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Barquinhos de papel ao vento lembraram os refugiados que morrem no mar

Barcos de papel a vogar ao vento, presos por um fio, lembraram hoje a fragilidade dos milhares de refugiados que morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo, e cujos nomes foram recordados numa iniciativa de apelo à ação hoje em Lisboa.

Barquinhos de papel ao vento lembraram os refugiados que morrem no mar

Matias Penelo tem seis anos, um luminoso cabelo louro quase branco e um olhar carregado de curiosidade. De mão dada com a mãe, não teve vergonha de se aproximar dos ativistas que preparavam a iniciativa a propósito do Dia Mundial do Refugiado que decorreu esta tarde no Largo Camões, em Lisboa, para lhes perguntar o que se estava ali a passar.

"Como gosto de barquinhos de papel vim saber o que se passava e explicaram-me que é por causa dos refugiados que fugiram da guerra e que morreram afogados no mar", disse à Lusa, com a mesma desenvoltura e à vontade com que quis saber o que se passava e com que aceitou a oferta dos ativistas para contribuir para o momento, fazendo ele próprio um barquinho de papel.

Matias, que nunca tinha ouvido falar da história dos refugiados que morreram no mar, sentiu pena dessas pessoas, cujos nomes foram impressos numa longa lista de 12 folhas de papel de grande formato, que, enquanto não foram coladas ao chão, ondularam ao vento o nome, a origem e as circunstâncias da morte de cada um daqueles que, entre janeiro de 2019 e 01 de junho deste ano, morreu no Mediterrâneo. Mas não só.

"Nesta lista está também o nome de Ihor Homeniuk", disse à Lusa Sofia Grilo, do coletivo Humans Before Borders (HuBB), uma das organizações responsáveis pela iniciativa, recordando o caso do cidadão ucraniano que morreu no aeroporto de Lisboa à guarda do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

"As fronteiras não são só o Mediterrâneo, são também os centros de detenção. Existem mais barreiras para os refugiados do que o mar, até barreiras mentais. Nenhuma fronteira vale mais do que a vida humana", disse Sofia Grilo, que explicou que, mais do que sensibilização, a iniciativa é um apelo à ação na União Europeia.

Sofia Grilo defendeu que estas mortes não são um acidente, mas intencionais, provocadas por bloqueios ao resgate e às ações humanitárias, como aqueles que já colocaram no banco dos réus ativistas que tentaram salvar náufragos no Mediterrâneo.

"Exigimos a criação de rotas legais e seguras. Estas pessoas estão desesperadas e vão continuar a fugir dos seus países. Sem rotas seguras, as mortes são inevitáveis", disse.

"Estas mortes podiam ter sido prevenidas se estas vidas tivessem sido protegidas e reconhecidas como vidas humanas", disse ainda, acrescentando que quase 45 mil pessoas já morreram a tentar a travessia entre o norte de África e o sul da Europa, desde 1993, e que só este ano já morreram mais de 800.

Para estes ativistas, estas pessoas têm de ser mais do que números, a que se reage com indiferença.

"Isto para nós é indignante. É frio. É por isso que queremos lembrar os nomes e mostrar que não são números", explicou, enquanto ao seu lado os companheiros concluíam o longo corredor de folhas de papel, simbolicamente ladeado de coletes salva-vidas, a sublinhar os nomes do que não conseguiram chegar a um porto seguro.

Na lista há maioritariamente mortes por afogamento, mas há também homicídios, de refugiados abatidos a tiro por guardas fronteiriços, mortes acidentais em florestas, de pessoas a tentar entrar na Europa, contornando os controlos fronteiriços, e suicídios de menores que não aguentaram as condições nos abrigos.

Os nomes foram lidos ao microfone, diante de uma faixa onde se lia, em inglês, "Protejam as pessoas, não as fronteiras", enquanto balançavam ao vento os barquinhos de papel presos por um fio que os ativistas seguravam num semicírculo em torno da lista transformada em memorial.

O Dia Mundial do Refugiado assinala-se hoje.

Segundo um comunicado divulgado na sexta-feira pelas Nações Unidas, apesar da pandemia, o número de refugiados e deslocados internos no mundo continuou a crescer em 2020, atingindo um novo recorde de 82,4 milhões, o que significa que são mais do dobro do que os que existiam há uma década, quando o número era inferior a 40 milhões.

Leia Também: Papa Francisco apela ao acolhimento dos refugiados

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