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"Não há mais problemas nas Forças Armadas porque somos maluquinhos"

O presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) aponta o dedo aos governos que, acusa, continuam a não olhar para as Forças Armadas.

"Não há mais problemas nas Forças Armadas porque somos maluquinhos"

Partindo do desaparecimento de material de guerra em Tancos, o tenente-coronel António Mota conversou com o Notícias ao Minuto sobre aquele que é o estado atual das Forças Armadas em Portugal.

A culpa, defende, não é do ministro Azeredo Lopes, é dos governos dos últimos 20 anos que têm proporcionado o agravamento das condições para os militares.

Sobre a falta de efetivos – um dos problemas apontados – não se trata apenas de desinteresse por parte dos jovens. Esta é uma questão que se poderia resolver com a entrada de civis para os quadros. A dificuldade? Mais uma vez, sublinha, são as opções políticas que colocam em causa a instituição.

E sendo que se trata de uma instituição militar, as coisas só têm chegado a bom porto porque, garante António Mota, os militares são “maluquinhos” e “formatados” para servir o país.

Voltemos a Tancos. As responsabilidades são estritamente militares?

Existem responsabilidades aos mais diversos níveis, inclusivamente de âmbito político. O estado a que chegaram as Forças Armadas é resultante de decisões políticas que foram tomadas ao longo de 20 anos. De 2005 para cá, as condições nas Forças Armadas foram-se degradando e desde essa altura já tivemos quatro governos. Isto é, não estamos a dizer que a responsabilidade é do ministro da Azeredo Lopes, mas sim do conjunto dos governos. Não sendo causa direta do desaparecimento do material há condições que têm vindo a ser promovidas pelos vários governos.

Forças Armadas têm hoje menos 15-20% do efetivo que deveriam ter em 2020A que condições se refere?

Refiro-me às desorçamentações, às cativações e também à questão de recrutamento para as Forças Armadas.

Qual é então o estado atual das Forças Armadas?

As Forças Armadas têm hoje menos 15-20% do efetivo que deveriam ter em 2020. Juntando a falta de pessoas com a falta de meios financeiros, o que acontece é que os comandantes das unidades hoje em dia têm que tomar decisões muito difíceis porque não têm pessoal e não têm os meios necessários e suficientes para levar a cabo as missões. O que é preciso que se perceba é que quando há problemas nas Forças Armadas as repercussões são muito complicadas: ou morrem pessoas ou desaparece material que mata. O que nós esperamos é que se deixem de partidarites e picuinhices, e que resolvam os problemas e lamentamos muito que as Forças Armadas estejam neste estado, pois é uma das instituições em que as pessoas mais confiam.

O que nos custa é que a credibilidade das Forças Armadas venha a ser abalada por causa de maçãs podresSituações como a de Tancos e como o caso de corrupção nas messes da Força Aérea afetam a credibilidade das Forças Armadas?

Claro que sim. A instituição militar é um pilar fundamental do Estado, mas ao mesmo tempo é feita por homens e mulheres que não são perfeitos e, obviamente, que há falhas. O que nos custa é que a credibilidade das Forças Armadas venha a ser abalada por causa de maçãs podres. Mas se se vier a apurar que as pessoas prevaricaram e foram trafulhas e corruptas então que se corra com elas. Rua, desapareçam.

O mesmo se aplica ao caso dos Comandos?

Digo o mesmo sobre este caso. Haverá responsabilidades de alguns camaradas nossos, pois que sejam apuradas e que quem tiver que ser punido que o seja inequivocamente.

Falou na falta de recursos. Pode justificar-se com o desinteresse dos jovens pelo serviço militar?

O que os centros de recrutamento dos três ramos nos dizem é que há um número cada vez menor de potenciais candidatos. Mas isso não nos preocupa muito porque nos dizem também que se esse número se materializasse na prática em militares nós não tínhamos problema nenhum de efetivo. Só que depois à medida que vão avançando no processo de seleção vão-se deparando com uma série de dificuldades e acabam por não ser selecionados.

Só não tem havido muitos mais problemas porque nós somos maluquinhosEntão se não é falta de interesse, qual é o problema?

O problema é que as Forças Armadas não são atrativas. Uma pessoa que tenha o 9º ou 12º ano de escolaridade ao entrar nas Forças Armadas vai ter um primeiro vencimento que é o ordenado mínimo. O mesmo indivíduo com as mesmas habilitações ao entrar na PSP ou na GNR ganha, em regra geral, mais 200 euros. E não só, a verdade é que a PSP e a GNR oferecem carreiras e as Forças Armadas não.

E por que não?

São meras opções políticas. Tudo isto não é diretamente responsável por terem morrido recrutas no curso de Comandos ou pelo desaparecimento de armas em Tancos, mas claramente potencia. Só não tem havido muitos mais problemas porque nós somos maluquinhos. Os militares foram formados para servir o país e dar a vida por ele se for preciso. A missão para nós é algo sagrado e é isso que vai safando, senão isto era uma tragédia e já tinham acontecido coisas gravíssimas.

Seria a favor do regresso do serviço militar obrigatório?

A AOFA não é, hoje, a favor da reintrodução do serviço militar obrigatório. Mesmo que venha a ser considerada essa hipótese não poderá ser implementada como era há 20 anos, pois o país hoje é outro e as pessoas também. Mas há uma série de medidas que podem e devem ser implementadas e que a médio prazo – 5 a 7 anos – resolvem o problema da falta de efetivo.

O problema não são as Forças Armadas, é o poder político

E que medidas são essas?

No que diz respeito aos oficiais existem os de carreira (dos quadros) e os no regime de contrato. Estes contratos são feitos a civis mas só duram seis anos. Porque é que estes civis não têm possibilidade de entrar para o quadro permanente ao fim de seis anos? Até porque findos os seis anos são contratadas novas pessoas para os mesmos cargos. Situação semelhante se passa com os praças. Um indivíduo, para fazer carreira nas Forças Armadas, não precisa de ser licenciado. São precisos cozinheiros, mecânicos… Porque é que não se considera ter praças no quadro permanente? O problema não são as Forças Armadas, é o poder político.

Mas já houve reuniões com a tutela…

Já reunimos com o ministro, com todos os grupos parlamentares, com a comissão de Defesa e até com o Presidente da República. O que nos custa é que as decisões não se tomam e, de ano para ano, vamos tendo cada vez mais problemas.

O que é que é preciso mudar na Defesa?

Políticas. Temos um estatuto aprovado há dois anos com o qual não concordamos. Os militares apelam a que haja uma atenção especial a esta situação e que o estatuto seja revisto. Além de que os militares estão profundamente desgostosos com a situação que estão a viver no âmbito da saúde, do apoio social, da remuneração…  O Chefe de Estado-Maior da Força Aérea já veio dizer que a partir de setembro não há dinheiro para pagar a gasolina para os helicópteros o que significa que os aparelhos vão deixar de poder sair em missões de busca e salvamento. Olhem para isto, isto é gravíssimo e percebam que quando há falhas nas Forças Armadas ou morrem pessoas ou gera-se insegurança.

*Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui

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