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Bater nos filhos? 'Só' uma palmada? Especialistas expõem possíveis danos

Apesar da mudança que se faz sentir nos métodos educativos em Portugal, num estudo nacional recente, três em cada dez participantes consideram aceitável usar castigos corporais em crianças.

Bater nos filhos? 'Só' uma palmada? Especialistas expõem possíveis danos
Notícias ao Minuto

09:40 - 11/07/23 por Marta Amorim

País Educação

Independentemente da idade a da geração a que se pertença, já todos ouvimos o “Levei muita palmada e não morri”. Mal ou bem, sobrevivemos. Mas com que traumas e a que custo?

A opinião dos especialistas é linear: usar castigos corporais nas crianças compromete o seu desenvolvimento.  

Por ocasião do Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão, o Instituto de Apoio à Criança (IAC) lançou nas redes sociais um spot de sensibilização desenvolvido em parceria com o Movimento Cívico “Nem Mais uma Palmada” e realizado pela Produtora Many Takes.

O impacto que teve nas redes sociais e as opiniões que desencadeou - tanto de defensores da palmada como de uma parentalidade mais consciente - mostra que muito há a fazer, mas também que há muita gente disponível a mudar mentalidades. 

O IAC lembra que este não é um problema atual, mas que muito se acentuou com a pandemia, que veio tornar visível muitas situações limite camufladas até então.

Fui educado assim e é-me difícil mudar. O que fazer?

Apesar da mudança que se faz sentir nos métodos educativos em Portugal, num estudo nacional recente, três em cada dez participantes consideram aceitável usar castigos corporais em crianças - sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família. 

Para Nuno Pinto Martins, fundador do Projeto Educar Pela Positiva, estes números espelham a cultura e a forma como a punição é usada “talvez desde sempre”. 

“Olhando para trás, muitos dos nossos pais, avós, bisavós e por aí em diante já utilizavam a punição. Assim, o que nós estamos a fazer é repetir o padrão”, afirma. 

Para mudar, indica, é preciso que cada um de nós observe os resultados que está a ter com o ‘método tradicional, com a palmada ou com o castigo".

“Se eu disser aos meus filhos para arrumarem o quarto e eles não o fizerem, eu posso ameaçar retirar-lhes algo que gostem e assim arrumam o quarto. Portanto, muitas vezes o castigo dá-nos um resultado imediato, ou a sensação dele”, assevera. 

Mas no médio longo prazo, assinala, o normal é a criança continuar a “desafiar” e a relação não melhorar. É até possível que a criança comece a ter medo do adulto. E o medo, recorda, “é diferente do respeito”

Para o especialista, o primeiro passo para mudar o método educativo deve ser a reflexão e a consciência de que se quer, efetivamente, mudar. Contudo, “por vezes nem temos tempo para fazer esse processo”. O dia a dia leva-nos de afazer em afazer até que, já pais, nos deparamos com a vontade de querer educar de outra forma. 

A especialista Mikaela Övén, mãe de três filhos e defensora da parentalidade consciente, assina por baixo e lembra que a primeira coisa a fazer é "refletir sobre a tua própria história e criar uma narrativa coerente".

O adulto deve assim "reconhecer os aspectos negativos e os danos causados, mas também identificar os momentos em que se aprendeu lições valiosas e desenvolveu resiliência".

Ao criar uma narrativa coerente e significativa, está mais preparado para adotar um estilo de parentalidade diferente e mais saudável, assegura.

"Ao entender a própria jornada e encontrar significado nela, podemos transformar as dificuldades em oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal", revela Mikaela Övén.

A perita em parentalidade consciente aconselha ainda o adulto a cultivar  autocompaixão e autoempatia e trabalhar a regulação emocional. Por fim, deve definir intenções bem claras e aprender mais sobre alternativas ao que já conhece sobre parentalidade.

Como quebrar o padrão com exemplos concretos:

Nuno Pinto Martins exemplifica como agir, em situações concretas, frisando que devemos mostrar à criança como ser útil.

  • Imagine-se no supermercado e o seu filho faz uma birra pois quer um brinquedo novo. Em vez de aplicar castigo ou ralhar, peça ajuda com as compras. Peça para ajudar com a fruta, com a lista… redirecione a atenção da criança e faça-a sentir-se útil;
  • Oriente a criança para comportamentos aceitáveis. Dê-lhe duas opções relativamente a um comportamento. Se ela desviar para um comportamento pouco correto, dê-lhe a escolha: “Não podes fazer isso, mas tens estas duas escolhas”.
  • Mostre à criança como compensar o comportamento. Por exemplo, se gritou com o irmão. "Em vez de colocar a criança de castigo, questione e indique o que esta deve fazer para compensar a atitude. Um abraço, um pedido de desculpas… Mas não obrigue. Converse e mostre que o irmão ficou magoado", explica o educador.
  • Por último, a consequência. Por último, propositadamente, "porque deve ser o último recurso", diz o especialista. "Embora se possam confundir, castigo e consequência são coisas diferentes", lembra. Imagine uma criança que anda no futebol e que devido ao cansaço ou obsessão, descura as notas. Mostre que sair da atividade será uma consequência se as notas não melhorarem, ao invés de fazer a ameaça de retirar o seu filho da atividade. 

É importante frisar que, decidir-se por um tipo de parentalidade que não se revê em castigos ou gritos, não quer dizer, necessariamente, que tal seja fácil de implementar. É nos dias de maior cansaço e em que o dia a dia toma conta de nós que pode sair um grito ou uma palmada. Depois, vem a "culpa e o sentimento de que está a falhar enquanto pai". 

Segundo Mikaela, "a primeira coisa a fazer é praticar autocompaixão e autoempatia".

Deve identificar quais as suas necessidades em causa e os gatilhos mais comuns. "Devemos lembrar que existe sempre o momento seguinte e podemos aproveitar esse momento para pedir desculpa, reconectar"  e privilegiar aprendizagens.


Que tipo de danos podem perdurar

Aqui a palavra “trauma” é repetida. “Ai, não se pode dizer nem fazer nada às crianças porque ficam logo traumatizadas”, é costume ouvir-se, lembra Nuno. Contudo, o trauma é real.  

“Pode haver uma criança que de facto com uma simples palmada fica traumatizada e pode haver outra criança que ao longo do seu crescimento levou algumas e encontrou um mecanismo para superar. Nunca sabemos como é que aquela criança vai integrar essa informação e se no futuro a vai reproduzir ou não", afirma Nuno Pinto Martins.

Castigos corporais e psicológicos causam dor e sofrimento emocional imediato na criança, resultando em medo, ansiedade, tristeza e raiva

Na ótica da educadora parental Mikaela Övén, há que considerar danos a curto e a longo prazo. 

Quando há um castigo corporal, há um "sofrimento emocional imediato", afirma. "Castigos corporais e psicológicos causam dor e sofrimento emocional imediato na criança, resultando em medo, ansiedade, tristeza e raiva", segundo Mikaela. 

Depois, considerem-se os problemas comportamentais. As crianças podem "desenvolver comportamentos agressivos, rebeldes e desafiadores como resposta aos castigos". Como consequência, podem ainda desenvolver aprendizagens problemáticas sobre relacionamentos. A criança "aprende que bater é aceitável em relações de amor". A curto prazo há ainda a considerar o risco de lesões físicas.

A exposição contínua a castigos físicos e psicológicos está associada a um maior risco de desenvolvimento de problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade, transtornos comportamentais e stress pós-traumático

Ainda segundo a especialista, nos danos a longo prazo, no topo da lista estão os problemas de saúde mental. "A exposição contínua a castigos físicos e psicológicos está associada a um maior risco de desenvolvimento de problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade, transtornos comportamentais e stress pós-traumático", revela ao Notícias ao Minuto

Mikaela defende que castigos frequentes podem "afetar negativamente a autoestima e a autoconfiança da criança", levando a uma visão negativa de si mesma e à falta de confiança nas suas habilidades e competências. Podem ainda afetar a qualidade do relacionamento entre adulto e criança, e no futuro "a criança pode ter dificuldade em estabelecer relacionamentos saudáveis ​​e duradouros, e em expressar emoções de forma adequada".

Os castigos físicos e psicológicos, refere a especialista em parentalidade consciente, "interferem no processo de aprendizagem da criança, pois podem causar ansiedade, distração e dificuldades de concentração na escola".

"As crianças que crescem expostas a castigos físicos têm maior probabilidade de reproduzir esse comportamento no futuro, perpetuando um ciclo de violência", assevera ainda. 

Quando os familiares normalizam a palmada 

Entrar em processo de mudança pode, por vezes, significar que abrimos caminho e fazemos os primeiros quilómetros sozinhos. 

Muitas são as famílias onde um pai quer seguir o caminho da parentalidade consciente e o outro ainda normaliza a palmada. Também é comum os pais definirem uma linha de educação e deixarem os filhos ao cuidado dos avós (ou outros familiares) e estes não estarem alinhados. 

Ambos os casos, assegura Mikaela Övén, são "muitos comuns".

"Para enfrentar essa situação, é essencial manter uma comunicação aberta e respeitosa com os avós, explicando as preocupações e pedidos que temos", declara. 

Estabelecer limites claros sobre os valores e formas de educar desejadas é importante, bem como "liderar pelo exemplo e mostrar aos avós as consequências positivas de uma abordagem não violenta", destacando os benefícios diretos para a criança e, "muito importante, praticar parentalidade consciente com o adulto em questão". 

Nuno Pinto Martins afiança que é normal um pai ser mais autoritário do que o outro e que apesar de o caminho não ser fácil, é importante "manter sempre o diálogo". Aconselha, no entanto, a desafiar para a leitura de um livro ou para a inscrição numa formação. 

O que diz a lei

O castigo corporal é definido segundo o Comité dos Direitos da Criança, no Comentário Geral n. 8, de 2006, como “qualquer castigo “corporal” ou “físico” em que a força física é usada e com a intenção de causar algum grau de dor ou desconforto, ainda que de forma ligeira.

A maior parte dos castigos corporais envolve bater (“palmadas “, “bofetadas”, “sovas”) numa criança, com a mão ou com um objeto – um chicote ou cinto, por exemplo.

Segundo o IAC, também pode envolver, por exemplo, pontapear, abanar ou projetar uma criança, arranhando, beliscar, morder, puxar cabelos, puxar as orelhas, forçar as crianças a ficar em posições incómodas, queimar, escaldar ou forçar a ingestão (por exemplo, lavar a boca das crianças com sabão ou forçando-os a engolir especiarias picantes).  

Desde 1977 que o poder de castigar moderadamente os filhos deixou de fazer parte do que o Código Civil enumera como responsabilidades parentais. Mais ainda,  há 16 anos que o Código Penal prevê o crime de maus tratos a menores.

Leia Também: O seu filho não foi colocado na escola que pretendia? Saiba o que fazer

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