Pede-se divisão entre combate de incêndios e defesa de pessoas e bens

O combate a incêndios florestais e a defesa e proteção de pessoas e bens deve ser feito por forças diferentes, defendem especialistas e investigadores, que alertam também para a falta de peso económico da floresta.

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No âmbito de três seminários que juntaram mais de centena e meia de participantes, a Ordem dos Engenheiros (OE), em parceria com duas universidades e duas associações, debateu o tema "A Floresta que Precisamos", concluindo que é preciso inverter os apoios que são dados ao combate (com mais apoio) e à prevenção (com menos).

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O presidente do Colégio de Engenharia Florestal da OE, António Sousa de Macedo, explicou hoje à agência Lusa que um documento que sintetiza as conclusões dos encontros será enviado esta semana ao Governo e à Presidência da República.

Na próxima semana deve realizar-se um conselho de ministros extraordinário dedicado às florestas, no qual deverão ser aprovadas medidas para o setor. Em agosto o Governo criou um grupo de trabalho para fazer a reforma da floresta, incluindo medidas como acelerar a conclusão do registo cadastral da propriedade rústica e o reforço do ordenamento florestal.

Segundo um comunicado do Governo, de 11 de agosto passado, pretende-se ainda dinamizar as zonas de intervenção florestal (ZIF) e outros modelos de exploração florestal, aperfeiçoar o modelo de sapadores florestais e incentivar o uso de biomassa.

"As ZIF estão longe de cumprir o objetivo", disse à Lusa Sousa de Macedo, considerando que a medida é boa e que "a floresta tem de ter escala" e "não se gere como um jardim". O documento com as conclusões dos seminários também defende que as ZIF têm de ser potencializadas.

No documento também se diz que a floresta tem "falta de peso político na hierarquia do Governo" e que normalmente é encarada na perspetiva de problema e não de oportunidade ou prioridade, sendo necessária uma "visão integradora", "mais associativismo" e mais interação entre poder central e municípios.

António Sousa de Macedo acrescenta a necessidade de um pacto político, aparentemente fácil porque a questão é consensual entre partidos, e porque "a maturidade da floresta não está de acordo com ciclos políticos de quatro anos".

E depois fundamental também é "melhorar os índices de rentabilidade económica e financeira" da floresta (como não tem rentabilidade é abandonada pelos proprietários, diz Sousa de Macedo) e atrair para ela investimentos privados.

Quanto aos incêndios defende-se também nas conclusões a instituição de "um corpo profissional e multidisciplinar para a prevenção e combate", a criação de um modelo de parcerias regionais e programas permanentes de educação e sensibilização.

João Filipe Bugalho, engenheiro e especialista em matéria de florestas diz (em documento enviado à Lusa) que são poucos os incêndios de origem criminosa mas muitos os resultantes de descuido e mau uso do fogo.

O fogo por si só não é um mal e não pode nem deve ser eliminado (mas sim "os grandes e calamitosos incêndios"), diz.

E Sousa de Macedo é da mesma opinião: "é preciso educação desde a nascença", e "o incêndio não é uma fatalidade, faz parte do ecossistema mediterrânico", sendo que reduzir o flagelo dos verões demorará, com as medidas adequadas, "uma geração".

Consegue-se essa redução, entende Filipe Bugalho, com informação e sensibilização corretas e com uma atuação "persistente" no terreno para "reduzir as grandes extensões contínuas de matos e matas desordenadas".

Consegue-se com as queimadas com "fogo frio" (controladas), com a junção de pequenas parcelas de vários proprietários para um ordenamento inteligente e lucrativo.

E consegue-se sem mudar grandemente as leis, porque na essência não são elas que estão em causa, diz Sousa de Macedo.

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