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Mais dúvidas do que respostas. O que disse a mãe das gémeas no Parlamento

Daniela Martins admite que mentiu quando falou numa rede de influência que favoreceu as crianças, recusou conhecer Marcelo Rebelo de Sousa ou o filho. Sobre a nora e o e-mail que lhe enviou para agradecer ao ex-secretário de Estado António Lacerda Sales o acompanhamento que deu às suas filhas, sugeriu que possa ter sido enviado por outra pessoa com acesso à sua conta de correio eletrónico.

Mais dúvidas do que respostas. O que disse a mãe das gémeas no Parlamento

A mãe das gémeas luso-brasileiras que foram tratadas com o medicamento Zolgensma em Portugal foi ouvida, na sexta-feira, na comissão parlamentar de inquérito que avalia o caso das suas filhas, onde pediu desculpa por ter dito "algo que não era verdade por vaidade", ao referir-se a um "pistolão" [cunha] no acesso ao tratamento, um dos mais caros do mundo.

Num depoimento com várias pontas soltas, Daniela Martins garantiu que nunca conheceu ou se dirigiu pessoalmente ao Presidente da República, ou ao filho, e indicou que mentiu quando falou numa rede de influência que favoreceu as crianças.

A mãe das meninas afirmou ainda não se lembrar de ter enviado um 'mail' à mulher do filho do Presidente da República para agradecer ao ex-secretário de Estado António Lacerda Sales o acompanhamento que deu às suas filhas, alegando que "diversas pessoas" tinham acesso à sua conta de correio eletrónico.

A audição, que durou quatro horas e meia, ficou ainda marcada por um incidente devido a um pedido do Chega para que fosse exibido um vídeo, no qual era possível ver a mãe e a cara das crianças, no qual esta falava na alegada cunha. Tanto Daniela Martins como vários deputados opuseram-se à exibição das imagens. 

Já perto do final da primeira ronda, a comissão foi interrompida por alguns minutos na sequência de uma pergunta sobre o estado de saúde das meninas, e que fez com que a mãe se emocionasse e chorasse.

Quando retomou a reunião, o advogado da inquirida solicitou à comissão parlamentar de inquérito a mudança de designação por colocar em causa o nome da família.

"Era ouvido no hospital que eu estava lá a mando do Presidente da República, e eu passei a acreditar"

A mãe das meninas contou, perante os deputados, que se comentava no Hospital de Santa Maria que o Presidente da República tinha tido interferência no acesso das crianças àquele estabelecimento.

"Era ouvido no hospital que eu estava lá a mando do Presidente da República, e eu passei a acreditar nisso", confessou.

Questionada por várias bancadas sobre esta questão, Daniela Martins disse não ter conhecimento "do que acontece no hospital": "Se diziam que o Presidente interferiu, foi uma coisa que eu passei a acreditar", insistiu.

Sobre se não questionou o porquê desses comentários, a mãe das crianças justificou que se tratou de "comentários indiretos" e que, na altura, estava forcada no tratamento das filhas, pelo que os mesmos "eram irrelevantes".

Referiu também que desde que soube da existência do tratamento com o Zolgensma, a sua "intenção era essa medicação" porque era "inovadora, de toma única e era uma chance melhor, mais promissora", e que os seus esforços e contactos com as unidades de saúde foram nesse sentido.

"Nunca conheci nem me dirigi pessoalmente ao Presidente ou ao seu filho"

A mãe das gémeas disse à comissão de inquérito que nunca conheceu ou se dirigiu pessoalmente ao Presidente da República, ou ao filho, e indicou que mentiu quando falou numa rede de influência que favoreceu as crianças.

"Nunca conheci nem me dirigi pessoalmente ao senhor Presidente da República ou ao seu filho, Dr. Nuno Rebelo de Sousa", afirmou Daniela Martins. "Numa conversa, supostamente informal, vangloriei-me e afirmei ter havido uma rede de influências em que os médicos começaram a receber ordens de cima. Sobre isso, só posso pedir imensa desculpa a toda a gente de Portugal. Fui parva, errei, e errei porque disse algo que não era verdade por vaidade naquele momento", afirmou.

A mãe das gémeas disse também ter sido uma "frase falsa e infeliz" ter dito que conhecia a mulher de Nuno Rebelo de Sousa.

"Afirmei que conhecia a nora do Presidente da República, mas a verdade é que somente a conheci num evento de Natal em São Paulo, anos depois da medicação", referiu, acrescentando também que não se lembra de ter enviado um 'mail' à mulher do filho do Presidente da República para agradecer ao ex-secretário de Estado António Lacerda Sales o acompanhamento que deu às suas filhas.

"Eu não tenho conhecimento desse 'mail'. Não tenho conhecimento desse 'mail' a Juliana Vilela Drummond. Os pedidos eram direcionados a várias pessoas e não havia forma de saber. Os meus pedidos [de ajuda] foram feitos por grupos no WhatsApp de pessoas que me ajudavam a disparar. Não posso garantir que fui eu a escrever. Tinha diversas pessoas que tinham acesso à minha conta", disse.

Do pedido de nacionalidade ao diagnóstico e tratamento: "Turismo de saúde"?

Na sua intervenção inicial, Daniela Martins recusou ter vindo para Portugal "fazer turismo de saúde", salientando que é cidadã portuguesa "há mais de 15 anos".

Quanto às meninas, indicou que são cidadãs portuguesas desde setembro de 2019 e que o processo foi iniciado junto do Consulado português de São Paulo em abril desse ano.

"Nessa época, não havia suspeita de doença", indicou, assinalando que as crianças receberam o diagnóstico "no dia 09 de setembro de 2019".

Daniela Martins referiu também que o plano da sua família era mudar-se para Portugal assim que as crianças "tivessem autonomia para isso", mas que essa intenção foi antecipada por conta da possibilidade de tratamento em Lisboa.

Recordando o diagnóstico e os internamentos nos cuidados intensivos, Daniela Martins emocionou-se ao falar do "pior momento" da sua vida e explicou que, quando teve conhecimento do medicamento Zolgensma, começou uma angariação de fundos pela internet no Brasil, contactou o laboratório responsável e pediu o visto americano, uma vez que também era aplicado naquele país.

"Nessa mesma época, começámos o envio para médicos e hospitais aqui em Portugal", disse, indicando que foi feito "um email de apresentação padrão" com informação e o relatório médico das meninas e foi enviado por si "e por pessoas que disseram que ajudariam".

Apesar disso, a mãe das gémeas assegurou desconhecer quem marcou a primeira consulta das crianças no Hospital de Santa Maria, após ser desmarcada no Hospital Lusíadas.

"Soube depois que a consulta do Lusíadas poderia ser encaminhada para o Hospital de Santa Maria. Não sei quem desmarcou no Lusíadas e não sei quem marcou no Santa Maria", contou.

A mãe das crianças mostrou-se ainda "imensamente grata ao SNS" e ao Governo português e disse que fez "tudo para garantir o melhor" para as suas filhas.

Leia Também: CPI? Deputados "extrapolaram o limite da civilidade", diz mãe das gémeas

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