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Guerra colonial alterou profundamente as relações entre homens e mulheres

A guerra colonial alterou profundamente as relações entre homens e mulheres, do ponto de vista social e sexual, na conservadora sociedade portuguesa dos anos 60, afirmou a investigadora Margarida Calafate Ribeiro, em entrevista à agência Lusa.

Guerra colonial alterou profundamente as relações entre homens e mulheres
Notícias ao Minuto

14:23 - 08/03/20 por Lusa

País Guerra colonial

"As guerras são momentos de grande emancipação das mulheres, no sentido em que os homens saem da vida normal e os trabalhos passam a ser assegurados por mulheres", disse Margarida Calafate, lembrando os movimentos pelo voto feminino nos pós-guerra e pela igualdade laboral, após a Segunda Guerra Mundial.

Com a guerra colonial portuguesa não foi diferente. Com a saída dos médicos para o Ultramar, por exemplo, as mulheres que exerciam medicina passaram a entrar nos quadros dos hospitais, até aí reservados aos homens: "Mesmo que fossem mais velhos, como eram médicos, tinham de ir".

Os homens acabam por "libertar uma série de espaços". Mas, quando regressam, o reajustamento não é fácil. "É muito complexo, porque não é só privado, é também no espaço público, nomeadamente no espaço profissional", reconheceu a autora do livro "África no Feminino - As Mulheres Portuguesas e a Guerra Colonial" e "Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e pós-Colonialismo", que falava à Lusa por telefone a partir de Roma.

"Eles chegam numa situação em que o país está em revolução, em que ninguém queria falar da guerra, em que ninguém queria sequer saber que a guerra tinha existido. Há um silêncio de décadas em que esses homens são deixados que é muito complexo e que é muito aguentado pelo lado feminino", indicou.

"As mulheres de classe média divorciam-se, mas "a grande massa" continua a não o fazer, recordou a investigadora, traçando um paralelismo com a guerra do Vietname, em que a quantidade de divórcios foi "colossal".    

A guerra abalou igualmente as convenções do regime e os cânones da época sobre o relacionamento entre os dois sexos.

"Apesar dos muitos muros da ditadura as coisas passam, não é? E são anos de libertação a esse nível", acrescentou Margarida Calafate, evidenciando que a virgindade era "uma coisa ainda a preservar".

"Alteram-se profundamente as relações sexuais. Aparece uma série de gravidezes (risos), precisamente porque havia despedidas mais complicadas e oferecer a virgindade seria uma forma de selar a relação amorosa quando ele partia", contou a autora, que entrevistou várias mulheres para o trabalho de campo que deu origem ao livro "África no Feminino".

As "gravidezes precoces" acabam por alterar a moral da época, a forma como as pessoas se comportavam. Mas, segundo a investigadora, há também mudanças que resultam da vivência em África.

"Há mudanças do ponto de vista das relações homem-mulher das relações sexuais em geral, homem-homem, etc, num caminho que está por estudar, mas há mudanças grandes, sim", atestou.

Para Margarida Calafate Ribeiro, a história da guerra colonial é uma história complexa de se contar porque tem uma dimensão privada muito forte e foi, de alguma forma, "decisão da memória coletiva que assim continuasse, privada!".

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