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Carvalhas, da surpresa de ser n.º 2 de Cunhal à saída com aviso prévio

Carlos Carvalhas teve duas surpresas na sua passagem pela liderança do PCP, primeiro por ser "escolhido" como "número 2" de Álvaro Cunhal, em 1990, e em 2004 por uma manchete que apressou a notícia da sua saída.

Carvalhas, da surpresa de ser n.º 2 de Cunhal à saída com aviso prévio
Notícias ao Minuto

12:00 - 25/11/20 por Lusa

Política PCP/Congresso

O economista, então com 46 anos, não era um desconhecido quando foi escolhido para secretário-geral -- tinha sido secretário de Estado num Governo em 1975 e era quadro do partido, tendo sido candidato presidencial em 1991, que conseguiu um resultado histórico para o partido (12,9%), já depois de ser escolhido para "número 2" do partido.

Mas "foi apanhado de surpresa" quando, na auscultação feita entre os dirigentes do Comité Central, o seu nome começou a surgir como sério candidato à sucessão, independentemente do "conforto" ou apoio que pudesse ter do líder histórico dos comunistas. 

É isso que dizem dirigentes do PCP ao recordar hoje, à Lusa, os acontecimentos 30 anos depois. "Ele não era candidato a candidato", garantiu um ex-membro da direção comunista, que relata terem existido várias conversas com Carvalhas e que houve dúvidas até ao congresso, de 1990.  

E o próprio admitiu, no final do congresso que o elegeu "número dois": "É verdade que, no primeiro dia do congresso, estava fora do meu horizonte ser secretário-geral adjunto."

No final do congresso de 1992, que o confirmou como secretário-geral, Carvalhas deixou o recado de que tudo acontecera com o acordo de Álvaro Cunhal: o partido dera "importantes passos a caminho da renovação, com o contributo do camarada Álvaro Cunhal".

É certo que passaram 30 anos sobre este processo de transição, mas ainda é difícil falar com atuais e ex-dirigentes do PCP sobre aqueles meses. Os que o fazem, fazem-no pedindo a reserva de identidade. Quem rompeu com o partido tem uma opinião crítica.

Um ex-dirigente comunista, do círculo próximo do líder, sublinhou, à Lusa, a personalidade de Carvalhas, descrito como "moderado" e "apaziguador", "características importantes" tendo em conta os tempos vividos pelo partido.

Raimundo Narciso, dirigente desde os tempos da clandestinidade e que foi expulso em 1991, tem um olhar diferente e considerou, à Lusa, que foi Cunhal a escolher, "contra as expectativas gerais", Carvalhas "para lhe suceder porque era um candidato 'fraco' e que presumivelmente se submeteria às suas orientações ou ditames".

Foram 12 anos conturbados, com um partido dividido entre ortodoxos, críticos, renovadores, enquanto a Europa e a o mundo mudavam com o fim da União Soviética.

Na ressaca do desaparecimento do "império comunista", o PCP viveu tempos conturbados em que Carvalhas, segundo o testemunho de vários dirigentes, tentou "uma moderação", apesar de ter sido sob a sua líderança que se deram as expulsões de Carlos Brito, Edgar Correia e Carlos Figueira, em 2003. Que o líder, acredita um dirigente que o acompanhou, tentou evitar "até ao limite".

Domingos Lopes, outro dissidente, que elogiou a moderação do líder para evitar males maiores e saiu do partido em 2009, confessa o seu "choque" no livro "Memórias Escolhidas" (ed. Guerra e Paz, 2009) quando os três militantes foram sancionados.

Reeleito em dois congressos, antes do conclave de 2004 começou a desenhar-se uma substituição.

Um membro das comissões políticas desses anos recordou, à Lusa, que a saída de Carvalhas não foi de livre vontade. "A iniciativa [de sair] não foi de Carlos Carvalhas. Aí, foi uma questão de votos dos outros" e de uma "vontade de mudança", descreveu.

Por "outros", entenda-se, dirigentes da "linha dura" ou "ortodoxos" ou ainda da "linha operária", conforme os interlocutores com quem se fala, uma tensão que, segundo os especialistas, atravessa o partido.

"As divergências internas parecem mínimas ao público", concluiu Philippe Schmitter, politólogo especialista em transições democráticas, que estudo o caso português, no livro "Portugal: do Autoritarismo à Democracia" (ICS, 1999).

O PCP, afirma ainda, "é dirigido de forma muito oligárquica por um grupo compacto de homens" com um passado de "luta" em que os "postos de direção" são abertos "muito gradualmente" e "por meio de cooptação", a escolha de alguém de entre o grupo ou órgãos.

Carlos Carvalhas anunciou a sua saída da liderança do PCP "dois ou três dias" antes do programado devido a uma manchete da Capital, mas a direção sabia "há mais de um ano" que era essa a sua intenção.

O secretário-geral dos comunistas estava em visita à ilha do Faial, numa ação de campanha para as eleições regionais nos Açores, quando o jornal A Capital noticiou que estava de saída.

Segundo testemunhos recolhidos pela agência Lusa, entre ex-dirigentes comunistas, foi o próprio secretário-geral a "forçar" a confirmação da notícia e, assim, evitar que o assunto passasse "a persegui-lo". A decisão foi, por isso, "matar o assunto", nas palavras de um dirigente, e evitar passar "três dias sob pressão" dos jornalistas.

A decisão da sua saída estava tomada, só faltava mesmo que os membros do comité central fossem informados, na versão dada pelos jornais e, 2004 e hoje confirmada por dirigentes comunistas à Lusa.

No seu discurso de despedida, em congresso, Carlos Carvalhas alertou para "atitudes de deriva de mando" e dogmatismo no seu partido e apontou ao setor renovador contra a "capitulação ideológica".

É essencial "combater rotulações e classificações", assim como "qualquer deriva de mando, de autoritarismo ou de imposição de ideias, que por vezes ainda se manifestam" no PCP, disse, na despedida, Carvalhas, que não esteve disponível, a exemplo do que tem acontecido nos últimos anos, para falar sobre este período da sua vida política.

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