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Pacheco de Amorim, "cabeça" do Chega, recusa "peso na consciência"

O ideólogo do Chega e "n.º 2" do partido, Diogo Pacheco de Amorim, recusa qualquer "peso na consciência" pela ação armada do movimento ao qual pertenceu durante o Processo Revolucionário Em Curso (PREC), pós-25 de Abril de 1974.

Pacheco de Amorim, "cabeça" do Chega, recusa "peso na consciência"
Notícias ao Minuto

14:16 - 20/01/21 por Lusa

Política Presidenciais

"Nenhum peso na consciência por uma razão muito simples... Nunca, que eu saiba, houve qualquer morte causada por ação do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP). Se assim fosse, o general Spínola, quando regressou a Portugal, não teria sido promovido a marechal e recebido a Grã-Cruz da Ordem de Torre e Espada, julgo", disse, em entrevista à agência Lusa.

O atual assessor parlamentar do recém-formado partido de extrema-direita rejeitou qualquer tipo de responsabilidade no atentado bombista que vitimou o padre Max, candidato a deputado pela União Democrática Popular (UDP), e a jovem a estudante Maria de Lurdes, em Trás-os-Montes, abril de 1976.

"A famosa questão da morte do padre Max... Foi morto já o MDLP estava desativado há três ou quatro meses. Quem financiou e levou para a frente o atentado foi o Joaquim Ferreira Torres, ou seja, foi uma ação desgarrada, quando o MDLP já não funcionava", justificou.

Ferreira Torres, autarca de Murça ainda durante o Estado Novo, negociou vinhos em Rio Tinto e emigrou para Angola, onde enriqueceu no comércio de diamantes. Era o irmão mais velho do dirigente desportivo Avelino Ferreira Torres (CDS), que liderou a Câmara Municipal de Marco de Canaveses entre 1983 e 2005.

Acabou morto, alvejado com três tiros, ao volante de um Porsche vermelho, em Paredes, em agosto de 1979, sem que a investigação policial produzisse quaisquer resultados.

"O MDLP era superiormente orientado pelo general António Spínola [em exílio no Brasil] e o gabinete político, do qual fiz parte, desde maio de 1975, estava rigorosamente separado do braço armado", garantiu, referindo-se ao Exército de Libertação de Portugal (ELP).

Spínola, ex-Governador da Guiné, presidente da Junta de Salvação Nacional e presidente da República entre maio e setembro de 1974, defendia uma grande federação de estados em vez do regime colonialista prosseguido pelo Estado Novo.

Durante o "verão quente" de 1975, o ELP, sediado em Madrid, praticou diversos atentados, incluindo a vandalização de sedes partidárias da esquerda, especialmente do PCP.

"Cheguei [ao Chega] ainda o partido não estava organizado, quase no início. Ouvi falar naquela questão de Loures e dos ciganos. O que me ressaltou foi que havia alguém que não tinha medo de dizer coisas que toda a gente sabia, chamou-me a atenção", explicou Pacheco do Amorim, já sobre a atualidade, referindo-se à candidatura autárquica de Ventura ainda pelo PSD, em 2017.

Aos 71 anos, o filósofo de formação, antigo jornalista e fundador e professor na Escola Superior de Atividades Imobiliárias (ESAI) tinha-se dedicado a "grandes negócios, com clientes institucionais" até voltar à política ativa com o novo projeto de Ventura.

"De um ponto de vista geral, defendo um Estado mínimo, presente nas funções soberanas (justiça, defesa, representação externa e ordem interna), mas também com funções subsidiárias e reguladoras, supletivo e financiador nas áreas da saúde e da educação, que esteja onde os privados não podem estar", afirmou o "conservador em termos de costumes e liberal em termos económicos".

Para Pacheco de Amorim, "a família é uma instituição milenar, a base onde nascem e são educadas as crianças".

"Até prova em contrário, o casal heterossexual -- isto não tem nada contra outras escolhas de orientação sexual, que as pessoas queiram seguir porque são livres de o fazer -, do ponto de vista institucional, é a família natural. Foi assim ao longo de milénios e não vejo razão para alterar", defendeu.

Nos tempos de estudante em Coimbra, o dirigente do Chega viveu a "crise académica de 1969", quando o então chefe de Estado, Américo Thomaz, e o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, foram alvo da contestação estudantil, protagonizada, entre outros, pelo posteriormente deputado e ministro da Justiça socialista Alberto Martins.

Pacheco de Amorim estava do lado contrário na denominada "terceira geração nacional-revolucionária", na senda do seu avô - um deputado da Assembleia Nacional, muito próximo do futuro cardeal Cerejeira e de Salazar - de quem herdou o nome, juntamente com o empresário de hotelaria, advogado e comentador político José Miguel Júdice, por exemplo.

O presidente do Tribunal Constitucional entre 2007 e 2012, Rui Moura Ramos, também fazia parte da cooperativa livreira que deu nome ao "Movimento da Cidadela".

"Desde miúdo, havia a 'doença' da política lá em casa. O meu avô não era tanto um amigo de (ditador fascista) Salazar. Fizeram parte de um movimento de resistência à I República. Tinham uma relação muito cordial, mas com uma separação do ponto de vista político, pois o meu avô era um liberal, embora conservador, um anglófilo", descreveu.

De volta aos tempos tensos da "Revolução dos Cravos", após breve exílio, curiosamente em Madrid, em virtude do mandado de captura por ligações à "intentona reacionária" do 11 de março, Pacheco de Amorim volta a Portugal depois do 25 de novembro, movimento militar que pôs fim ao período revolucionário.

"Fui considerado um perigoso direitista e fascista", contou.

Em 1979, seguiu-se no currículo o Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN): "estive lá uns meses, era um partido que tentava reunir a direita, que tinha sido suspensa no 28 de setembro, mas o general Kaúlza [de Arriaga] não tinha grande habilidade ou capacidade de liderança".

A convite do ministro da Defesa Nacional, o democrata-cristão Adelino Amaro da Costa, integra o projeto da Aliança Democrática (PPD/CDS/PPM), juntamente com o social-democrata Sá Carneiro.

Fica assessor do então secretário de Estado-Adjunto, José Ribeiro e Castro, posteriormente presidente dos democratas-cristãos, uma espécie de ministro da Presidência do Conselho de Ministros.

Em dezembro de 1980, com a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa na queda do avião que os transportava, em Camarate, e que até hoje ainda está por explicar, Pacheco de Amorim atravessou um período de luto e afastamento da política.

Mas ainda participou, com o atual Presidente e recandidato, Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e o ex-primeiro-ministro, Santana Lopes, na oposição à liderança de Pinto Balsemão e ao governo de Bloco Central na denominada "Ala Nova Esperança".

É já na década de 1990, com a renovação do CDS-PP liderada por Manuel Monteiro, que o "católico praticante" volta às lides políticas, tornando-se chefe de gabinete do grupo parlamentar democrata-cristão.

Em 2003, ajudou a fundar a Nova Democracia, sempre com Manuel Monteiro, mas a iniciativa não duraria mais do que cinco anos e, nessa altura, chegou a ser mandatário da candidatura autárquica em Lisboa do atual primeiro-ministro, o secretário-geral do PS, António Costa.

Até que resolveu também dizer "Chega!", ao lado de Ventura.

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