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"Um dos bombeiros pedia por tudo para lhe darem uma injeção para morrer"

Ana Paula Neves conta, na primeira pessoa, o horror pelo qual passou na noite fatídica em que o incêndio de Pedrógão Grande deflagrou e matou 64 pessoas. Sem comunicações, com o centro de saúde fechado e feridos a chegar. "Senti-me isolada, abandonada".

"Um dos bombeiros pedia por tudo para lhe darem uma injeção para morrer"
Notícias ao Minuto

20:18 - 22/06/17 por Notícias Ao Minuto

País Relato

Apaixonada pela beleza natural e pela genuidade das pessoas da terra onde mora há 30 anos, Ana Paula Neves, vice-presidente de Castanheira de Pera, estava a regressar de férias no dia do incêndio.

"Estava ainda longe de Castanheira. Estava no concelho de Pedrógão Grande", recordou à TVI. Apesar disso, dirigiu-se "imediatamente" para o quartel dos Bombeiros de Castanheira. E lá deparou-se com um cenário que compara ao de um país de terceiro mundo.

"Senti-me completamente isolada, abandonada. Vivi experiências de uma angústia, solidão que não consigo através de palavras explicar", contou. Ao quartel chegavam pedidos de ajuda das pessoas. Impotente perante aquele cenário de horror, Ana Paula Neves só via ambulâncias a passar, pessoas feridas.

E o pior: "O centro de saúde estava fechado e não tínhamos comunicações". "Tive a oportunidade de transmitir ao Presidente da República e à ministra que estávamos sem comunicações, imagine. E eu pedi a todos os secretários de Estado para pararem um bocadinho e colocarem-se na nossa posição", disse, em entrevista a José Alberto Carvalho. Depois, recordou, houve um acidente (o que vitimou o bombeiro de Castanheira de Pera), e as ambulânicas dirigiram-se para o centro de saúde que estava fechado.

"Fomos a correr a casa de uma funcionária para o abrir. Um dos bombeiros pedia por tudo para lhe darem uma injecção para morrer, tais eram as dores. Mobilizámo-nos e tivémos enfermeiras, uma médica (em Figueiró dos Vinhos), um amigo que é médico que estava cá. E foi assim que, quase de assalto, tomámos o centro de saúde".

Tomaram o centro de saúde, mas "os armários estavam fechados, não havia medicamentos para as dores, não havia as mínimas condições". Perante tudo aquilo que se passou, Ana Paula Neves quis relembrar um problema que será transversal a todo o interior: a falta de médicos.

"Não é dizer mal de ninguém, mas estas coisas não podem acontecer. O drama que viveram as pessoas de Castanheira de Pera. Eu sei que muito contribuiu a falta de comunicações, mas disse ao PR - e ele anotou - que nós não tínhamos comunicações, mas o país estava a ter conhecimento pela televisão. E a nível de saúde sabiam o que nós estávamos a passar e os recursos que tínhamos. Isto não se admite. Castanheira de Pera tem um médico e meio (nem isso). É uma questão de justiça. Não vamos embarcar em rácios de um médico para não sei quantos utentes", terminou.

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