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro se destacou entre todos os outros, também se firma que o candidato do PS o findou com melhor nota - mas por pouco. 

"Tendo em conta as expectativas, pode ter corrido melhor a Pedro Nuno Santos, até porque não tendo sido ele a iniciar o debate, acaba por marcar o tom com dois grandes pontos, como as forças de segurança e a definição quanto a Montenegro. Isto acabou por ficar um bocadinho estragado porque não foi muito esclarecedor com as declarações dos dias seguintes", lembra Paula do Espírito Santo. 

O mesmo sustenta André Freire, que o dá como um "debate elevado". "Pendeu mais para o lado do Pedro Nuno Santos em termos de assertividade e pareceu mais bem preparado. Depois Montenegro insiste naquele tabu com a viabilização, enfim, é uma tática, mas é um défice de clareza", refere. 

Paula Espírito Santo assevera ainda que "Montenegro manteve o registo e foi também combativo", pese embora se tenha evidenciado menos. 

Adelino Maltez, por sua vez, vê o cenário mais desfavorável para ambos os candidatos. 

"Houve mais rejeições para cada um deles do que propriamente conquistas para cada um deles, também. Quando entraram tinham determinado espaço e quando saíram, terão ficado com o mesmo. Acabaram por empatar. Mas julgo que cada um deles fez exatamente aquilo que queria fazer", declara ao Notícias ao Minuto. 

Para o politólogo, "a certa altura Montenegro exagerou na repetição dos slogans", o Pedro Nuno exagerou "na colocação de voz e na interrupção dos outros". "Mas ninguém estava à espera que algum deles fosse genial e pelo menos nenhum deles saiu com negativa", afiança. 

Confrontos podem mudar o sentido de voto?

De acordo com Paula Espírito Santo, os debates são importantes para todas as franjas de eleitores - quer estejam ou não indecisos - uma vez que estes são "cada vez mais voláteis". 

"É um sintoma da democracia, não cristalizarmos o voto e cada vez mais refletirmos no momento eleitoral. Os estudos também demonstram que mais de metade do eleitorado tende a pensar em cada ato eleitoral e sobre a sua decisão de voto como eleitores flutuantes. E esses eleitores acabam por ser determinantes porque acabam por decidir o voto mais tarde. Daí que os debates podem ajudar a definir o voto numa grande parcela de eleitores", afirma.

Os debates terão auxiliado também os indecisos, que procuravam informação para pender para um ou outro lado. “Alguns [terão mudado sentido de voto] porque ao invés de criar empatia podem mesmo ter criado o contrário”, salienta Adelino Maltez, que continua, dizendo que "quem assistiu a todos os debates ou à maioria "ficou a conhecer a personalidade política de cada um dos candidatos".

"Deu para conhecê-los melhor. Muita gente que teria tendência para votar em X, vai acabar por votar em Y, porque esse Y corresponde mais às suas preocupações. Os debates geraram naturalmente mudanças. Ou ficaram fartos deste ou daquele", diz, frisando que "não houve capacidade de criar simpatia e emoção". 

Também André Freire defende que "os debates e as campanhas continuam a ser relevantes na sua forma tradicional, sobretudo quando as eleições são renhidas como é o caso destas, que têm um grau de incerteza elevado"

Debates curtos? Talvez, mas este formato é o melhor

"Os frente-a-frente são uma oportunidade única para vermos a espontaneidade dos políticos, particularmente sabendo que neste formato todos acabam por confrontar todos. Além das propostas, vemos o seu desemprenho e a forma como eles encaram a política, de forma muito própria mas também em oposição", refere Paula Espírito Santo. 

Nestas eleições, reforça, os debates eram ainda mais importantes uma vez que se trata de "líderes pouco conhecidos, com pouca notoriedade. E o sistema político gosta de dar confiança aos líderes com quem têm mais confiança"

Ciente das críticas ao formato dos debates, a professora e politóloga lembra que a sociedade é "pouco mobilizada para a política e com baixos níveis de literacia"

"Estudos demonstram que não temos uma atitude ativa de procurar programas eleitorais, informação... Portanto os debates, quer o televisivo quer o da rádio, acabam por facilitar o consumo de informação", frisa ainda. 

Considerando que "os debates não podiam ser mais longos porque eram muitos", Paula Espírito Santo prefere, contudo, este formato, por considerá-lo mais esclarecedor. 

Para lá do formato e, principalmente para lá da duração dos debates, o politólogo Adelino Maltez acredita que o problema é mesmo o “tom”. “Todos eles são demasiado profissionais para serem espontâneos. Os debates não foram espontâneos nem houve conversa, e esse é o defeito principal”, faz notar. 

Por fim, também André Freire vê benefícios nestes debates, achando o formato "adequado ao contrário das soluções em que está toda a gente a debater com toda a gente e fica confuso".

"Assim, dois a dois, com debates curtos - que têm desvantagens e inconvenientes - parece-me que esclarecem algumas coisas fundamentais", finaliza. 

A campanha eleitoral para as legislativas de 10 de março, recorde-se, arrancou este domingo e pode acompanhá-la aqui

A legislatura atual, que terminaria apenas em 2026, foi interrompida na sequência da demissão do primeiro-ministro, António Costa, em 7 de novembro de 2023, após ter sido tornado público que era alvo de um inquérito judicial instaurado pelo Ministério Público no Supremo Tribunal de Justiça a partir da Operação Influencer.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aceitou de imediato a demissão do primeiro-ministro e dois dias depois anunciou ao país a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições legislativas antecipadas para 10 de março.

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