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PCP. História e (pequenos) segredos da sucessão de Cunhal para Carvalhas

Jerónimo de Sousa é, depois de Álvaro Cunhal, o secretário-geral do PCP com mais tempo na liderança dos comunistas (16 anos), num partido em que as transições de líderes são recheadas de histórias e segredos.

PCP. História e (pequenos) segredos da sucessão de Cunhal para Carvalhas
Notícias ao Minuto

12:03 - 26/11/20 por Lusa

País PCP/Congresso

Com a substituição de Jerónimo adiada no XXI congresso nacional, no próximo fim de semana, em Loures, distrito de Lisboa, a sucessão do operário metalúrgico de 73 anos pode, segundo noticiou o Expresso, ser feita em duas fases, como aconteceu com Cunhal e Carlos Carvalhas, na década de 1990.

No último ano, Jerónimo de Sousa passou de admitir sair porque "é da lei da vida", a admitir o cenário, desde setembro, de "ficar mais um bocadinho". E há dias afirmou que é cedo para escrever as suas memórias.

Desde que Portugal vive em democracia, em 1974, o PCP teve três líderes - Álvaro Cunhal, de 1961 a 1992, Carlos Carvalhas, de 1992 a 2004, Jerónimo de Sousa, de 2004 até hoje.

Líder histórico dos comunistas portugueses, Álvaro Cunhal (1913-2005) controlou a sua sucessão, após 29 anos como secretário-geral do PCP, a avaliar pelos testemunhos de vários dirigentes, antigos e atuais, ouvidos pela Lusa.

Mesmo passado tanto tempo sobre o congresso de Almada, Setúbal, em 1992, antecedido pelo de 1990, em Loures, que escolheu Carlos Carvalhas para "número 2", são poucos, dentro do partido, os que falam abertamente deste processo de sucessão, à exceção dos "críticos" que o fizeram agora à agência Lusa, como Raimundo Narciso, ou em livros de memórias.

Quem ainda é militante e aceita falar, fá-lo pedindo para não ser identificado para falar sobre um processo que teve os seus dramas e ainda esconde alguns segredos.

"Cunhal saiu quando muito bem lhe pareceu e ninguém ousaria apontar-lhe a saída", recordou, à Lusa, Raimundo Narciso, militante do PCP desde a década de 1960, responsável pela Acção Revolucionária Armada (ARA) e que foi expulso do partido em 1991.

O processo de substituição foi longo e um ex-dirigente comunista, que continua militante do partido, concorda apenas a metade da frase de Raimundo Narciso: "O Álvaro saiu quando entendeu que era altura de sair."

Mas há dúvidas, por exemplo, quanto ao tempo escolhido pelo líder para sair. Dirigentes ouvidos pela Lusa são da opinião de que "o Álvaro" - como ainda é hoje tratado por quem o conheceu ou por militantes mais velhos - pode ter atrasado a decisão para não sair nos momentos mais duros da crise interna e externa -- a convulsão interna devido aos críticos e a queda da ex-URSS.

A saída de Cunhal aconteceu em dois momentos. Primeiro, com a escolha de um secretário-geral adjunto, Carlos Carvalhas, em 1990. Deixou a liderança dois anos depois, em 1992, apesar de continuar à frente do conselho nacional, um órgão consultivo extinto poucos anos depois.

Havia, porém, uma série de condicionantes que acompanhavam o PCP nos últimos anos.

Cunhal tinha mais de 70 anos, já tinha sido operado a um aneurisma em Moscovo, em 1989, e a "perestroika" de Mikhail Gorbachev - o líder soviético que deu a medalha Lenine ao histórico comunista português - estava já a mudar a URSS.

Daí a meses, caiu o Muro de Berlim. E era o princípio do fim da União Soviética.

Em Portugal, o PCP vivia tempos conturbados, de dissidência, em que a linha de fratura se baseava na leitura - mais ou menos crítica - dos acontecimentos no país dos sovietes. Os "críticos" -- grupo dos "seis", a "Terceira Via", o grupo do INES (Instituto de Estudos Sociais) -- traziam o debate interno para fora das paredes do partido. Zita Seabra, afastada do comité central em 1988, foi expulsa em 1990. Deputado, Vital Moreira é um dos críticos e um dos primeiros a defender, sem rodeios, a substituição de Cunhal.

Os cenários de substituição, porém, foram sendo avaliados ao longo dos anos, desde a década de 1980.

Na véspera do XIV congresso (extraordinário) do PCP, em 1992, o Público escreveu que a saída de Cunhal "concretiza uma substituição ensaiada ao longo dos últimos dez anos", desde o X congresso, em 1983, no Porto, e tinha como título "A década da substituição".

Nesse ano, recordava a jornalista São José Almeida, foi criado o secretariado político permanente com Cunhal e mais quatro dirigentes -- Carlos Brito, Carlos Costa, Domingos Abrantes e Octávio Pato. Qualquer um, "embora uns mais do que os outros, poderiam, se necessário, encabeçar a liderança" ou formarem uma "cúpula de direção", como aconteceu nas décadas de 1950 e 1960, antes da eleição do líder histórico dos comunistas portugueses.

Apesar de o mundo ainda viver em Guerra Fria, entre os EUA e a URSS, e de o PCP ter reforçado a sua votação nas eleições (18,2%), havia agitação interna, com as críticas de dirigentes como Veiga de Oliveira, Osvaldo de Castro e Vital Moreira à estratégia partidária, mais favorável à via parlamentar e um abandono do marxismo-leninismo, é ainda recordado neste artigo de 1992.

Os anos seguintes abalaram o PCP, até à década de 1990. Quando é operado em Moscovo, Domingos Abrantes, com "provas dadas na clandestinidade", é visto por Cunhal e por outros dirigentes como "contrapeso da tradição do PCP às modas de renovação a que o partido era obrigado", ainda de acordo com o Público.

Os preparativos para a sucessão continuaram e, com o passar do tempo, nenhum dos quatro de 1983 (Brito, Costa, Abrantes e Pato) passou do "caderninho" em que Cunhal, segundo Carlos Brito, em que ia apontando as sugestões que lhe davam, como recordou Carlos Brito ao Expresso, em junho.

Convocado o congresso de 1990, decidida a criação do cargo de secretário-geral adjunto, a escolha recaiu sobre um dirigente da nova geração, um economista, de 46 anos, Carlos Carvalhas, que era eurodeputado do PCP em Estrasburgo, e já conquistara, nas urnas, 13% dos votos nas presidenciais.

Carvalhas "era discreto", na descrição de um dirigente da altura, ouvido pela Lusa, com "um perfil capaz" de tentar "uma via moderada" num partido disciplinado, mas extremado.

Menos positiva é a opinião de Raimundo Narciso, do campo dos críticos, ao dizer, 30 anos depois, que foi Cunhal a escolher Carvalhas, "contra as expectativas gerais para lhe suceder porque era um candidato 'fraco' e que presumivelmente se submeteria às suas orientações ou ditames".

Vários dirigentes mais jovens, como Luís Sá (1952-1999) ou Vítor Dias, foram sendo chamados a funções de direção. Deputado, responsável pelas autarquias, Luís Sá também esteve na corrida para "número 2" e, no congresso de 1990, os jornalistas até fizeram "apostas" que seria ele eleito, mas Carvalhas levou a melhor.

Nos anos anteriores, em 1989 e 1990, a sucessão na liderança do PCP esteve nas páginas dos jornais como nunca antes, com notícias e até sondagens. O semanário "O Jornal" chegou a fazer uma sondagem sobre quem deveria substituir Cunhal e, no topo, estava Vital Moreira (15% das preferências), seguido de Zita Seabra (8%), Carlos Brito (3,5%) e José Luís Judas (2%). Carvalhas, o escolhido para "número dois", tinha 1% e Luís Sá, outros dos potenciais candidatos, recolhia escassos 0,5%.

A decisão esperada aconteceu na madrugada de 20 de maio de 1992, no pavilhão de Almada: Carvalhas e Cunhal foram eleitos por unanimidade -- o primeiro para secretário-geral e o segundo para presidente do conselho nacional.

No final, Carlos Carvalhas discursou e, para dentro, deixou o recado: o congresso dera "importantes passos a caminho da renovação, com o contributo do camarada Álvaro Cunhal".

Seguiu-se o ritual das palmas. Durante mais de dez minutos - recorde anterior, no discurso de despedida de Cunhal - os delegados aplaudiram. Por entre punhos erguidos, bandeiras vermelhas, palavras de ordem como "assim se vê, a força do pê-cê", abraços, beijos e lágrimas.

No final, já os militantes arrumavam as cadeiras e as mesas, como é habitual nos congressos comunistas, questionado sobre o que sentia depois de abandonar um cargo que ocupou durante 31 anos, Cunhal, "filho adotivo do proletariado" e "revolucionário profissional", deu uma resposta curta ao Expresso: "Não sinto nada, eu sou um profissional."

Leia Também: Jerónimo, entre sair pela "lei da vida" ou ficar "mais um bocadinho"

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