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Sem respostas e apoios, há quem siga São Tomé e precise de ver para crer

A descrença nas instituições cresce na zona do incêndio que começou em junho em Pedrógão Grande à medida que as respostas tardam em chegar. Ondulina sente-se uma "barata tonta", no meio de tantos papéis. Por agora, só acredita nos apoios quando eles chegarem.

Sem respostas e apoios, há quem siga São Tomé e precise de ver para crer
Notícias ao Minuto

16:31 - 01/08/17 por Lusa

País Pedrógão Grande

Na segunda-feira, Ondulina e o seu marido, Saúl, reformados de Pobrais, deslocaram-se até Pedrógão Grande, mais uma vez, para perceber que apoios poderiam receber - perderam barracões, tratores, máquinas agrícolas, reboques, para além dos terrenos com milho, batatas e cebola.

"Andámos com papéis de um lado para o outro, no meio de filas com gente como nós, com as pastinhas, papéis e cordéis. Mas dinheiro, qual dinheiro? Eu, agora, só acredito vendo", disse à agência Lusa Ondulina Fernandes, de 64 anos, que conta que as pessoas andam "como baratas tontas".

Na segunda-feira, apenas voltou para Pobrais, sem almoço, "às 16:00, depois de andar de sítio em sítio" e sem trazer nenhuma novidade.

"Isto é muito frustrante. Perdemos a paciência e a própria cabeça não anda boa", sublinha Ondulina, que teve de pedir aos técnicos para escreverem "tudo", para o caso de se esquecer.

Para o barracão, vai ter de pedir um orçamento a um empreiteiro, para as coberturas, "tem de ser um técnico", e para o resto ainda não sabe o que tem de fazer, que até Pobrais ainda ninguém chegou com instruções ou esclarecimentos para uma população envelhecida que se vê agora obrigada a reconstruir o resultado de uma vida, sublinha a reformada, que ainda não dorme direito.

"Para as pessoas mais velhas, ainda será pior", nota Ondulina, frisando que ela própria ainda nem tem ideia de tudo o que perdeu: "Hoje à noite, é que me lembrei que num dos barracões tinha uma cama novinha".

As voltas necessárias, os papéis exigidos e a falta de respostas vão moendo o juízo, frisa a reformada, que tem ao seu cargo duas netas.

O tom da voz de Paula Graça, da Moita, no concelho de Castanheira de Pera, é de revolta, barafustando contra a demora nos apoios, bem como na falta de informação, que parece não chegar às aldeias.

Paula e o marido Álvaro têm uma empresa que vive do corte e transporte de madeira. Perderam máquinas, camiões, para além de terrenos e alfaias agrícolas.

"Até agora, apoio financeiro, zero", frisa Paula, que viu o lume levar-lhe "tudo".

Com cerca de dez empregados, não sabe como vai fazer e, depois de já ter declarado todos os bens perdidos, ainda continua sem respostas ou perspetivas de apoios.

"Como é que vamos viver? Como é que vou fazer para criar os meus filhos?", questiona.

Também Germano Abreu, reformado que tinha na agricultura um complemento, perdeu máquinas agrícolas, terrenos de onde tirava "o comer", madeira e uma carrinha, que continua calcinada junto à estrada que chega a Balsa, aldeia de Castanheira de Pera.

Na sexta-feira, foi à sede do concelho perceber se teria apoios, mas voltou para casa sem respostas.

"Aqui, está toda a gente sem saber o que fazer. Chega-se ao pé de alguém e ninguém nos sabe explicar. Apenas dizem: 'Estamos a tratar disso. Estamos a tratar disso'", critica Germano, que até agora só contou com a ajuda de particulares, que o estão a ajudar a construir um barracão e que lhe deram "umas galinhas e uns 'pitos'".

O reformado da Balsa não tem nada "para conseguir trabalhar". Nem "uma chave para apertar um parafuso", vinca.

Quando a agência Lusa lhe pergunta se já alguém foi à aldeia explicar o que é necessário fazer, Germano começa a rir-se.

"Até agora, não nos chegou cá nada", responde.

O descrédito nas instituições não é de agora na zona afetada pelo incêndio de Pedrógão Grande. Desde o primeiro momento após a passagem das chamas, que há muita desconfiança por parte das populações em relação ao Estado, que muitas delas tiveram de enfrentar sozinhas um incêndio que parecia um "tornado de fogo".

Germano dá voz ao descrédito e sublinha que, se a ajuda não vier, pode-se começar a falar do fim de muitas das aldeias afetadas.

"Estamos todos na terceira idade, há muito pouca gente nova aí. Antes do incêndio, isto já estava um caos porque ninguém queria semear. Agora, a quem apetece fazer alguma coisa? Eu perdi à volta de 50 mil euros. Foi uma vida. Vou-me empenhar outra vez?", pergunta.

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