Foi há 52 anos que mataram o General que ousou desafiar Salazar

O homem que desafiou Oliveira Salazar nas eleições de 58, Humberto Delgado, foi barbaramente assassinado há 52 anos, em Espanha.

© Facebook/Humberto Delgado - General Sem Medo
País Efeméride

Humberto Delgado, conhecido como o 'General sem Medo', morreu há 52 anos. Neste dia, em 1965, na localidade espanhola de Villanueva del Fresno, era assassinado a tiro, por uma brigada da PIDE, polícia política do regime de Oliveira Salazar. Tinha 58 anos. A sua secretária, Arajaryr Campos, foi igualmente assassinada, tendo sido os dois corpos encontrados no mesmo local.

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Humberto Delgado foi um dos militares que apoiou o golpe de 1926 e que depressa ascendeu na hierarquia militar a general. A célebre frase "obviamente, demito-o" foi o que lhe atribuiu o título de o 'General sem Medo'.

E porquê? Foi essa a sua resposta quando questionado, numa conferência de imprensa, sobre o futuro do Governo de Oliveira Salazar, caso fosse eleito nas eleições presidenciais de 1958. Nesse ano, Delgado reuniu todas as oposições ao Estado Novo e apresentou-se como candidato.

Apesar dos apoios e da intensa campanha, o 'General sem Medo' saiu derrotado das eleições que viria a acusar de terem sido fraudulentas. A sua missão de abalar e acabar com o regime de Salazar revelar-se-ia ineficaz, obrigando Delgado a exilar-se no Brasil depois das eleições.

Espancado até à morte ou morto a tiro?

Apesar de a tese da morte de Humberto Delgado ter sido a de que este foi assassinado a tiro, uma biografia da autoria do neto Frederico Delgado Rosa, lançado em 2008, refere que o 'General sem Medo' foi, afinal, espancado até à morte.

"A maneira como foi assassinado não fui eu que a inventei", afirmou à Lusa por ocasião do lançamento do livro 'Humberto Delgado - Biografia do General Sem Medo'. Frederico sustentou que a sua tese se baseia na autópsia feita pelas autoridades franquistas apontando "sucessivas contusões cranianas" como a causa da morte do general.

Segundo o autor, a ideia de que Delgado foi morto a tiro pela PIDE "foi uma mentira conveniente que permitiu ilibar muita gente". Depois do 25 de Abril de 1974, a justiça portuguesa começou a trabalhar no caso sem ter acesso ao processo espanhol, apontou Frederico Delgado, doutorado em Etnologia e que se dedicou anos à investigação da carreira militar e política do avô.

"O processo criminal ficou viciado à partida e quando chegaram tardiamente elementos do processo espanhol já estava construído um dogma em relação ao "como" do crime", disse ainda o investigador, acrescentando que para isso contribuíram depoimentos dos próprios elementos da PIDE que foram detidos.

'Elsa', o romance inédito de Delgado seria lançado hoje

Em comunicado emitido em setembro do ano passado, a editora anunciou a publicação de 'Elsa - Romance de costumes políticos portugueses', no dia em que se assinalam 52 anos da morte de Humberto Delgado, ou seja, hoje. Todavia, um dos herdeiros de Humberto Delgado interpôs uma providência cautelar por causa da publicação da obra, explicou a editora em janeiro, esclarecendo que "o Tribunal da Propriedade Intelectual considerou-a improcedente na sua totalidade, confirmando que a obra é da autoria de Humberto Delgado", lia-se no comunicado.

"A Guerra e Paz, ciente embora da sua legitimidade, entende que a publicação desta obra, de extraordinário valor e impacto social cultural e político, deve ser feita sem a sombra de qualquer conflito".

A editora sublinhou que "está agora em condições de publicar esse surpreendente romance do homem que desafiou [António de Oliveira] Salazar".Porém, vai desenvolver "todos os esforços para chegar a acordo com as diferentes partes envolvidas, por forma a que a publicação da obra possa ser feita num quadro de consenso e que todas as atenções se possam concentrar no que mais importa, nas qualidades literárias da obra e no vibrante testemunho que ela encerra".

Recorde-se que se trata, segundo a editora, "de um romance inédito, de cariz marcadamente autobiográfico, escrito no exílio, há mais de 50 anos e, até agora, depositado no processo de Humberto Delgado no Arquivo Histórico da Força Aérea".

O romance é constituído por "185 páginas datilografadas em papel A4 que, segundo o seu neto e biógrafo Frederico Delgado Rosa, terão sido escritas entre 1959 e 1963, período em que Humberto Delgado viveu exilado, no Rio de Janeiro, depois de ter sido candidato da oposição nas eleições presidenciais de 1958".

A descoberta deste romance perdido de Humberto Delgado aconteceu durante os trabalhos preparatórios da exposição 'General da liberdade e escritor', promovida pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), explicou na ocasião a editora.

"'Elsa' narra a relação entre um militar, Armando Dias, e a protagonista, que dá o nome ao romance, uma jovem cinéfila e intelectualmente curiosa, apesar da sua origem humilde, filha ilegítima de uma criada", adianta a editora, acrescentando que "o romance mergulha os leitores num quadro de surda revolta social, de que as perseguições e as torturas da PIDE fazem parte integrante e sufocante", lia-se no comunicado.

A Guerra e Paz adiantava, então, o primeiro parágrafo do romance: "Já para a cozinha! Estúpida! Apontando a porta, insulta a jovem que ri, despreocupadamente, sentada no sofá. Ao increpá-la, tremem-lhe as adiposas curvas de matrona. De olhos parados, Elsa hesita em aceitar o vexame sem reação.O editor da Guerra e Paz, Manuel S. Fonseca, sublinhou o facto "surpreendente" de se tratar de "um romance preocupado com a condição feminina e com o papel central da mulher".

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