Prémios Santa Casa para estudos de incontinência e microbiota intestinal

Os Prémios Santa Casa Neurociências 2016, hoje entregues em Lisboa, distinguem estudos sobre o tratamento da incontinência urinária em doentes com lesões vertebro-medulares e sobre a microbiota intestinal em doentes de Parkinson.

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País Neurociências

As distinções, atribuídas nas categorias "Prémio Melo e Castro" e "Prémio Mantero Belard", são promovidas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e valem, cada uma, 200 mil euros, sendo consideradas o maior apoio financeiro, em Portugal, para a investigação em neurociências.

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O Prémio Melo e Castro foi para a equipa liderada pela bióloga Célia Cruz, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, pelo estudo do uso de Botox, normalmente associado a cuidados cosméticos, no tratamento, mais eficaz, da incontinência urinária em doentes com lesões vertebro-medulares, enquanto o Prémio Mantero Belard foi para o grupo coordenado pela neurobiologista Sandra Cardoso, do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra, pelo trabalho sobre a microbiota intestinal em doentes de Parkinson.

Em declarações à Lusa, a investigadora Célia Cruz explicou que os tratamentos atualmente empregues na incontinência urinária de doentes com lesões vertebro-medulares são meramente paliativos, pelo que a sua equipa pretende "intervir de forma mais precoce" na doença.

A proposta de investigação, adiantou, é testar em ratinhos e em doentes se a injeção da toxina botulínica, conhecida pelo nome comercial de Botox, na bexiga, numa fase mais precoce da incontinência urinária, "tem efeitos benéficos, protege a função da bexiga", que funciona mal, "com contrações automáticas a pressões muito elevadas", após uma lesão na medula espinal.

Depois de uma lesão deste tipo, a bexiga não contrai, uma vez que a comunicação com o cérebro "fica danificada".

A equipa de Célia Cruz, parte dela de Zurique, na Suíça, inclui urologistas, biólogos e bioquímicos.

O grupo da neurobiologista Sandra Cardoso propõe-se confirmar se as pessoas que sofrem de Doença de Parkinson esporádica, a que está ligada ao envelhecimento, e não à genética, possuem, efetivamente, no intestino, bactérias (as melainabactérias) que produzem neurotoxinas (toxinas que lesionam o sistema nervoso).

Mais: querem aferir que determinadas neurotoxinas (em particular a N-metilamino-L-alanina) vão até ao cérebro, atacam as células do sistema nervoso central (os neurónios) e, mais precisamente, as mitocôndrias, "as fábricas de energia das células".

Os cientistas sabem que existe numa comunicação entre as bactérias que vivem no intestino (a microbiota do intestino) e os neurónios e que, nos doentes de Parkinson, "os neurónios afetados têm uma disfunção nas mitocôndrias".

Por outro lado, nos doentes de Parkinson, as células do intestino, os enterócitos, têm um agregado de proteínas que é, também, "um marcador neuropatológico no cérebro", salientou Sandra Cardoso.

A investigadora e restante equipa vão estudar a presença das melainabactérias nas fezes e no plasma (um dos componentes do sangue) de pacientes e a existência de neurotoxinas em cérebros de cadáveres de doentes de Parkinson.

Posteriormente, vão analisar, em experiências 'in vitro' e 'in vivo', com ratinhos, se há disfunção nas mitocôndrias, provocada por melainabactérias no intestino, e alteração do comportamento motor.

Finalmente, o grupo, que engloba igualmente especialistas em neurologia, microbiologia e bioinformática, propõe-se identificar os genes responsáveis pela produção de neurotoxinas e, se o conseguir, obter uma molécula que possa ser usada no tratamento de doentes de Parkinson.

A edição deste ano dos Prémios Santa Casa Neurociências distingue trabalhos de investigação com "forte componente clínica", que permitem "a recuperação e a consequente melhoria na qualidade de vida das pessoas afetadas".

O Prémio Melo e Castro destina-se a estudos na área das lesões medulares, enquanto o Prémio Mantero Belard a trabalhos sobre doenças neurodegenerativas associadas ao envelhecimento, como as de Alzheimer e as de Parkinson.

 

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