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Ovar com pânico nas compras, alegria em casa e falta de informação na rua

Ovar vive hoje o seu primeiro dia de quarentena geográfica devido ao estado de calamidade pública resultante de 28 casos locais de infeção por Covid-19 e os ânimos dividem-se entre pânico nas compras, tranquilidade doméstica e carência informativa.

Ovar com pânico nas compras, alegria em casa e falta de informação na rua
Notícias ao Minuto

14:55 - 18/03/20 por Lusa

País Covid-19

Com 70 postos de controlo fronteiriço nos limites desse município do distrito de Aveiro com os concelhos contíguos de Espinho, Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis e Estarreja, as filas de carros sucedem-se e cerca de 90 agentes da GNR questionam os automobilistas sobre os motivos da sua deslocação.

António Pereira foi um dos que ficou chateado por ter visto barrada a sua saída e, por telefone, explica à Lusa: "O meu pai vive em Santa Maria da Feira, tem Alzheimer e está com acompanhamento domiciliário até às 16:00, mas depois dessa hora era eu que ficava com ele e a polícia não me deixa passar. Então isto do acompanhamento de familiares idosos não era uma das exceções?".

Na rua, António vê as vizinhas a fazer caminhadas, avisa-as que as instruções das autoridades são para que todos fiquem em casa e ouve de resposta que "isso era o que faltava". Daí a sua perspetiva irritada de que "as pessoas não sabem o que fazer, não têm informação suficiente e preocupam-se sobretudo é com os supermercados" - onde as filas são enormes "e está toda a gente assustada, em pânico, com medo de não ter o que comprar para se aguentar em casa tempo suficiente".

Fernanda Castro também está desiludida com a desorganização da quarentena" e explica: "Eu sou cozinheira num lar de idosos da Feira e achava que tinha direito a ir trabalhar, porque ser uma área relacionada com a Saúde e assistência a pessoas vulneráveis, mas não me deixaram passar".

A entidade patronal pediu-lhe que fosse à Junta de Freguesia de Esmoriz, em Ovar, solicitar "um documento que a autorizasse a passar", mas não surtiu efeito: "Claro que a Junta me disse que não tem poder para isso. O que é que eles sabem da minha vida? Entretanto os meus chefes ficaram de me enviar um email a dizer que funções exerço e que precisam de mim, mas a GNR já me avisou que isso tanto pode funcionar como não valer de nada".

Andreia Silva está mais serena e, embora fechada há alguns dias com mercearia suficiente na despensa, voltou a reforçar o abastecimento esta terça-feira, quando soube que a quarentena obrigatória e o controlo de fronteira iam ser implementados.

Está a dar aulas pela internet e explica que a decisão surgiu logo após a informação de que dezenas de funcionários da empresa Yazaki Saltano Ovar estavam em quarentena: "Como temos muitos alunos que trabalham lá, decidimos logo passar as aulas para este formato e, tirando algumas dificuldades na segunda-feira durante o pico de utilização da plataforma [de ensino à distância utilizada], tem tudo corrido muito bem, em direto".

Se a professora opta por lecionar a partir do escritório do marido, a poucos metros de casa, para não ser interrompida pelo filho de quatro anos, o mesmo não acontece com os seus alunos. "Deste lado, estou eu sozinha, mas, do lado de lá, eles estão com os filhos à volta e às vezes chega a ser engraçado".

Nem todos os docentes que trabalham com Andreia optaram pelo mesmo registo de ensino remoto porque "não se sentem tão familiarizados com a plataforma online", mas, para ela, a situação tem sido "tranquila" e não se adivinham atritos familiares motivados por excesso de convivência domiciliária.

"Até tem sido uma alegria. O meu filho está todo contente por ter os pais em casa com ele o dia inteiro e todas as noites diz que gosta muito de nós, só por estar a passar tanto tempo connosco", confessa, divertida.

O que mais a preocupa nesta situação toda é que a quarentena imposta pelo Governo não esteja a ser cumpria por todos, já que a declaração de calamidade pública impõe o encerramento de toda a atividade económica que não seja considerada de primeira necessidade "e há muitas fábricas no concelho que hoje ainda estão a trabalhar", presumivelmente com muita gente lá dentro "a prejudicar-se".

Ana Oliveira mostra-se apreensiva por razões semelhantes. Vive em Avanca, no concelho de Estarreja e já na sexta-feira fechou o seu centro de estudos em Válega, Ovar, "para não sujeitar as crianças a riscos" e também não atentar contra si própria, enquanto doente crónica com Diabetes de tipo 1 e, portanto, mais vulnerável ao novo coronavírus.

"Eu tomei todas as cautelas, mas ainda hoje vi montes de gente de Válega a vir tomar café aqui a Avanca [em Estarreja] como se nada fosse, o que quer dizer que o controlo na fronteira não está a funcionar", afirma. "Estão na esplanada com máscaras e luvas, ok, mas continuam a circular de um lado para o outro muito descontraídas", acrescenta.

Também por telefone ao início da tarde, o irmão dessa educadora contribui com mais um detalhe para o retrato: "Ainda agora vi o presidente da Junta de Freguesia de Válega a passar de trator aqui em Avanca, que já é concelho de Estarreja".

Quanto à sua situação como empresária, Ana começa por avisar que a sua opinião "não é simpática" e depois declara: "Vivo fora de Ovar, mas tenho lá o meu negócio e o facto é que ainda não fui contactada por absolutamente ninguém para ser informada das medidas a tomar. Acho que o presidente da câmara se tem esquecido um bocado dos pequenos empresários que não votam no concelho dele".

Pedro Cunha, que vive em Souto, na Feira, e tem em Ovar uma oficina automóvel, também vê a sua situação empresarial mal parada: "Estou preocupado porque, de sexta-feira até ontem, terça-feira, notou-se uma quebra muito grande a nível de pessoas a entrarem na oficina, a fazerem os pagamentos à linha de crédito que lá temos, etc.".

Otimismo, sem cedências, é apenas o de Célia Gomes, que hoje apreciava as operações policiais na fronteira entre Rio Meão, na Feira, e Esmoriz, no concelho sob quarentena. Os guardas não a deixaram seguir viagem para a fábrica de confeção têxtil onde trabalha e a costureira já avisou o patrão que até dia 04 estará retida em casa.

Receios quanto ao seu posto laboral, no entanto, não tem: "Não é por 15 dias que nós vamos correr o risco de perder o emprego. E eu acho que isto vai ficar resolvido em 15 dias".

O número de infetados pelo novo coronavírus subiu para 642, mais 194 do que os contabilizados na terça-feira, anunciou hoje a Direção-Geral da Saúde (DGS).

Segundo o presidente da Câmara de Ovar, Salvador Malheiro, no concelho foram registados 35 infetados até terça-feira.

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