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Prateleiras vazias nas Flores. "Somos tratados como cidadãos de 2ª"

Revoltados com a falta de abastecimento de mercadorias na ilha açoriana, os habitantes das Flores contam ao Notícias ao Minuto as dificuldades e angústia que vivem desde a passagem do furacão Lorenzo. Bloco, PCP e PSD também vieram a público alertar para a situação e após estas pressões, o Governo Regional disse estar a avaliar o recurso às Forças Armadas.

lamentável que se chegue a esta situação". Os habitantes da ilha das Flores, nos Açores, estão revoltados. Desde que o furacão Lorenzo passou no arquipélago, em outubro de 2019, que esta ilha e a do Corvo têm vivido em permanente sobressalto com o escasso abastecimento de mercadorias.

O Porto das Lajes - o único onde atracam os barcos de mercadorias que fornecem com bens alimentares estas duas ilhas, que constituem o Grupo Ocidental do arquipélago - , ficou destruído durante a passagem do furacão e, desde aí, que o abastecimento de produtos tem sido um desafio.

Depois de um intenso trabalho efetuado com a ajuda da Forças Armadas e de locais, o Governo Regional conseguiu que o porto ficasse apto a receber alguns barcos. Contudo, até agora, só atracaram navios que levam seis vezes menos carga do que os navios que o faziam antes da destruição do porto.

A estes problemas deixados pelo Lorenzo, junta-se o mau tempo e a agitação marítima que muitas vezes impede que os barcos atraquem na ilha das Flores.

"Não encontro uma alface há um mês. Há escassez de iogurtes e, em alguns sítios, nem congelados há"Se o caso já era grave, no último mês piorou. Desde o dia 13 de dezembro que não chega nenhuma embarcação de mercadorias ao Porto das Lajes. Os habitantes e comerciantes estão preocupados, não só com a falta de alimentos, mas também com o impacto negativo que a falta de abastecimento de produtos possa ter na ilha.

Nos últimos dias, várias pessoas partilharam vídeos e fotografias (que pode ver na galeria acima), nas redes sociais, das prateleiras vazias de vários estabelecimentos comerciais da ilha das Flores.

Ao Notícias ao Minuto, Manuela Rabaçal Ponte, uma professora de Bragança a dar aulas na ilha das Flores, e autora de um dos vídeos, confessa estar revoltada com a falta de ação por parte das entidades competentes.

“É lamentável que se chegue a esta situação. Sinto que somos tratados como cidadãos de segunda. Mas os nossos impostos são pagos de igual forma. Não somos mais nem menos que os outros. Somos pessoas que trabalham, que têm família, que dão vida aos lugares. Já há escassez de coisas básicas, nomeadamente de frescos, de iogurtes... Não encontro uma alface há um mês. Há escassez de iogurtes e, em alguns sítios, nem congelados há”, explica.

Tal como Manuela, os habitantes locais estão revoltados e acusam o Governo Regional de não arranjar soluções, depois de ter prometido que o abastecimento à ilha ia ser reforçado.

O meu objetivo [com o vídeo] não foi, nem é atingir os comerciantes locais. Serviu apenas para alertar e provar que afinal não está tudo bem... Pois é isso que se vê nos ecrãs. Mas só quem vive nestes locais conhece a realidade do que verdadeiramente se passa. E tem de haver opções válidas”, frisa a docente.

Mas as consequências do problema do abastecimento vão muito além da falta de alimentos. Começa a ser difícil para as pequenas superfícies comerciais aguentar os funcionários e manterem-se de portas abertas. Não há faturação e há bens perecíveis retidos noutros portos que, quando chegarem às ilhas das Flores e do Corvo, muito provavelmente, já não podem ser consumidos, ou seja, acartam apenas mais prejuízos para quem já está a ter despesa, tal como conta Alexandra Carneiro, da superfície comercial João Germano de Deus & Filho, Lda, ao Notícias ao Minuto.

Falta muita mercadoria, imensa! Há quatro semanas que não há abastecimento marítimo à ilha das Flores, ou seja, cerca de 120 a 180 contentores que não foram entregues às Flores (valores médios de abastecimento em condições normais). E, além do prejuízo da privação das vendas por falta de mercadoria, esta chega muitas vezes em condições de não ser vendida. Acrescento ainda o aumento já verificado dos custos de transportes já anunciados pelos transitários”, explica a empresária.

Saliente-se que em dezembro, o Governo Regional anunciou que a embarcação MALENA, com cerca de 87 metros de comprimento e capacidade para transportar até 100 contentores de 20 pés, dos quais 28 frios, ia reforçar o abastecimento às Flores a partir de janeiro.

De acordo com as informações transmitidas “oficiosamente” aos comerciantes, a primeira viagem deste navio está prevista para segunda-feira, dia 13 de janeiro. Só que, este, de acordo com as informações transmitidas a Alexandra Carneiro, não irá apanhar as mercadorias paradas há quatro semanas na ilha Terceira e Faial. Estas apenas serão transportadas até às Flores através de dois barcos mais pequenos - TMG e Empresa de Barcos do Pico – que não conseguem atracar na ilha das Flores desde o dia 13 de dezembro, devido às condições do mar.

Há quatro semanas que esperamos que o tempo permita. O MALENA, sendo uma embarcação maior e com mais capacidade para enfrentar a ondulação, deveria fazer a recolha da carga pendente nestas ilhas (Terceira e Faial), uma vez que se trata de perecíveis a aguardar viagem há quatro semanas!”, alerta a comerciante.

Alexandra Germano esclarece, porém, que a solução encontrada pelo Governo Regional, de fretar o navio MALENA, “é uma solução viável, esperando que corra tudo bem com a operação”. Mas “não se compreende” que durante este período não tenha existido qualquer abastecimento e que as entidades competentes não se tenham preocupado em arranjar alternativas, insiste.

Penso que a solução por via aérea poderia ter sido equacionada pelas entidades competentes para este período. Entende-se que as condições do mar poderão não ter permitido mas, tratando-se das épocas de Natal e de fim de ano, algo poderia ter sido diligenciado”, atira.

Recorde-se que a passagem do furacão Lorenzo pelos Açores, em outubro do ano passado, provocou prejuízos de cerca de 330 milhões de euros. Só no Porto das Lajes, o prejuízo é de 190 milhões de euros. E na sequências das 255 ocorrências, 53 pessoas tiveram de ser realojadas.

Partidos 'juntam-se' à população e Governo Regional avalia recurso às Forças Armadas

PSD e o PCP dos Açores alertaram esta terça-feira para a falta de mercadorias e bens essenciais nas Flores, três meses após o furacão Lorenzo ter destruído o Porto das Lajes. Em comunicados de imprensa, ambos os partidos relataram cenários de escassez nos estabelecimentos comerciais, lembrando que o último abastecimento à ilha foi realizado a 13 de dezembro.

Os sociais-democratas pedem a intervenção da Força Aérea para colmatar a "falta de bens essenciais". "Estando a ilha das Flores sem abastecimento por via marítima há 24 dias e atendendo às limitações do transporte de carga nos aviões da SATA, só o recurso à Força Aérea pode ajudar a resolver este problema", afirma o deputado do PSD Bruno Belo, citado em comunicado do partido.

Cenário idêntico é relatado pelo PCP, que aponta que o abastecimento de "bens e mercadorias à ilha das Flores encontra-se num estado lamentável", que coloca em causa a sobrevivência das empresas florentinas.

"Os comerciantes e empresários florentinos lutam pela sobrevivência das suas empresas, uma luta que se torna deveras complicada devido à insuficiência de produtos. Neste período, o abastecimento de bens e mercadorias à ilha das Flores foi claramente insuficiente", afirma o deputado único do partido na assembleia açoriana, João Paulo Corvelo.

Antes, ao início da tarde desta terça-feira, já o Bloco de Esquerda, numa nota enviada pela estrutura regional do partido às redações, considerava que devia "ser equacionado o abastecimento urgente por via aérea de bens alimentares e de primeira necessidade, enquanto o navio Malena não iniciar a sua atividade", alertando para a "falta de produtos nos estabelecimentos comerciais".

Governo avalia "todas as alternativas"

Face à pressão de partidos e populações, o Governo dos Açores declarou estar a "avaliar todas as alternativas de transporte possível" de bens e mercadorias à ilha das Flores, com perturbações após o furacão Lorenzo, admitindo o recurso às Forças Armadas.

Em nota enviada à imprensa pelo gabinete da secretária com a tutela dos Transportes e Obras Públicas, Ana Cunha, é referido que já houve contactos com o Comando Operacional dos Açores (COA), que coordena os três ramos das Forças Armadas, "e que está a identificar os recursos que poderá afetar a um abastecimento extraordinário".

O Governo dos Açores, precisou o gabinete de Ana Cunha, está a fazer um levantamento de quais são os bens necessários para assegurar a normalidade na ilha das Flores e também na ilha vizinha do grupo ocidental da região, o Corvo.

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