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Presbíteros casados defendem que "nunca se deixa de ser sacerdote"

A Fraternitas é uma associação de presbíteros casados que nunca deixaram de se sentir sacerdotes, continuam a comungar, veem no mundo a sua paróquia e celebram este fim-de-semana o 46.º encontro. "Tu serás sacerdote para sempre", lembram.

Presbíteros casados defendem que "nunca se deixa de ser sacerdote"
Notícias ao Minuto

14:26 - 13/10/19 por Lusa

País Fraternitas

No espírito do grupo, criado por um bispo de Beja, está a recusa em pedir a escusa pelos "termos humilhantes e até vexatórios" que o pedido formal exigia. Esses termos foram agora alterados pelo Papa Francisco, cuja encíclica "Laudato Ti" deu o mote ao encontro deste ano, a decorrer em Vila Nova de Gaia, Porto.

"Mantemos a relação com a Igreja. Não somos ex-padres. Eu não gosto da palavra padre, porque padre é pai e significa que não somos irmãos. Eu não sou fisicamente irmão do meu pai. Eu sou filho do meu pai e os padres não são pais de ninguém, são irmãos e irmãs de toda a gente. Todos nós somos irmãos", disse à agência Lusa José Ribeiro, presbítero casado há 19 anos e pai de dois filhos.

Apesar de assumir que foi feliz enquanto pároco, para José Ribeiro "foi fácil" deixar o ministério: "Para mim foi continuar a fidelidade. Eu fui muito feliz enquanto estive no ministério. E para continuar a ser fiel e feliz decidi enveredar pelo casamento. Olho para os sete anos em que exerci o ministério como muito bons na minha vida. Se continuasse lá, não sei se continuaria a ser feliz como fui até lá e como sou agora", explicou.

Não aceita a designação de ex-padre. Nenhum dos cerca de 40 participantes, quase todos acompanhados pelas mulheres a aceita. "Tu serás sacerdote para sempre, a ordenação é para sempre, não há repetições, desordenações, não há anulação da ordenação. Nenhum de nós deixa de ser presbítero", defendeu.

José Ribeiro e Conceição casaram, mas a mulher não fez a vida fácil ao presbítero: "Deixar de exercer é que não foi fácil. Deixei em 1978 e casámos em 80. Ela foi difícil de convencer. Às vezes pensa-se que as mulheres são o motivo para nos desviarmos, não é verdade, nem sempre é verdade", salientou.

Ela, a mulher, rejeita o estigma da "mulher do padre", nunca se viu assim. "Nunca vi nessa perspetiva negativa. O Zé apareceu-me como próximo, como companheiro", disse.

"Foi ser fiel a essa certeza e foi neste caminhar conjunto que vimos que estávamos unidos e o amor não nos podia impedir de viver este amor maior a que fomos chamados. Nunca senti esse peso negativo, também a comunidade onde vivíamos, facilitou. Sei que para a minha mãe isso a fez sofrer, mas depois foi ela que inclusivamente nos arranjou casa", disse, a sorrir.

Desse "amor maior" nasceram dois filhos. Um, o Pedro, sofre de uma doença neuromuscular. A esperança média de vida da patologia que o Pedro tem são 20 anos. Pedro tem 37.

"Acho que descobrir Deus no mundo é mesmo o descobri-lo na vida. Também ali [na doença de Pedro] descobrimos Deus. Ninguém é perfeito. Ele diz que não é doente. Ele tem uma doença progressiva, mas não é doente. E por isso ele vive com muito mais intensidade que a maioria de muita gente", explicou o, agora sim, pai.

Se foi um castigo de Deus pelo "pecado" aos olhos da Igreja? Nenhum dos pais acredita nisso: "Já nos disseram, mas eu também não insultei a pessoa. Eu não acredito nesse Deus", respondeu José Ribeiro. "Sim, foi-nos dito isso, mas eu também não vejo assim, foi um caminho que tivemos e temos que seguir e fazemos cada parte dele com a mesma intensidade. O que nos interessa é que ele seja feliz", respondeu Conceição.

"Quando soubemos este prognóstico, conversamos entre nós e resolvemos que o importante é que ele seja feliz. Se ele vai viver até aos 20 anos, que seja feliz até aos 20 anos. Porque é preferível ser feliz até aos 20 anos do que viver infeliz até aos 100", resumiu José Ribeiro.

O presbítero acabou por pedir a dispensa 19 anos depois: "A dispensa ao estado clerical era uma coisa asquerosa, que o Papa mudou. Era um formulário escrito, horroroso, vexante. Senti que para a minha sogra, que era uma mulher de muita fé, era importante e pedi por ela. O próprio bispo que mo deu, o D. Armindo, disse "não leia isso", ele próprio via que aquilo não era aceitável", contou.

"E eu não o li, obedeci ao bispo", riu-se.

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