Gosta de kiwis? Este agricultor está a oferecer duas toneladas

Um empresário agrícola da vila de Escapães distribuirá esta semana duas toneladas de kiwis por vários locais do concelho da Feira, onde chegam a considerá-lo um "abençoadinho homem" por oferecer tanta fruta a quem a quiser levar para casa.

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País Escapães

Gastão Valente já tem esse hábito há 20 anos e cumpre sempre o mesmo ritual durante a colheita dos seus 2,5 hectares de plantação: apanha todos os kiwis com o grau de dureza exigido pelos revendedores, seleciona para comercialização os maiores e separa todos os que possam ser "rejeitados pelos supermercados, ou porque não apresentam o calibre exigido, ou porque são aleijados ou gémeos".

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Reunido esse "refugo" em várias paletes-caixa, elas são depois instaladas num trator em que o sexagenário faz sucessivas viagens para distribuir os kiwis pela população das redondezas: oferece umas dezenas de quilos às escolas de Escapães, leva outras tantas para os bombeiros de Arrifana, faz o mesmo com a CERCI da Feira. O grosso da doação fica, contudo, pousado em paletes nos passeios do centro de Escapães, para quem lhe quiser pegar e com ele encher sacos plásticos ou caixas de cartão.

"Basta entrar no café ou na farmácia, dizer que pus kiwis na rua e as pessoas vêm buscá-los para os levarem para casa ou darem a conhecidos", conta Gastão Valente à Agência Lusa. "Algumas pessoas têm vergonha de os ir buscar, mas depois telefonam-me a pedir uma saca deles e eu vou lá levá-los na mesma", revela o ex-presidente da Junta.

Apesar da generosidade, reclamações também há. À saída de uma fábrica de calçado há quem olhe para a palete sem abrandar o passo e refile: "Tão pequenitos? Isto assim não presta". Noutro cruzamento, uma senhora abastece o saco, sem nem assim deixar de desdenhar: "Ele também só os dá porque não os consegue vender".

Florinda Mota ouve o reparo e continua a encher de fruta o seu cesto da roupa, mas não deixa a ingratidão da vizinha passar em branco. "Pois fica tu sabendo que há muitos [produtores] que, sem venderem os kiwis, preferem usá-los para estrume do que dá-los!", diz-lhe. Depois, apontando a cabeça para Gastão Valente, mas piscando o olho disfarçadamente, como se para evitar deixá-lo vaidoso, remata: "Abençoadinho homem, menina! O que interessa é que ele faz isto todos os anos, nunca se esquece da gente e o resto é conversa!"

É com esse espírito que algumas senhoras elegantes e bem-dispostas se lançam sobre a palete de outra rua, depois de Gastão Valente ter entrado no café ao lado para as avisar da entrega. Trazem sacos plásticos e caixas, escolhem kiwis para os filhos e para amigas, convidam a chegar-se ao grupo uma condutora que abrandou o carro ao aperceber-se da festa.

"Acredite que eu nem gosto de kiwis, mas os meus filhos adoram e deliram com isto", conta Virgínia Vieira, enchendo uma caixa.

Madalena Ribeiro também está entusiasmada: "Isto é uma alegria para nós. O meu neto, por exemplo, também os recebe na escola, mas como lá preparam sempre um saquinho para cada criança levar para casa, depois ele separa dois ou três kiwis prá mãe e o resto 'fica prá avó'. É porque isto é muito bom prá saúde: dizem que faz bem ao intestino, à pressão arterial - a tudo".

Graça Santos elogia o caráter "biológico" do fruto - "como foi cultivado aqui, sabemos o que estamos a levar para casa", argumenta - e Maria do Céu Guerra até usa os kiwis para ajudar a matar as saudades de Escapães - "estes aqui vão diretos para Lisboa, que é onde está a minha filha", explica.

Gastão Valente deixa as senhoras falarem enquanto posam para a fotografia, aprecia-lhes os sacos a encherem-se e pouco depois sobe novamente para o trator, para ir a casa carregar nova palete dos kiwis desprezados pela revenda. Quando lá chega, a esposa já o espera para o almoço e ele faz-lhe o resumo num instante: "Lá no café, elas ficaram todas contentes com os kiwis. Só pra teres uma ideia, hoje até me deram beijos e abraços, vê lá tu".

 

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