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Dia da Pessoa com Deficiência. "Odiava Epá porque não conseguia comer"

No Dia Nacional da Pessoa com Deficiência o Notícias ao Minuto foi conhecer duas histórias de superação.

Dia da Pessoa com Deficiência. "Odiava Epá porque não conseguia comer"
Notícias ao Minuto

14:25 - 09/12/19 por Natacha Nunes Costa 

País Dia Nacional da Pessoa com Deficiência

Superação. É uma das palavras mais importantes do dicionário de quem passa por dificuldades. Sejam elas físicas, mentais, emocionais, sociais ou até materiais. Para a atingir, é necessário que vários fatores se aliem, passar por muitas páginas, percorrer muitas palavras, parar por vezes com o dedo sobre um vocábulo e só depois avançar. É necessário amor, amizade, atenção, solidariedade. Mas acima de tudo, força de vontade.

No Dia Nacional da Pessoa com Deficiência, que se assinala esta segunda-feira, dia 9 de dezembro, conversámos com duas pessoas que conseguem todos os dias superar os problemas que a deficiência traz. A força de vontade de Carlos e Catarina é notável. E a lição de vida que nos dão também.

"Odiava o gelado Epá porque não o conseguia comer"

Vamos começar pelo Carlos. Descreve-se como “pai e marido a tempo inteiro”, com um trabalho onde confessa querer ficar até se reformar. No atendimento ao público, no Ponto de Informação e Turístico, no El Corte Inglés, em Lisboa, garante que foi bem aceite desde o primeiro dia, não só pela sua equipa, como por todos os colaboradores da empresa. Mas nem sempre foi assim.

Aos 11 meses de idade perdeu o braço direito, num acidente que quase lhe tirou a vida. Já sabia andar e já era reguila, vivia com os pais, numa residência localizada a poucos metros de uma linha de comboio, sendo que abriu três portas sozinho e foi até lá. O que o salvou foi a rápida reação do maquinista, que conseguiu evitar o pior. Até hoje, Carlos não se esquece do homem que o poupou à morte certa.

“Se não fosse o maquinista, hoje não estaria aqui. Gostava de um dia saber quem ele é e de poder agradecer-lhe”, assegura.

Ao longo da vida, até chegar aos seus felizes 41 anos, passou por muitas dificuldades. Deu a volta por cima porque é “teimoso” e não desiste “de quebrar barreiras ou superar obstáculos como ‘mentes fechadas’”, mas os apoios nem sempre chegaram.

“Apoios foram muito poucos e estive mais de 20 anos sem qualquer ajuda do Estado. A nível profissional ia saltando de trabalho em trabalho quando me era dada a oportunidade de trabalhar”, conta.

Apesar de hoje estar feliz com o cargo que ocupa no atendimento ao público, Carlos lamenta nunca ter tido oportunidade de trabalhar na área que sempre sonhou que é produzir desenhos animados, “pois o mercado nessa área é muito pequeno ou quase inexistente”.

Contudo, não desiste, faz desta área um hobbie, que leva muito a sério, como pode ver no vídeo abaixo.

Apesar de ter este sonho por cumprir, Carlos conseguiu, há cerca de um ano e quatro meses, realizar um dos seus maiores desejos: Ter uma mão biónica.

“Recebi a minha mão biónica há um ano e quatro meses e posso dizer que foi um processo muito complicado. Esta mão já existe no mercado há 15 anos, lutei por ela durante 13, mas faltava sempre algum papel. Os ortopedistas também não acreditavam que a mão funcionasse comigo pois diziam que tinha o coto demasiado curto. A Magumbo Ortopedia foi a única que acreditou e estava certa. Correu tudo bem”, explica.

A mão biónica trouxe muitas vantagens à vida de Carlos. Tantas que nem as consegue enumerar. “Não dá para enumerar as vantagens e a mudança que foi para a minha vida. Nunca pensei poder fazer coisas tão simples como simular que toco guitarra com o cabo de uma vassoura ou comer um gelado Epá. Odiava esse gelado quando era pequeno porque não o conseguia comer, mas agora com a mão, já me vinguei”, brinca.

Já sobre o seu maior porto de abrigo, Carlos revela que a mulher foi a pessoa mais importante em todo este processo e em motivá-lo perante as adversidades de ter uma deficiência.

“Tive a sorte de conhecer uma mulher maravilhosa que me tem apoiado em tudo e com quem tenho uma relação muito bonita e feliz”, relata, grato, revelando que foi ela a principal motivadora para encontrar o trabalho que hoje tem, com a ajuda, sublinha, da Operação de Emprego para Pessoas com Deficiência (OED) e Fundação LIGA.

"As técnicas da Fundação Liga estão de parabéns pela força que me deram, em especial a Dra. Cláudia Varela. Ajudou-me a conseguir a mão biónica com a ajuda do Estado e a ter a oportunidade de trabalhar no El Corte Inglés, no atendimento ao público."

"O mercado de trabalho não está preparado para uma pessoa com deficiência"

Notícias ao MinutoCatarina Gouveia © El Corte Inglés

Já Catarina, de 31 anos, nasceu com uma deficiência nas duas mãos. Apesar das dificuldades que tem sentido ao logo da vida, essencialmente, na sua integração na sociedade e realização profissional, no dicionário desta jovem licenciada em Publicidade e Marketing a palavra desistir não existe.

“A sociedade já evoluiu na forma como trata e vê as pessoas com deficiência, mas ainda existe um caminho grande a percorrer. Todos temos limitações, mas a forma como lidamos com elas é que dita quem somos e como queremos que os outros nos vejam”, sublinha.

Apesar de ter um curso, o seu percurso profissional, até chegar ao El Corte Inglés, onde hoje está no atendimento ao público há cerca de um ano, foi “longo e com algumas dificuldades”.

“Quando terminei a licenciatura foi muito difícil conseguir integrar-me no mercado de trabalho. As primeiras entrevistas de emprego mostraram-me uma realidade, até ao momento desconhecida: O mercado de trabalho não estar preparado para uma pessoa com deficiência. Eu enviava o meu currículo, era selecionada para a entrevista e quando chegava ao local o entrevistador perdia o interesse em entrevistar-me. Cheguei a ter uma entrevista de três minutos”, conta.

Depois de vários currículos enviados e entrevistas falhadas, Catarina inscreveu-se na associação OED e, a partir desse momento, o seu percurso profissional começou a construir-se.

Fez um estágio na sua área de formação, que se prolongou para um contrato de trabalho. Passou por outras empresas, sempre na área do marketing e comunicação, onde afirma ter sido sempre muito bem recebida e ter sido tratada de forma igual sem nenhum tipo de discriminação.

“Da minha experiência posso dizer que os colaboradores das empresas, na maioria das vezes, vêem com apreço a contratação de pessoas com deficiência. Muitas vezes acaba por ser algo que cria motivação”, esclarece.

Apesar de estar feliz no novo trabalho, onde tem um feedback muito positivo, o seu principal desejo para o próximo ano passa pela sua evolução profissional. “O contacto direto com o público despertou em mim uma vontade de fazer algo mais. A nível pessoal, é ser ainda mais feliz!”, revela.

Entidade Empregadora Inclusiva

Carlos e Catarina são apenas dois dos 60 funcionários com algum tipo de deficiência integrados no quadro de pessoal do El Corte Inglés. Hoje a cadeia de lojas espanhola recebe, pela segunda vez consecutiva, o selo da Entidade Empregadora Inclusiva, algo que tem contribuído para as relações sociais de todos os colaboradores mas também tem trazido benefícios para o negócio.

“Consideramos que sermos inclusivos faz parte do nosso ADN. A integração de pessoas com deficiência e incapacidade nas nossas equipas de trabalho e a oportunidade de vivências num ambiente inclusivo, tem levado ao desenvolvimento das competências pessoais e profissionais de todos os envolvidos e contribuído para melhorar as relações sociais, a iniciativa, a criatividade e o compromisso entre os nossos colaboradores”, declara Susana Silva, diretora de Pessoas do El Corte Inglés Susana Silva.

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