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Arqueólogos "descobrem" ética de solidariedade na resistência ao nazismo

Os arqueólogos que investigam os acampamentos e hospitais da resistência à ocupação nazi na Croácia durante a Segunda Guerra Mundial defendem a existência de uma ética de solidariedade ausente da atual realidade europeia.

Arqueólogos "descobrem" ética de solidariedade na resistência ao nazismo
Notícias ao Minuto

10:35 - 19/10/19 por Lusa

País Arqueólogos

"A ética de hospitalidade parecia ser uma constante na Europa porque apesar das circunstâncias extremas existia possibilidade para o acolhimento e, se isso acontecia em fases da nossa história recente, em que as pessoas passavam tantas dificuldades, por que não há de acontecer agora? Numa altura em que somos o continente com a maior concentração de riqueza do mundo? ", interroga o arqueólogo Rui Gomes Coelho.

Para o investigador do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, atualmente na Brown University, Estados Unidos, os acontecimentos recentes, como é o caso da resistência nos Balcãs, e circunstâncias da atualidade, tendo em conta a crise dos refugiados que atinge a Europa, constituem um "paradoxo" que deve ser estudado.

Nesse sentido, decorre nesta altura a investigação arqueológica sobre os acampamentos e hospitais relacionados com a resistência à ocupação alemã e italiana durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como é o caso do Hospital n.º 7 do monte Javornica (Croácia).

Na área encontram-se uma gruta-hospital, um esconderijo atrás de uma casa e um acampamento ao ar livre usados pelos 'partisans' durante a ocupação.

"Já encontrámos material militar, vestígios de uniformes, restos de máscaras antigás e no caso do hospital, material médico. Ajuda-nos a entender coisas que ainda não estavam estudadas. Sabemos como se processa o abastecimento militar (armas e munições), mas o que fica por trás é mais misterioso, como é o acesso aos medicamentos e estabelecimento de redes de entreajuda, indica acrescentando os aspetos relacionados com o envolvimento das populações civis", afirma.

"As pessoas ainda estão ligadas à memória dos acontecimentos. A aldeia de Dreznica foi destruída sete vezes e sete vezes foi reconstruída. Há uma ideia essencial nas guerras de insurgência: não há maneira da resistência ser vitoriosa se não tiver o apoio orgânico da população", frisa.

Rui Gomes Coelho explica que a "Arqueologia da Hospitalidade" unifica o projeto em curso e confere-lhe sentido presente porque, sublinha, apesar das circunstâncias da época - a Guerra Civil de Espanha ou a Segunda Guerra Mundial - existiu sempre espaço para o desenvolvimento de redes com uma ética de solidariedade que ia além dos próprios constrangimentos materiais.

"Nós documentamos isso arqueologicamente", refere.

O trabalho que decorre na Croácia vai ser posteriormente publicado numa revista de arqueologia, sendo possível a edição de uma monografia sobre o assunto a desenvolver com académicos croatas.

Os arqueólogos envolvidos nesta investigação pretendem igualmente desenvolver um programa pedagógico que dê visibilidade "com relevância no contexto presente" tendo em conta a situação dos refugiados e as "derivas autoritárias atualmente em curso a Europa".

"São histórias e narrativas que devem ter visibilidade. A partir daqui podem ser criados vários programas para escolas", disse.

"Pensamos que na crise humanitária atual, em que o Mediterrâneo é uma das fronteiras mais mortíferas do mundo, é importante olharmos para as histórias europeias que mostram que é possível acolher, cuidar e trabalhar em conjunto para uma vida melhor. A nossa equipa de arqueologia anda atrás desses exemplos que contrariam a 'Europa-fortaleza' de hoje", afirma Rui Gomes Coelho.

Nos exemplos que se referem a Portugal, Rui Gomes Coelho destaca a investigação em Cambedo, Trás-os-Montes, que serviu de retaguarda aos guerrilheiros republicanos depois da vitória nacionalista na Guerra Civil Espanhola.

A aldeia foi bombardeada pelo Exército Português em 1946.

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