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10 Junho: João Miguel Tavares defende "reparações" aos afrodescendentes

O presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, João Miguel Tavares, defendeu hoje que Portugal deve "reparações" à sua população afrodescendente e que o crioulo cabo-verdiano deve ser ensinado em escolas dos dois países.

10 Junho: João Miguel Tavares defende "reparações" aos afrodescendentes

Numa cerimónia na cidade cabo-verdiana do Mindelo, onde hoje terminam as comemorações do Dia Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, João Miguel Tavares realçou que "há apenas 45 anos Cabo Verde era ainda parte de Portugal", falou em laços profundos, mas "manchados pela escravatura ou pelo racismo", e rejeitou a ideia de uma "exceção portuguesa" no colonialismo.

Embora ressalvando que não gosta da expressão "política de reparações", por se prestar "a demasiados equívocos", o jornalista afirmou que há "reparações que são devidas a quem hoje está vivo e carrega consigo a bagagem do preconceito" em Portugal: "Chamam-se igualdade de oportunidades, direito à busca da felicidade e a certeza de que cada ser humano é único e irrepetível, independentemente da sua origem, do seu credo ou da sua cor".

"Aquilo que deveria ser uma preocupação genuína de Portugal é a noção de que o nosso país tem uma responsabilidade histórica, sobretudo para com os jovens que descendem de habitantes das antigas colónias", reforçou, considerando que, por enquanto, "não é, pela falta de representação dos afrodescendentes na política portuguesa".

De acordo com João Miguel Tavares, "as reparações" devidas a esses jovens passam por "uma vida digna, educação de qualidade, acesso facilitado à cidadania portuguesa e o combate permanente à discriminação".

"As verdadeiras reparações fazem-se durante o intervalo de uma vida. Não para compensar tragédias ancestrais, cujos efeitos são impossíveis de medir", disse.

Mais à frente, abordou a questão linguística nas relações com Cabo Verde, defendendo que "as autoridades portuguesas, e a sua academia, têm o dever de prestar apoio à oficialização e padronização do crioulo", devido à "responsabilidade histórica de Portugal" e aos laços entre os dois países.

Na sua opinião, "o seu ensino nas escolas, em paralelo com o português", não se deve ficar por Cabo Verde: "Parece-me evidente também a sua utilidade nalgumas escolas portuguesas que têm de lidar diariamente com numerosos alunos cuja língua materna é o crioulo e que, por causa disso, enfrentam logo no início da vida académica enormes dificuldades, que condicionam o seu rendimento escolar".

Sobre as "muitas dezenas de milhares de cabo-verdianos e seus descendentes" residentes em Portugal, identificou "uma nova geração que começa finalmente a fazer ouvir a sua voz" e a "perturbar o mito lusotropicalista", com "um movimento associativo forte", depois de "45 anos de uma integração ainda pouco integrada".

"O problema não é haver tantos cabo-verdianos com 40 ou 50 anos de idade a limpar casas ou a construir estradas e edifícios em Portugal. A pobreza e o défice de educação têm um grande impacto em qualquer vida. O verdadeiro problema surge quando os seus filhos de 20 anos, que já foram criados em Portugal, continuam a limpar casas e a construir estradas e edifícios", apontou.

Na sua opinião, "isso significa que a escola pública não lhes está a dar tanto quanto devia e que Portugal tem de conseguir abrir as portas do elevador social em vez de continuar a oferecer escadas para lavar".

Na sua intervenção, João Miguel Tavares leu alguns versos da epopeia "Os Lusíadas" em crioulo, como introdução para a defesa do ensino desta língua, "com boa probabilidade, a segunda língua mais falada em Portugal, depois do português".

O jornalista enquadrou a "sobrevivência do crioulo até aos dias de hoje, ou da língua cabo-verdiana, como há quem prefira chamar-lhe" como "uma vitória sobre o colonialismo português, um gesto de rebeldia", salientando que "Portugal nunca conseguiu impor o português em Cabo Verde como língua do dia a dia".

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