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"Não me considero feio, mas também não sou uma beleza rara da natureza"

O Padre Ricardo Esteves, que ficou conhecido como 'Padre Sexy', é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

"Não me considero feio, mas também não sou uma beleza rara da natureza"
Notícias ao Minuto

09:30 - 06/10/20 por Catarina Correia Rocha 

País Padre Ricardo Esteves

O Padre Ricardo Esteves ficou famoso pela sua 'alcunha' de 'Padre Sexy'. Tem 37 anos e alguns hobbies que não associamos tão normalmente a homens da Igreja. Em entrevista por escrito ao Notícias ao Minuto, mostra a sua faceta mais descontraída e não hesita em explicar como ocupa os seus tempos livres, a forma como encara a sua missão de evangelização e o que considera serem os desafios da religião.

Conta como foi o percurso até aos dias de hoje e como 'ganhou' tal cognome sexy: "Anormal seria se fosse de batina para a praia apanhar sol, não acha?" Assume o seu gosto por motas e desporto, mas não considera que tal seja "vaidade desmedida". 

Mas temas fraturantes como o celibato dos padres e a eutanásia também estiveram em cima da mesa. Sobre o primeiro, Ricardo Esteves considera que "nenhum padre opta por ser padre de olhos vendados", sendo que também há nestes "um sentimento paternal". Quanto à morte medicamente assistida, é taxativo: "É fraqueza de quem nunca confiou em si".

Como está a viver a Covid-19? Que meios usou para estar próximo dos fiéis durante a pandemia? Que preocupações partilhavam consigo?

Fomos surpreendidos por um inimigo invisível, mas durante esse período procurava motivar e dar alento às pessoas através de reflexões que ia partilhando na minha página. Todos os fins de semana celebrava a Eucaristia à porta fechada, mas era transmitida pelo sistema sonoro da igreja - que chegava a todas as casas - e dizia às pessoas para se cuidarem, tentando-as também animar dizendo que depois da tempestade vem a bonança. Ainda transmitia a Eucaristia através de diretos do Facebook.

As preocupações eram muitas, mas o que mais acentuava no coração das pessoas era a ausência dos familiares, a falta dos almoços em família e a preocupação pelo bem estar dos que tinham de trabalhar. É claro, a parte económica também era uma preocupação constante. Contudo, nem tudo foi negativo: houve maior consciência dos valores em família e sentimento de partilha, maior valorização de tantas vezes dizermos que 'não temos tempo para nada', quando o tempo o dá Deus de graça, basta ser metódico e organizado.

Apesar de nada ainda estar resolvido, a fé mantém-se e faço para que nunca se apague.

Como descobriu a sua vocação?

A descoberta da minha vocação é fruto de uma caminhada, tal como a descoberta de todas as vocações. Por exemplo, a vocação para o matrimónio também é fruto de uma caminhada, que apelidamos de namoro ao longo de um certo período de tempo.

Entrei muito jovem para o seminário, tinha 11 anos. Não entrei convicto de que ia ser padre nem com a ideia fixa de que seria, até porque entrar para o seminário tem como objetivo principal fazer uma caminhada para se ir descobrindo a vocação através da relação com os outros meninos e jovens que também incluem o seminário, através de gestos concretos na celebração dos ritos sacramentais, da relação próxima com os padres formadores e professores na escola, entre outras.

O seminário não é o único instrumento de descoberta da vocação para padre. Temos também o caminho educacional percorrido na família, na comunidade de onde somos naturais, e dos princípios que nas mesma nos são incutidos e, por conseguinte, vivenciados.

A descoberta da vocação é uma panóplia de sentimentos que se vão alicerçando de uma forma emotiva e racional em cada etapa que surge no percurso da idade e da vida.

Pensou em enveredar por outro caminho?

Descobri com firme certeza que queria ser padre quando já me encontrava em teologia, em Braga, já com uma caminhada amadurecida por um percurso longo de vida de seminário. Por fim, decidi ser padre porque realmente era o que o meu coração pulsava e ditava, não fruto de algo espontâneo, mas consciente.

Depois fui ordenado padre, em 2009, e fui colocado no concelho de Caminha, diocese de Viana do Castelo, nomeadamente nas paróquias de Lanhelas, Seixas e Vilar de Mouros. Desde então, sem experiência nem prática nenhumas, fui-me relacionando com as pessoas. E, quando entrei nas paróquias, uma das minhas prioridades foi conhecer a cultura e tradições daquele povo. Para que, com o tempo, sem nada querer abolir, pudesse dar um novo alento.

Não vou dizer que os primeiros tempos foram fáceis. Viver sozinho numa casa, ter que cozinhar sem sequer o saber, assumir responsabilidades acrescidas, saber ouvir e aconselhar crianças, jovens - e menos jovens -, não é fácil. Porque padre é aquele que assume as dores de todos os dias de um povo que lhe está confiado.

Com o tempo a empatia foi crescendo, mas o caminho nunca foi plano nem sem pedras. Parafraseando Miguel Torga, que adoro ler, "em qualquer aventura o importante não é chegar, mas partir..."

E parti e fui crescendo no meio daquele povo, onde pouco ensinei dentro da Igreja, mas que acarretei para com eles uma dívida que jamais poderei pagar, pelo carinho, pela atenção, pela proximidade, pela fé simples de atos concretos no dia a dia que nós, padres, muitas vezes não sabemos perscrutar, talvez por 'estudarmos' um Deus lá do alto, quando o mesmo Deus veio à terra. Um padre uma altura dizia, e muito bem, que o povo também faz teologia, e nós não somos mais eruditos do que o povo.

Depois com os jovens, um pouco afastados da Igreja mas com uns corações cheios de fé, dúvidas, inquietudes... fomos saindo, jogando futebol, tomando uns cafés, uns jantares e, desta forma, os laços foram crescendo e a vontade de querer e fazer algo também.

Afinal, as pessoas não vão vestidas para a praia e eu também não. Anormal seria se fosse de batina para a praia apanhar sol, não acha?Como encara a 'alcunha' que ganhou de 'padre sexy'? Percebe de onde vem ou como começou?

Essa 'alcunha' de padre sexy surgiu após uma reportagem feita pelo jornal Correio da Manhã em que eles utilizaram uma fotografia minha em calções na praia. Não percebo porque é que isso deu tanto que falar... estar de calções na praia é normal. Afinal, as pessoas não vão vestidas para a praia e eu também não. Anormal seria se fosse de batina para a praia apanhar sol, não acha?

Depois a alcunha de 'padre sexy' evoluiu para 'padre mais sexy de Portugal' e, finalmente, cheguei ao pódio, com o título de 'padre mais sexy do planeta' [risos].

Acha que esta 'alcunha' lhe assenta? Acha-se 'sexy'?

Claro que não me acho sexy. Não me considero feio, mas também não sou uma beleza rara da natureza. Sou um homem normal. Todas as pessoas tem a sua própria beleza, se assim não for como poderemos gostar dos outros? Se não formos capazes de gostar de nós próprios?

Se atrai mais jovens? Talvez, porque no fundo quebra-se um pouco este estereótipo do padre que parece mais ser supremo do que um homem com as suas forças, fraquezas e limitaçõesPensa que a sua imagem e os seus interesses podem abrir a Igreja aos mais jovens?

É lá, bem como noutros espaços fora da Igreja, que contacto com a realidade tal como ela é. É nestes espaços que ouço na linguagem própria de cada um as críticas à igreja, a dores e dificuldades da vida, as inquietações e incertezas próprias da fé. É nestes espaços que falo a linguagem deles, é aqui que se consegue proximidade e ser absorvido pelos corações deles, é aqui que vejo Deus, no olhar dos outros, no bom e menos bom da vida de cada um, porque é aqui que a fé nasce, ou reavive e desabrocha.

A minha imagem é aquilo que sou em cada tempo e espaço. E o que partilho nas redes sociais é um pouco do amor que nutro pela vida, porque é o dom mais maravilhoso que podemos receber. Quando rezamos a Deus para nos dar saúde é a mesma coisa que pedir: dá-me vida. Portanto, amo a vida e tudo o ela contém, sempre consciente de que a minha liberdade termina onde começa a dos outros.

Se atrai mais jovens? Talvez, porque no fundo quebra-se um pouco este estereótipo do padre que parece mais ser supremo do que um homem com as suas forças, fraquezas e limitações mas que vive a fé com verdade e testemunha com a vida a mesma fé em que acredita.

É público que tem um especial gosto por motas. Como começou?

Sim, adoro motas. Desde muito pequenino. Recordo que o meu pai tinha uma mota, uma Famel de 50cc e um dia, com 12 anos, fugi com ela para dar uma volta em redor da casa porque ele não estava. Mas ele descobriu porque a mota ficou sem gasolina. Com receio que me pudesse aventurar noutra tentativa e me pudesse magoar, vendeu a mota e comprou uma motosserra [risos].

Notícias ao MinutoPadre Ricardo Esteves© Global Imagens

O que gosta de fazer nos seus tempos livres?

Nos meus tempos livres gosto de andar de mota, sempre que posso e o tempo também permite. Mas também gosto muito de praia, música, ler, e muitas vezes, sobretudo no inverno, gosto de ficar em casa, de fato de treino, embrulhado numa manta no sofá a ver um filme, porque também adoro cinema.

Gosto muito de desporto, nada profissional ou federado, mas pelo prazer do desafio, da dinâmica, da competição até mais comigo mesmo. Vou ao ginásio sempre que posso, umas vezes mais, umas vezes menos, mas vou e adoro ir. 

Não é vaidade, pelo menos vaidade desmedida. É apenas gosto pelo desporto e o corpo molda-se em função daquilo que praticamos, assim como o nosso coração e almaConsidera que os padres mais velhos encaram bem o facto de tratar do seu corpo e da sua imagem?

Os padres com mais idade... uns devem considerar normal, outros talvez vaidade. Mas sei que não é vaidade, pelo menos vaidade desmedida. É apenas gosto pelo desporto e o corpo molda-se em função daquilo que praticamos, assim como o nosso coração e alma. Se são alimentados de bons sentimentos, então eles refletem boas ações.

Nunca sentiu nenhuma 'desconfiança' da parte de outros homens da Igreja por isso?

Nunca senti desconfianças, mas talvez sinta que por vezes posso ser mal interpretado. Mas quem realmente me conhece sabe que sou um jovem normal, conhecedor dos meus hobbies e quais os meus limites em cada um deles.

Já fez algumas sessões fotográficas e participou num videoclipe. Que mensagem quis passar com essas participações?

A mensagem que quis passar? Não diria que foi propriamente mensagem. Primeiro, porque admiro a arte da fotografia. Segundo, acho que tudo que possamos vivenciar só nos enriquece a nível humano e espiritual. E, terceiro, se me propunham a sessão fotográfica e a possibilidade de donativos para obras e beneficências, aceito.

O videoclipe foi uma brincadeira com amigos. Foi muito divertido e uma forma de ajudar um jovem casal que tem um potencial enorme no sonho da música, para além da inquietante história de amor que os uniu, tudo por causa música. Estou a falar do Marco e Evita Brantner, com a Banda Intenso.

Se não usar aquilo que muitos chamam de pagão - e que parece o 'monstro papão' da igreja - muitos palcos da vida continuam confinados a um espírito vazioEstas iniciativas são importantes para se aproximar da população e dos seus fiéis?

Estas experiências são muitas vezes o palco perfeito para chegar a corações que, muitas vezes, atribulados pelo stress da vida não frequentam a Igreja e tudo pode ser uma forma de os fazer repensar os sonhos, os caminhos que se desejam traçar. E isso é importante para mim, poder ajudar. De outra forma, se não usar aquilo que muitos chamam de pagão - e que parece o 'monstro papão' da igreja - muitos palcos da vida continuam confinados a um espírito vazio. Mas devemos pegar naquilo que atrai, ainda que não seja o melhor cenário, e catequizar.

Tem tentações? Como lida com elas?

Se tenho tentações? Conhece algum homem ou mulher que as não tenha? Até o próprio Jesus as teve, quem sou eu para as não ter? Claro que tenho tentações e hesitações em todos os campos. Nem sempre é fácil lidar com elas mas também não é impossível.

Acho que a igreja deveria, neste tempo, saber ouvir mais e falar menosO que acha que a Igreja deveria fazer para chegar aos mais novos?

A Igreja, ao contrário do que muitos pensam, não é retrógrada nem castradora. A Igreja - bem como toda a instituição - vela por aquilo que nos faz caminhar com sustentabilidade e confiança.

Olhemos para as famílias de hoje! Não são uma instituição? São, pois! E sabemos que a família não é gerada pelo sangue, porque o sangue apenas gera parentesco. A instituição família é gerada por princípios de amor, lealdade, intimidade, diálogo, confiança... Um exemplo: Quando somos crianças e os nossos pais nos repreendem, nós não gostamos, mas quando crescemos e amadurecemos, reconhecemos que o que outrora foram castigos, hoje são honras, porque fizeram de nós homens e mulheres de caráter.

Mas sim, a Igreja como instituição também se vai transformando e aprendendo com os sinais dos tempos.

Quais as iniciativas que pensa que a Igreja deveria levar a cabo para 'chamar' e incluir mais fiéis?

Acho que a igreja deveria, neste tempo, saber ouvir mais e falar menos. Mas também quem fala deve saber que o que pode ouvir deve ser escutado.

O que faz de diferente em relação a outros padres na sua missão de evangelizar?

Não faço nada de diferente para evangelizar, o que me pode distinguir talvez sejam as dinâmicas usadas, os meios ambientes, a linguagem e a proximidade. Os jovens gostam de alguém que experimente as mesmas vivências, mas que vejam nesse alguém uma pessoa que não os deixa afundar. Jesus estava com todos em tudo e era o porto seguro de todos os que se pensavam afundar. Quem não vive próximo não sabe sentir o que os outros sentem.

Como olhou para as manifestações que ocorreram em Caminha quando saiu da paróquia?

Não diria que foi uma manifestação que ocorreu nas anteriores paróquias de Caminha. Chamar-lhe-ia antes uma manifestação solidária e de sensibilidade para a minha permanência. Até porque as pessoas foram delicadas na forma como se agruparam, como se insurgiram, mostrando desta forma um carinho que agradeço com todo o meu coração. Manifestação essa que não me envaidece mas me enche de alegria por terem gostado da minha presença no meio deste povo a quem muito devo no meu crescimento como pessoa e como padre.

Nenhum padre opta por ser padre de olhos vendados. Há uma caminhada longa com um sentido de conhecimento profundo sobre o que impera na nossa vocação e, por conseguinte, conscientes da missão para a qual somos enviadoO que falta fazer para aproximar a Igreja do povo?

O que faz falta para aproximar a igreja do povo é a Igreja estar com o povo e vice-versa. Só desta forma pode haver comunhão e, logo, só desta forma pode haver Igreja.

Ainda há questões fraturantes, como o celibato dos padres. O que pensa sobre este tema?

No que diz respeito ao celibato... nenhum padre opta por ser padre de olhos vendados. Há uma caminhada longa com um sentido de conhecimento profundo sobre o que impera na nossa vocação e, por conseguinte, conscientes da missão para a qual somos enviados. Contudo, somos homens e certamente que também há em nós padres um sentimento paternal. Idealizamos muitas vezes como seria ser gerador de uma família, como seria educar um filho, acompanhar o seu crescimento e tudo o que implica a vida familiar. Contudo, repito, o discernimento da nossa vocação é consciente e não falacioso.

E sobre a abertura da Igreja às mulheres?

Relativamente à abertura da Igreja às mulheres, acredito que tudo tem o seu tempo e seu lugar na história e se somos cristãos acreditamos também na providência divina que opera em todos.

Quais os maiores desafios que a Igreja tem atualmente?

Os desafios que a igreja encontra atualmente são muitos. Mas o maior - e que penso que diz respeito a todos - é a perda de valores nas famílias e a falta de valorização da dignidade da vida humana. Hoje em dia, vive-se um desrespeito radical pela vida quer na questão do aborto quer da eutanásia.

A eutanásia não é apenas comodismo da sociedade, mas é uma falta de carácter da própria sociedade. Ninguém em nenhum momento da vida enquanto esta sorri deseja a morte. A eutanásia é fraqueza de quem nunca confiou em si e Deus e quem decide por outrem a sua morte é libertinagem de quem opina. A dignidade não está morte, mas na vida que nos define ao longo do tempo da nossa vida.

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