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Padre Frederico, massacre Militão e Mata-Sete. Lembra-se destes crimes?

Todos eles serão recordados na nova série documental da RTP - 'Depois do Crime'. O Notícias ao Minuto conversou com a jornalista Rita Marrafa de Carvalho sobre este novo projeto que estreia esta segunda-feira, 21 de setembro.

São vários os crimes que ficaram marcados na história por causa do seu impacto mediático. Contudo, com o passar do tempo, os seus autores, assim como os respetivos envolvidos, acabaram por cair no esquecimento. 

O que é feito deles?

É a esta pergunta que Rita Marrafa de Carvalho pretende responder com a nova série documental da RTP - 'Depois do Crime'. 

Estivemos à conversa com a jornalista que nos falou deste trabalho de investigação que não pretende ser uma reportagem, mas sim um relato fiel dos acontecimentos por parte dos seus intervenientes. É a exploração do conceito 'True Crime', muito presente em países como os Estados Unidos, França e Inglaterra, que agora a jornalista pretende trazer para Portugal. 

Qual é o objetivo da série?

O que nos interessava era saber o que aconteceu nos anos em que os casos foram esquecidos. Este distanciamento temporal e emocional interessava-me porque as pessoas que foram protagonistas na altura, por exemplo os inspetores da Judiciária, os familiares, os psicólogos ou psiquiatras que fizeram os perfis, os juízes que os condenaram nunca falaram por razões éticas

Porquê uma série e não uma reportagem?

A influência da presença do jornalista era algo que queria evitar para que não houvesse qualquer tipo de condicionamento e para que a pessoa se envolvesse na narrativa. Tratou-se de um trabalho arqueológico aos artigos da RTP - que são um legado incrível - de forma a que os jornalistas não fizessem ruído. 

Qual considera ser o interesse do público em temas como este?

As pessoas gostam de recordar imagens e querem saber mais. O ‘True Crime’ é uma coisa que mexe verdadeiramente connosco. O crime de sangue, a mente humana, a saúde mental, o que leva à depressão, são coisas que nos são muito caras e ainda temos algum pudor em falar delas. Achamos sempre que fazem parte da génese humana e não sabemos se estamos imunes a ficar loucos um dia. 

Como foi embarcar nesta investigação?

Foi muito interessante entrevistar pessoas mais de 20 anos depois. Temos, por exemplo, o médico legista que fez a autópsia do jovem de 15 anos encontrado morto no Caniçal, Madeira. Tenho imagens do depoimento dele em tribunal e temo-lo novamente, talvez com um olhar um bocadinho diferente. As pessoas acabam por contar pormenores que nunca revelaram na altura. 

Padre Frederico (1992)

Recorde. O Padre Frederico foi acusado de atirar de uma falésia Luís Miguel, um jovem de 15 anos, depois deste, alegadamente, se ter recusado a ter contacto físico e íntimo.

Sobre o caso do Padre Frederico, o que é que podemos esperar dos episódios?

O Padre Frederico foi um caso interessante porque foi um tribunal de júri e o primeiro julgamento a ser totalmente gravado. Temos momentos extraordinários de julgamento que nos permitiu reter um detalhe que hoje seria absolutamente inconstitucional e completamente anulado. O crime pelo qual ele é acusado é o de homicídio e a primeira pergunta que o juiz lhe faz é: ‘O senhor é homossexual?’. Isto parte para uma questão de preconceito que é muito difícil de apagar. 

Há algum pormenor peculiar que queira destacar sobre este crime?

A maior parte das pessoas com quem falo nem sabia que o padre Frederico era brasileiro. Não, ele é brasileiro e voltou para lá. [Quanto à pergunta] falei com o advogado dele da altura e há uma frase muito sintomática que ele disse: 'No fundo, o padre Frederico não fugiu, ele apenas não se apresentou após a precária'.

Caso Luís Miguel Militão (2001)

Recorde. Seis portugueses são assassinados em Fortaleza, Brasil, e enterrados debaixo de uma laje de cimento. Entre os agressores estava Luís Miguel Militão

E o que nos tem a dizer sobre o caso do 'Monstro da Fortaleza'?

O Militão é estratega. Tentou apagar o rasto e mal, porque é muito estúpido. Depois de ter o dinheiro que precisava deles, não os podia deixar vivos. Temos um arquivo extraordinário, porque ele falava que se desunhava e depois no Brasil filma-se tudo. Comprou uma fazenda e tentou ficar lá escondido com a família, mas foi apanhado. Entretanto, voltou a cometer crimes na prisão. Agora está a estudar na faculdade e a tirar um curso de pedagogia...

Caso do Mata-Sete (1987)

Recorde. Vítor Jorge deixa o país em choque depois de matar sete pessoas numa só noite, entre elas a mulher e uma filha.

Traz-nos também um caso, que embora antigo, marcou a história: o do Mata-Sete

O crime do Mata-Sete faz parte da cultura criminal, mas que pouca gente conhece. Talvez, por isso, seja o crime em que tenho menos material de arquivo, mas o que tenho é bom. É o português que mais pessoas matou na história da justiça e do crime em Portugal. Matou sete pessoas numa noite. No último episódio é a primeira vez que os familiares das vítimas falam. 

Com quem conseguiu falar nesse caso?

Entrevistamos o jornalista que fez a cobertura, o inspetor da Polícia Judiciária que foi o primeiro a chegar ao local para a descoberta dos corpos, dois familiares das vítimas, um vizinho da casa ao lado do Vítor Jorge, um juíz que o condenou e a psicóloga que lhe fez o perfil psicológico para o relatório. 

Poder-se-á considerar Vítor Jorge um 'serial killer'?

Um serial killer tenta sempre esconder o crime, mas ele não fez isso. Aquilo foi uma espécie de 'curto circuito'. A psicóloga diz uma coisa interessante que é: ‘ele matou para sobreviver. Era tão insuportável que se ele não matasse passava para a loucura', que é uma coisa que pensávamos que ele já estava...

Mas na época foi considerado imputável...

O relatório que é pedido para o Instituto de Medicina Legal, e neste caso foi uma equipa do Hospital de Leiria, considerou-o imputável, ou seja, ele estava consciente na altura dos crimes. Se o tivessem considerado inimputável, não teria ido. O advogado levanta a questão da inimputabilidade durante o julgamento e é aqui que ele pede à equipa do Eduardo Cortesão para fazer um segundo relatório. Esta equipa diz que ele é inimputável, é um perigo para a sociedade, não pode nunca mais sair… mas este relatório não conta.

Ainda mais quando o próprio assumia os crimes...

E é engraçado que ele em relação aos crimes dizia 'fui eu, mas não foi este Vítor Jorge que vocês têm à vossa frente'. Ele passou o julgamento todo a dizer 'o Vítor Jorge', na terceira pessoa. Aquilo é tão violento que ele precisa de se duplicar para não se responsabilizar. 

E se tivesse acontecido hoje?

E se estes crimes tivessem ocorrido agora, será que teriam o mesmo desfecho?

Sim, mas no caso do padre Frederico a investigação foi manifestamente mal feita, até porque estamos a falar de um crime em 1992 em que as condições e os meios eram fracos e pouco evoluídos. No caso do Militão se fosse julgado aqui em Portugal parece-me que seria a pena máxima. Já em relação ao Vítor Jorge não há grandes dúvidas porque há uma confissão.

A série estreia hoje, segunda-feira, às 21:00h na RTP e promete "trazer notícias" acerca dos três casos. 

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