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Há uma prenda que o Pai Natal gostava de oferecer mas (ainda) não pode

Se há alguém popular nesta época do ano é o Pai Natal. Todos são especiais, mas Severino Moreira é, provavelmente, o mais carismático do país. As longas barbas brancas são verdadeiras, assim como o seu sorriso. Há 19 anos que em dezembro (durante horas a fio) enche de magia o coração de centenas de crianças! Mas este ano, Severino Moreira quer deixar no sapatinho de todos uma importante mensagem sobre a prenda que mais queria oferecer, e que tarda em chegar: a cura para o autismo.

Há uma prenda que o Pai Natal gostava de oferecer mas (ainda) não pode

Dizem que é o Pai Natal mais antigo do país e, talvez, por isso também o mais famoso. Só no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, é presença habitual há 19 anos consecutivos. Hoje já conhece filhos de meninos que, em tempos, estiveram sentados no seu colo a fazer os pedidos para o Natal. É fácil perceber o porquê da sua reputação. Severino Moreira é (mesmo) o verdadeiro Pai Natal de barbas brancas, meigos olhos azuis, sorriso fácil, e um coração cheio de simbólicas prendinhas.

Mas desengane-se quem pensa que o Pai Natal só se prepara em dezembro. Para desempenhar a personagem de forma genuína é preciso tempo e cuidados durante boa parte do ano. “Ando meses a preparar-me para o Pai Natal. Sacrifico-me, mas se não faço isso com tempo também não assumo esta credibilidade”. E é com prazer que o faz. Se a intenção é alimentar o sonho e a magia das crianças – não fossem elas quem mais vibra com esta altura do ano – não se pode descurar nenhum pormenor. A partir de maio, Severino começa a deixar crescer a encantadora barba branca, mesmo que o seu aspeto físico seja considerado por alguns um pouco descuidado.

Aos 70 anos, Severino conta que tudo começou quando a família o convidou para ser o Pai Natal lá de casa. “Sempre usei barba e fui-me afeiçoando à ideia. Comecei a encontrar nesta personagem qualquer coisa que me realiza muito. Vivo momentos muito intensos, de muito calor humano com as crianças. É um caldo de emoções e, como tenho lágrima fácil, emociono-me muitas vezes”.

Gosto de me preparar com tempo, venho sempre hora/hora e meia antes – estou aqui nove/dez horas – e os dias em que estou menos aqui certamente não estarei a descansar. Estou sempre muito ocupadoFoi no início de um desses agitados dias de Pai Natal que o Notícias ao Minuto esteve à conversa com Severino. Não é preciso acreditar para ficarmos radiantes com a sua presença. Do fato ao sino que anuncia a sua chegada, à barba verdadeira – que muitas crianças puxam para se certificarem de que estão mesmo perante o Pai Natal – tudo é carinhosamente cuidado para alimentar o sonho dos mais pequenos. Afinal, são eles a razão de viver de Severino, são eles quem lhe dá alegria e até algumas lições de vida.

Sentado na sua poltrona fala de si, da sua vida em Angola, do seu trabalho de anos como bancário e da altura em que se dedicou – provavelmente sem saber – a uma causa maior. O mês de dezembro é uma azáfama até à noite do dia 24, em que depois de escutar os pedidos de muitas crianças, ainda vai distribuir prendas pelo seu bairro, e, claro, quando chega a sua casa também é a estrela.

Tornei-me também o Pai Natal do bairro e comecei a ter de 'roubar' tempo da minha consoada. Saio mais cedo para ir entregar as prendas no bairro. [O dia 24 é] um verdadeiro dia de Pai Natal e uma experiência riquíssima porque as crianças recebem as prendas em casa!“É muito intenso ser Pai Natal”, desabafa Severino, confessando que quando acaba esta performance está “doente de cansaço mas com o coração cheio”. E se fazer o Pai Natal foi qualquer coisa que a vida lhe “deu de muito boa”, no dia em que tiver de deixar de o fazer “vai ser muito triste”. Severino teme esse dia, mas há um que, há muitos anos, anseia que chegue…

O livro é como que uma homenagem ao Pedro. Se um dia ele pudesse ler, era tão bom… era tão bom no sentido de ele um dia saber que o avô falava disso e ansiava pela cura. Era fantástico!

O amor maior do avô Severino chama-se Pedro, o "menino-luz" que é autista

A vida do Pai Natal Severino tem raízes em Angola. A mãe teve-o com 15 anos e é o mais velho de nove irmãos. Fez teatro amador quando era jovem, e rádio também, um bichinho com que ficou até aos dias de hoje. Bancário de profissão (e quase por obrigação) durante mais de 30 anos, reformou-se “cedo, aos 51 anos”, já depois de ter rumado a Portugal. Mas nunca aceitou “a ideia de ficar com os chinelos em casa a ver televisão”. Foi então que decidiu inscrever-se em agências de talentos. E trabalho nunca faltou. Recorda com carinho, por exemplo, que foi o primeiro Capitão Iglo em Portugal, na altura já por causa das suas barbas brancas. O convite para ser Pai Natal chegou pouco tempo depois.

Curiosamente, aos 56 anos, e a poucos dias do Natal, foi avô pela primeira vez. O primeiro neto, Pedro, chegou ao mundo a 22 de dezembro de 2004. Foi uma “alegria avassaladora”, diz emocionado Severino, que, precisamente por estar “assoberbado em trabalho” a fazer de Pai Natal, só conheceu o neto no dia 25 de dezembro.

Imagina o que foi aquele Natal... chegou o meu menino Jesus, vivi as delícias de ser avô pela primeira vez. Durante quatro anos vivi alegrias imensas com ele. Era uma criança normal, divertida, com uma memória prodigiosa, com um vocabulário fantástico Mas quatro anos depois, tudo mudou. Foi diagnosticado autismo ao pequeno Pedro. “Deixou de falar, fechou-se. Era [até então] uma criança normal, divertida, com uma memória prodigiosa, com um vocabulário fantástico, falava fluentemente e muito”, quando, recorda Severino com tristeza, “tudo se alterou e ele deixa de falar. Não me digam que é fácil...”. Desde então, “leio tudo o que me aparece sobre o autismo, procurando caminhos, é como quem está num labirinto e procura sair. Claro que continuo a ter esperança, a achar que pode aparecer aí qualquer coisa um dia...”.

Não é que hoje não seja feliz com o Pedro, sou muito feliz, ele deu-me uma dimensão humana inultrapassável, adoro o Pedro e o nosso modo comunicarmos. Falamos muito um com o outro, quando ele me vê sorri, acho que ele gosta muito de mim. Comunicamos de outro modo, mas sinto que o Pedro também é feliz no seu mundo

O Pedrinho, como carinhosamente fala dele, deixou de chegar do infantário e pedir ao avô para pôr a dar a sua música, perdeu o “raciocínio escorreito” que tinha, “a nossa comunicação faz-se através das emoções”. Mas Severino não desistiu e, como multifacetado que é, dedicou-se a escrever reflexões em forma de poemas-carta numa página no Facebook, que com o tempo se viu ‘obrigado’ a abrir a todos, tantas eram as solicitações para partilhar a sua experiência.

Durante “dias de persistência, meses de acreditar, [e] anos de renovadas esperanças”, o avô Severino escreveu ao Pedro, o seu “menino-luz”, na esperança de que um dia o neto possa ler. E este ano, após uma ponderada reflexão em família e uma difícil seleção de cerca de 100 poemas, Severino decidiu partilhar em livro a sua “frustração” e “angústia”, mas também o “afeto”, que sente pela condição do seu neto, o Pedrinho, aquele que lhe deu o estatuto de avô. É importante “quebrar barreiras” e Severino sente que com o livro ‘Poemas-carta a um menino-luz’, atingiu esse objetivo.

Diziam-me que podia ser útil a quem tem o mesmo problema. E hoje tenho a prova cabal disso. As pessoas evitam falar do autismo, não sabem como lidar com a situação e não falam, mas não falar torna tudo muito mais difícil. E o meu livro faz precisamente o inverso. Senti-me livre

É essencial, na opinião de Severino, que “as famílias que integram crianças autistas se sintam acompanhadas e estimuladas para este exigentíssimo desafio”. Aliás, ao longo do livro, que é também uma “homenagem” ao neto, é precisamente o que se sente. Um constante desabafo de estados de alma que variam entre a manifestação de “um amor maior”, a “revolta” e a dor, e a procura incessante por respostas, por ajuda, pela… cura.

Mas mesmo sem saber, o pequeno Pedro – que hoje já é um rapaz de 15 anos - deu ainda mais força e coragem ao Pai Natal Severino. “Passam por aqui [na Lapónia do Centro Comercial Colombo] milhares de crianças e entre essas muitas deficientes. Eu não tinha ainda sensibilidade para o problema? Claro que tinha, mas depois de aparecer o Pedro, compreendo melhor os pais e sinto-me muito mais seguro e motivado”

E o Pai Natal que prenda gostaria de receber? “A que gostava, [a cura], não tenho…, mas alimento a esperança e até lá hei-de fazer tudo o que possa para o Pedro ser feliz. E acho que ele é feliz...”.

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