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Visit Lisbon? "Estão a transformar a Baixa num parque temático"

Lisboa mudou inegavelmente nos últimos anos e os turistas, que gostam de sol e bom tempo, são cada vez mais. Basta uma ida à Baixa da cidade ou à zona de Belém para sermos obrigados a caminhar em 'slow motion', escrevinhando incontáveis S's no nosso percurso que antes se faria em linha recta. Lisboa está nas bocas do mundo, mas caberá esse mundo na cidade?

Visit Lisbon? "Estão a transformar a Baixa num parque temático"

A roupa estendida colina acima, colina abaixo. Os azulejos em tons vivos. Os olhares singulares dos alfacinhas verdadeiros, ou dos que se foram fixando ao longa da vida. E as casas de fado, do tradicional. E o Tejo. 

Não há quem passe por Lisboa e não registe em fotografia pelo menos uma destas situações icónicas.

Não há, também, forma de contrariar a evidência de que Lisboa está na moda e mais inundada de turistas do que alguma vez tivera.

A barafunda na cidade, o ano inteiro, não engana. Os rankings e os números comprovam-no: no ano passado, Lisboa chegou mesmo a ultrapassar o Algarve em número de hóspedes, 5,2 milhões contra 3,7. E este ano, a capital segue a todo o gás, prometendo chegar a marcas nunca antes atingidas.

Mas qual o preço a pagar pelo boom de turistas? Será esta uma onda de um mar de rosas?

Luís Paisana, representante da Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA), tem a resposta na ponta da língua. "Falta equilíbrio em Lisboa", que é como quem diz 'nem tanto ao mar nem tanto à terra'.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, Paisana começa por vincar que, ao contrário do que muitos argumentam, os moradores não são contra o turismo. "Não é de todo verdade", sublinha, acrescentando que reconhece que antes do boom turístico, a "cidade estava abandonada e a cair, sobretudo a zona da Baixa". Com a reabilitação e turismo, admite, a cidade melhorou.

"Não estamos contra o turismo. Estamos contra a forma como é promovido e gerido, em termos de não haver regras, da estratégia do 'quanto mais melhor'", refere Paisana, lembrando o caso dos tuk-tuk, do alojamento local, dos vendedores ambulantes. “Autoriza-se tudo sem regras que são depois feitas à posteriori, e mesmo em situações em que já há regras, a fiscalização não atua, nomeadamente nos excessos da diversão nocturna, do ruído e do álcool na rua”.

E o argumento utilizado pelos responsáveis é, refere, 'não temos um polícia para cada cidadão, isso é uma tradição de certas áreas de Lisboa e, portanto, temos pouco a fazer’. “E eu leio nas entrelinhas 'os moradores que aguentem' ou 'vão embora' ou então 'quando foram para lá já sabiam para o que iam', o que é profundamente injusto, porque há pessoas que nasceram aqui, constituíram família aqui, por que é que hão de ir embora? Porque é um fenómeno novo e nós temos de ser expulsos?”

Para este morador que se “apaixonou pelo Bairro”, o discurso do presidente do Turismo de Portugal, ao dizer que o panorama turístico em Lisboa é uma maravilha, que ainda há muito espaço para crescer e que, aliás, é a salvação da cidade, é um mensagem que não corresponde à realidade. 

Vão-se os moradores, ficam os turistas

De todos as consequências da 'turistificação', o representante dos moradores do Bairro Alto aponta a descaraterização da cidade como “o mais grave”. “Começa pelo despovoamento dos moradores, que são substituídos por turistas, através do alojamento local, dos hostels e hotéis, que crescem em grande quantidade”, refere, lamentando o facto de os moradores estarem a ser substituídos por turistas ou por moradores temporários - os estudantes Erasmus e outros – que não se fixam na cidade.

“O antigo presidente da Câmara e atual primeiro-ministro falou, mas pelos vistos não tem feito muito por isso, que um bairro sem moradores não é um bairro. Lisboa está a perder os seus bairros e os seus moradores. Arriscamo-nos, a médio ou até a curto prazo, a ter um grande parque temático na Baixa, onde os turistas vêm ver o que ainda resta e outros turistas. Perde-se o comércio local, o típico, porque cada vez mais há as franquias (os McDonald's, os Burger Kings, H3)”.

Luís Paisana não tem dúvidas que se está a perder a unicidade da capital e que se está a construir uma cidade “igual a outra qualquer” da Europa, um pouco à imagem de Barcelona e de Veneza.

Mas Barcelona, depois da eleição da nova presidente, tentou, de certa forma, parar com os excessos e investimentos turísticos, pôs algumas regras no alojamento local clandestino, está a fazer qualquer coisa, reconhece. Quanto à cidade italiana, “tem muitas caraterísticas semelhantes a Lisboa, os cruzeiros a despejar centenas de milhar de turistas que, numas horas gastam não sei quanto, mas que invadem e saem”, constata, lembrando as consequências que a excessiva aposta no turismo teve na cidade.

Um destino ao qual, na sua opinião, Lisboa não escapará. “Veneza tinha 300 e tal mil pessoas no centro histórico, de repente tem 50 mil. Lisboa caminha para a mesma situação. O Bairro Alto chegou a ter 13 mil moradores na década de 60, agora tem dois mil e qualquer coisa. Santa Maria Maior tinha 60 mil, agora tem 10 mil moradores"

Preto no branco, explica, "o que está a acontecer é que as pessoas estão a ser expulsas da cidade e, ao contrário do que dizem, é não é só centro histórico que está a desaparecer, a zona das Avenidas Novas que é o novo centro da cidade, quem quer morar para ali é cada vez mais difícil porque os preços são caríssimos. Estamos a assistir a própria política da cidade que a afastar as pessoas do centro para a periferias, onde não há serviços, passando a ter de ir a Lisboa para tratar dos seus assuntos. Ou seja, passam a viver pior porque é a única forma de conseguirem sobreviver dado a inflação de preços e a especulação imobiliária”.

Além disso, associadas a todas estas questões, há ainda a destruição do património, assinala. Não só no caso dos camiões de cerveja que vão destruindo passeios, fachadas de edifícios, porque têm de fornecer cada vez mais um maior número de bares e restaurantes. Mas também, a mudança de atividade do comércio local: a livraria passa para bar, a sapataria passa para bar de tapas ou restaurante". Tudo comércio que "não corresponde às necessidades dos moradores, mas sim dos turistas". 

O "mito" do alojamento local e a "pressão" para sair do Bairro

Quanto ao alojamento local, o representante dos moradores do Bairro Alto contesta que a ideia de que este seja a salvação de muitas famílias e de estas poderem sobreviver, como os governantes querem fazer passar. Como se, aponta, a maior fatia do alojamento local fossem um negócio para sustentar a família e “ganhar algum dinheirinho”.

“Há imobiliárias fortes que compram prédios para alojamento local e ponto. O presidente da Câmara [Fernando Medina] passa a mensagem de que é o alojamento local é só dos moradores que têm a sua casinha e que fazem um dinheirinho alugando-a, mas não é só isso”, atira. De referir que a tributação do arrendamento local (em Lisboa estão registados cerca de 5 mil AL) é de 15%, mas uma proposta do Orçamento do Estado para 2017 prevê um aumento para os 35%.

“Como o alojamento local não é regulado, e o objetivo foi passar o alojamento de clandestino para legal para receberem os impostos e as taxas respetivas. Depois assistimos a prédios que transformam em alojamento local, moradores que se queixam porque tinham um prédio sossegado e viviam sem grandes problemas e passam a ter jovens e não jovens com malas sempre a sair e a entrar, festas até às 3, 4 horas da manhã, maiores encargos de condomínio, jovens a dormir em elevadores, como já aconteceu”, queixa-se ainda Paisana, para quem a solução passaria pela fiscalização.

Avisando, por exemplo, os inquilinos que estão numa zona residencial, que não se pode fazer ruído a partir de determinada hora, que o lixo é recolhido a x horas, e se as regras não fossem cumpridas, ser-lhes-ia retiradas, aos senhorios, as licenças de arrendamento. Ou até, sugere, atribuir uma percentagem de cada prédio destinada ao alojamento local a bem do equilíbrio. “Como é que podemos ter bairros, quando se promove o estar a beber copos até às tantas. Alguém tem que sofrer e quem sofre são os moradores”.

Da maneira que as coisa estão, "é o mesmo que dizer que só queremos faturar, que está a ser um sucesso, estamos todos a ganhar dinheiro. Luís Paisana pensa a longo prazo e sabe que o boom turístico é um fenómeno cíclico que não dura para sempre. “E quando acabar o turismo ou reduzir?”, pergunta.

A estratégia para a cidade, opina, tem de ser pensada a longo prazo, ainda que se possa não se ganhar tanto dinheiro no presente. “O presidente da Câmara diz que depois temos casas para alugar, mas para alugar a quem? Depois da população já se ter ido embora? Vem uma nova população? Uma classe média? Não sei”.

Reconhecendo que o turismo tem contribuído para a economia e para o PIB, Paisana diz-se “chocado” com a ideia de que “ainda temos muitas camas frias - camas por utilizar - face ao número de dormidas e que ainda pode vir mais gente”. Nesta sentido, não tem meias palavras ao dizer: “Há mais dinheiro, mais economia, há mais tudo. Depois há uns coitados que sofrem e que têm de sair das suas casas, mas paciência”.

"Apaixonado pelo Bairro", onde mora há 14 anos, Paisana diz também ele sentir a “pressão para sair” e para alugar a casa a turistas. “Isso é abdicar de um direito que é o de viver onde quero”, frisa, deixando claro que não vai arredar pé dali. Outros não têm a sorte de poder insistir em ficar, uma vez que são os senhorios a preferir arrendar as suas casas a turistas do que moradores permanentes.

Quanto às obras a que ninguém consegue escapar nos dias que correm, servem apenas para “tirar condições e espaço aos moradores que, diria, têm de sair de Lisboa para vir depois cá passear nos passeios largos”, ironiza, criticando os preços das casas, a falta de espaço para estacionar.

Para Paisana, esta é uma estratégia que já vem de trás. “Começou há cerca de 10 anos. A cidade foi-se adaptando e até beneficiando da Primavera Árabe. Lisboa está a ter muito turistas não só por ser uma cidade linda, que é, mas porque outros sítios do planeta que eram seguros, deixaram de o ser”, realça ainda, insistindo na ideia do equilibro.

“Estamos a pôr em causa o futuro mas sobretudo os moradores que eram 800 mil e agora já são 500 mil. Lisboa arrisca-se a ser uma cidade como Veneza, a ter 40 mil pessoas daqui a uns anos. Porquê promover só o centro histórico, só o Chiado, a Baixa, o Castelo e Belém? Não há outros sítios? negócios que não têm a ver com as necessidades dos moradores. é uma estratégia de curto prazo. Faz falta preservar o futuro”.

Frisando que “faz falta preservar o futuro, o presidente da AMBA deixa a farpa: É mais fácil dizer que os moradores estão contra o progresso, a noite e o turismo. Que somos uns ‘velhos do  Restelo’ e que esquecemos que Lisboa estava a cair há uns anos e que agora está óptima e fantástica. Claro, não moram cá. Vêm passear, vão aos pastéis de Belém e é calminho”, remata.  

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