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O colo ficou vazio. Vozes de quem deu à luz um filho que não chorou

O Notícias ao Minuto falou com mães que perderam os filhos em estado avançado de gestação e saíram da maternidade de braços vazios. São testemunhos dolorosos de quem não deu colo ao filho que não chegou a abrir os olhos para o mundo. Este artigo poderá ferir a suscetibilidade das gestantes.

O colo ficou vazio. Vozes de quem deu à luz um filho que não chorou
Notícias ao Minuto

08:30 - 17/12/17 por Filipa Matias Pereira

País Aborto

Quando a boa notícia chega, os olhos enchem-se de lágrimas de alegria e o coração ‘transborda’ de felicidade. A chegada de um filho desejado é, tal como diria Sophia de Mello Breyner, “a Primavera que esperava”. 

Mas como é ouvir que, afinal, o filho não verá a luz? Como é esperar por alguém que nunca chegará? Como se faz o parto de uma criança que não chora? O Notícias ao Minuto falou com mães que perderam os filhos em estado avançado de gestação e saíram da maternidade de braços vazios. São testemunhos dolorosos de quem não deu colo ao filho que não chegou a abrir os olhos para o mundo.

Inês Ribeiro | 38 anos | perdeu o Gabriel às 14 semanas (quarto mês)

Estávamos em maio de 2015 quando Inês, professora, recebeu a tão ansiada notícia: “Estava grávida de um bebé muito desejado e planeado. Ia finalmente dar um irmão ao meu filho mais velho, o Gaspar”. Mas guardou a notícia no ‘ventre’ para presentear o marido no aniversário, que se comemoraria alguns dias depois. No dia em que soprou as velas, o pai recebeu o melhor presente de sempre.

Às oito semanas de gestação, Inês levou Gaspar para ver, pela primeira vez, o pequeno Gabriel, “o irmão que tanto pediu”. E às 12, voltaram ao consultório para, através da tela do ecógrafo, ver como estava o mais novo membro da família. “O bebé não parava de se mexer, parecia que estava num trampolim. O irmão estava encantado e eu também por lhe estar a proporcionar aquele momento”, recorda. Mas a má notícia não tardaria em chegar.

O médico pediu à enfermeira para levar o Gaspar para fora do gabinete, “agarrou-se a mim” e disse a frase que nenhuma gestante quer ouvir: “Mãe, as coisas não estão bem”. Os valores da translucência da nuca – exame fetal usado para avaliar a possibilidade de ocorrência de síndromes e de cardiopatias congénitas – estavam muito elevados e o coração tinha uma má formação. “Tudo indicava uma possível trissomia. O mundo acabou ali”.

Inês entrou em negação e só acreditou mesmo quando chegou o resultado da amniocentese. “Estávamos de férias e o telefonema chegou numa segunda-feira ao final do dia. Foi o meu marido que atendeu a chamada. Abraçou-me e disse: temos de voltar para Lisboa. O meu sonho desmoronou”, confessa notoriamente comovida.

Inês decidiu regressar a Lisboa sozinha, “o Gaspar não tinha de passar por isto tudo e por isso pedi ao pai que ficasse com ele no Algarve”. No dia “em que me despedi deles, o Gaspar agarrou-se à minha barriga e disse que sabia que o mano (anda nem sabíamos o sexo do bebé) estava muito doente, mas não me deveria preocupar porque ele ia para um sítio melhor”.

E chegou o momento da verdade, o momento em que teria de interromper a vida do seu filho. Gabriel era portador de Trissomia 13 “que não é compatível com a vida”. E, “apesar de sabermos que seria um bebé que não iria sobreviver, tive de assinar um papel para o matar. É uma dor que não se explica”.

Inês fez a primeira consulta deste ciclo numa terça-feira e “queria acabar com o pesadelo o mais rápido possível”. Porém, tal como é habitual nestes casos, o aborto tem de ser consentido pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida que se reúne todas as quartas-feiras. “Quando a médica me disse que provavelmente só conseguiria que o meu caso fosse aprovado na semana seguinte, desatei num pranto porque não aguentaria tanto tempo. E ela acabou por conseguir que aprovassem nessa semana”.

No dia seguinte, Inês recebeu a chamada da Maternidade Alfredo da Costa (MAC) – onde sempre foi seguida – para que se dirigisse às instalações para começar a tomar os fármacos necessários para induzir o aborto. “Estive 1h30 numa sala cheia de grávidas à espera que me dessem o comprimido. Foi desumano. Tive de gritar para que me atendessem”.

Na sexta-feira seguinte, Inês deu entrada na MAC para ter o filho. Mas não como planeara. Na mala não levava as roupas de recém-nascido. Levava apenas no coração uma “dor que não se explica”.

Disseram-lhe que se caminhasse aceleraria o processo, mas esqueceram-se de lhe dizer que teria de o fazer num espaço repleto de grávidas que ali estavam no lugar em que Inês desejaria estar: a sofrer as dores de parto para receber uma nova vida, tal como acontece nas histórias com finais felizes. Mas esta não era uma narrativa de um conto de fadas. “Foi o dia mais difícil da minha vida”, desabafa.

As dores de parto intensificaram-se, mas não havia alento que as aliviassem. Inês sabia que não iria sentir o calor do filho. Inês sabia que não o poderia aconchegar no seu regaço. Gabriel nasceu às 22h00. Sem chorar. Um momento que mãe e filha – Inês esteve sempre acompanhada pela mãe – partilharam no silêncio da dor. Mas logo ali ao lado "estavam outros bebés a nascer e só se ouviam os copos de champanhe a tilintar: Foi horrível”.

Perguntaram-lhe se queria ver o filho. Inês negou. Mas é “aquilo que mais me arrependo de não ter feito. Gostava de o ter visto e de o ter abraçado”, explica com a voz embargada pela emoção.

Gabriel foi levado e “eu não pude sequer fazer-lhe o funeral, não sei para onde o levaram e isso tudo angustia-me muito”. Naquele momento, Inês, entre lágrimas, só pedia para não o “porem num caixote do lixo”.

O Notícias ao Minuto apurou junto de fonte hospitalar que os fetos com menos de 22 semanas ou 500 gramas de peso são encaminhados para anatomia patológica e depois incinerados. 

Restava a mágoa e as questões que ficaram sem resposta: “Só conseguia pensar que não prestava porque nem sequer conseguia dar um irmão ao meu filho. Porquê eu que gosto tanto de crianças? Se dou tanto colo aos meu alunos da pré-escola por que razão o meu filho foi embora?”.

Um ano depois, no dia em que fazia um ano que tinha descoberto que estava grávida do Gabriel, Inês descobriu que estava grávida de Maria. A pequena nasceu às 36 semanas e seis dias, de cesariana, num hospital privado. Até hoje Inês não consegue passar à porta da MAC. Maria tem hoje seis meses.

Ana Conde | 33 anos | perdeu Núria às 21 semanas (quinto mês); perdeu outra menina – que também se chamaria Núria – às 22; e perdeu Pedro Manuel às 31 semanas (oitavo mês)

“Isso está morto”. Foi desta forma que Ana recebeu a notícia de que tinha perdido Núria, estávamos em 2006. Ana sempre quis ser mãe cedo e por isso decidiu engravidar aos 21 anos. E tudo corria bem até que, num fatídico dia, viu que tinha a roupa interior manchada de sangue. Ligou ao médico particular que seguia a gravidez. E após uma ecografia chegou a triste – e fria – notícia.

Não se consegue lembrar do caminho que percorreu até casa. Era como se estivesse em piloto automático. A dor toldava-lhe o discernimento. “Só conseguia pensar que eu era a culpada porque não tinha deixado de fumar. Ou então porque era gorda. Cheguei a ouvir que não conseguia ter filhos por ser gorda”.

O obstetra pediu-lhe que dali a dois dias fosse ter com ele ao Hospital de Abrantes para provocar o parto. “Estive dois dias com o bebé morto dentro de mim”, recorda.

Esteve ali “abandonada” pela equipa de médicos durante 48 “longas” horas. Ana recorda que só depois de o referido médico ter deixado o turno é que o seu substituto a ajudou e “em duas horas Núria nasceu. Era muito pequenina e perfeita”, recorda, acrescentando que aquele “é um momento que nunca irá esquecer”.

Passou-se um mês e Ana descobriu que estava grávida novamente. “Foi um choque”, conta. Decidiu procurar outro médico e tudo corria bem, mais uma vez. Às 22 semanas, no dia 22 de dezembro, “fui a uma consulta e o médico não conseguia ouvir o coração”. Atribui-lhe o facto de “eu ser gorda”.

Logo a seguir à consoada de Natal foi fazer uma ecografia e o veredito chegou: “O bebé estava morto há mais de uma semana”. Era Natal, e a sua menina nasceria sem chorar. Duas gestações. Duas perdas. “Demasiado” para o coração de uma mãe aguentar.

Em 2008, Ana voltou a engravidar. Desta vez foi seguida em Torres Novas e a obstetra disse-lhe que o problema estaria no facto de o útero “abrir com a evolução da gestação” e, por isso, Ana foi submetida a uma cirurgia no início da gravidez. Tudo corria bem, aparentemente.

“Com uma mão no coração e outra na barriga”, Ana guardava Pedro Manuel no seu ventre e vivia os dias em estado de ansiedade

“Às 31 semanas, senti uma dor, fui para o hospital e disseram-me que o bebé estava morto. Tudo outra vez”. Seguiram-se as contrações, a espera, o momento da expulsão e a chegada a casa para guardar novamente as roupas de um bebé que não chegaria.

“Tinha acabado de ter um filho morto e uma assistente social chegou-se junto a mim e disse-me: tem de preparar o funeral”. Em vez de preparar a casa para receber o bebé, Ana tinha uma missa fúnebre para planear.

Em 2010 Ana voltou a engravidar. Vitória, a grande conquista da sua vida, nasceu com 39 semanas. Em Coimbra, os médicos perceberam que Ana tinha o “sangue gordo”, o que fazia com que coágulos se acumulassem no cordão umbilical e os fetos perdessem a oxigenação. Bastou-lhe tomar uma aspirina diariamente para regularizar a situação.

Ana Pascoal | 39 anos | perdeu a Alice com 17 semanas (início do quinto mês) e a segunda menina com 14 semanas

É a mais velha de dois irmãos e o companheiro é o mais novo de oito irmãos. Por isso, acharam que tinha chegado a altura de dar um irmão a Henrique, de quatro anos. E em dezembro do ano passado chegou a notícia: estava a caminho a “tão ansiada menina”.

Mas o sonho viria a terminar na ecografia do primeiro trimestre. A ser seguida no Hospital de Viana do Castelo, Ana gelou perante o silêncio do obstetra na realização do exame. “Não tenho boas notícias”, explicou o médico.

Seguiu-se a amniocentese a pedido do médico antes das 16 semanas, a altura indicada pelas ‘guide lines’ internacionais para o fazer. Ana autorizou e, aliás, implorou para que fosse feita com a maior brevidade possível. Foi então feita às 13 semanas. Mas o “êmbolo não enchia”. Foi necessária mais uma semana de espera. O tão ansiado – e temido – resultado chegaria às 16 semanas. A menina tinha Trissomia 21.

Ana e Jorge tomaram a decisão de interromper a gravidez porque acreditam não terem “o direito de mandar vir ao mundo uma criança para sofrer”. Porém, entre “o que vai cá dentro e o que se decide é muito diferente” e, por isso, “assinar a autorização de interrupção foi o mais difícil da minha vida”.

Da equipa médica que a acompanhou Ana retém o “colo, o abraço, o beijo” e os cuidados humanizados que lhe foram prestados nesta altura tão difícil.

No dia 16 de abril deste ano, Ana deu entrada no Hospital onde sonhava ter a sua menina. E à sua espera estava um quarto isolado das restantes grávidas, perfeitamente equipado com o necessário para receber o casal (Jorge pôde acompanhar todo o processo).

Ana e Jorge decidiram não ver a sua menina, embora fosse ressalvada a possibilidade de a verem, mais tarde, em fotos durante o acompanhamento psicológico.

Às 22h00 do dia 16 de abril a menina veio ao mundo.

Esperaram sensivelmente três meses para tentarem ter outro filho. E em julho Ana recebeu a notícia de que carregava no ventre “uma dádiva”.  Mas foi “uma euforia muito contida”. O medo tomou conta do momento.

O obstetra – um ‘anjo’ como Ana o define – sugeriu a realização do ‘Harmony test’, um exame pré-natal não comparticipado. O resultado foi categórico: 99,9% de probabilidade de Trissomia 21. “Caiu-me o mundo”.

Ana não queria acreditar no que a ciência dizia. “Nunca sonhei que me iria acontecer uma segunda vez. Não fiz mal a ninguém”, exclama. No dia em que recebeu o resultado do exame, “o carro foi sozinho até casa da minha mãe”. O médico quis vê-la no dia seguinte, na esperança de que se tratasse de um falso positivo.

Assim que fez a ecografia, “deu um murro no monitor do aparelho e exclamou: Isto não é justo. Está a acontecer outra vez”.

O processo de interrupção confirmou-se e no dia 3 de novembro a 'segunda' Alice deixou o ventre da mãe. Mas ficou para sempre no coração. Ana sempre teve o sonho de ter três filhos. E teve-os.

Ana realizou entretanto um teste do cariótipo – um exame que visa analisar a quantidade e a estrutura dos cromossomas numa célula – porque acredita que ela ou o companheiro tenham uma “translocação de ADN equilibrada” que os impede, à partida, de terem filhos saudáveis. A confirmar-se, “o meu filho Henrique é um milagre”, termina.

Projeto Artémis

A “promoção da prestação de cuidados de saúde materna, de âmbito físico e psicológico, por meio de aconselhamento e apoio clínico e psíquico, a mulheres vítimas de situações clínicas de aborto e/ou morte fetal” é o desígnio do Projeto Artémis - uma Associação sem fins lucrativos liderada por Sandra Cunha.

Criada sensivelmente em 2005, a Artémis esforça-se por “promover e fomentar a reabilitação e recuperação física e psicológica dessas mulheres e respetivos companheiros ou agregados familiares”, explica Sandra Cunha.

O projeto Artémis luta, desde o início, para que as mulheres não se envergonhem nem se fechem no mundo da perda gestacional. Enfrentar o problema e olhar para o amanhã é o ímpeto que se impõe.

 

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