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Morreu Ruben de Carvalho. Histórico militante do PCP tinha 74 anos

O jornalista era responsável na CML pelo Roteiro do Antifascismo e membro do Comité Central do PCP.

Morreu Ruben de Carvalho. Histórico militante do PCP tinha 74 anos

Ruben de Carvalho, histórico militante do PCP, morreu esta terça-feira aos 74 anos, dá conta a SIC Notícias. Para além da carreira na política, destacam-se no seu percurso profissional os cargos que assumiu enquanto jornalista. 

Numa nota enviada às redações, o Secretariado do Comité Central do PCP lamentou a morte de Ruben de Carvalho e informou que o histórico dirigente morreu "em consequência de problemas de saúde que exigiram internamento hospitalar".

Recorda o partido que Ruben de Carvalho "assumiu uma intervenção destacada na atividade do PCP, tendo desempenhado importantes tarefas, cargos e responsabilidades".

"Ruben de Carvalho teve uma vida de intervenção e de luta na resistência antifascista, no movimento associativo estudantil, abraçou com intensidade a Revolução de Abril e defendeu os seus valores e conquistas", recorda o Comité Central, sublinhando que o dirigente comunista "deixou à sociedade portuguesa um contributo de grande relevo no conhecimento da música, na sua dimensão artística, cultural e social, no plano nacional e internacional, das suas raízes populares à sua dimensão erudita".

Ruben de Carvalho foi chefe de redacção da 'Vida Mundial', redator coordenador de 'O Século' e chefe de redação do semanário 'Avante', a partir do nº 1 da série legal.

Foi, adicionalmente, membro do Conselho de Opinião da RTP em 2002, comentador da SIC Notícias e membro das 'comissões juvenis de apoio' à candidatura do General Humberto Delgado. 

Atualmente, o jornalista era responsável na Câmara Municipal de Lisboa pelo Roteiro do Antifascismo e membro do Comité Central do PCP.

Ruben de Carvalho, o comunista melómano que gostava de 'blues'

A casa de Ruben de Carvalho era um espelho da sua vida política como militante e dirigente do PCP, melómano e homens de letras -- um rés-do-chão cheio de livros, posters e discos.

O rés-do-chão era, na verdade, uma garagem, na Amadora, Lisboa, transformada em casa-biblioteca. Amplo, cheio de estantes, livros, discos de vinil. Era onde Ruben de Carvalho conservava a coluna de som que comprou quando ainda era jovem e, há anos, ainda ligava para ouvir a música de que gostava, do fado ao jazz, passando pelos blues, a música americana em que era especialista.

Lá estavam coleções de jornais, alguns posters a anunciar acontecimentos do PCP ou concertos. Foi, desde a primeira edição, em 1976, um dos organizadores da festa do 'Avante!'. 

Ruben era o único membro do atual Comité Central do PCP que tinha estado preso nas prisões da PIDE, a polícia política do regime ditatorial derrubado pelo 25 de Abril de 1974. "Tiveram a fineza de me apresentar todas as prisões do fascismo", ironizou, em entrevista ao Observador, em 2016.

Notícias ao MinutoComunista morreu hoje aos 74 anos© PCP

Politicamente, foi um defensor da solução governativa em que o PCP apoiou, no Parlamento, com o PEV e BE, o Governo minoritário do PS, e tinha tido a experiência autárquica na Câmara de Lisboa, como vereador da CDU, durante os anos em que António Costa foi presidente do município (2007-2013), que conheceu bem -- "andei com ele ao colo" - por os pais serem amigos.

"Votei favoravelmente esta solução que não marca nenhuma alteração particular da parte do PCP. Sempre defendemos a necessidade de uma alternativa de Esquerda para a governação. Não tiramos nenhum coelho do chapéu", afirmou ao Observador, recordando que em 2015 "criaram-se condições objetivas", os resultados eleitorais, "e subjetivas para que isso acontecesse".

Ruben Luís Tristão de Carvalho e Silva nasceu em Lisboa em 21 de julho de 1944 e aderiu ao PCP em 1970, depois de ter passado pela direção da comissão pró-associação dos estudantes do ensino liceal e da Faculdade de Letras, ainda na década de 1960.

Foi preso pela PIDE seis vezes (esteve em Caxias e no Aljube), a primeira das quais em 1961 e a última em 7 de abril, 18 dias antes do golpe de Estado. Antes de ser militante comunista, foi também membro das comissões juvenis de apoio à candidatura de Humberto Delgado (1958) e da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), nos anos 1960 e 1970.

Após o 25 de Abril e da Revolução dos Cravos, pertenceu ao MDP/CDE e, no I Governo Provisório foi chefe de gabinete do ministro Pereira de Moura e foi deputado à Assembleia da República eleito em 1995.

Numa altura em que eram poucos ou nenhuns os festivais de música em Portugal, a Festa do Avante!, em que Ruben de Carvalho foi um dos organizadores, foi cartaz para muitas novidades. Num mundo dividido pela Guerra Fria, entre EUA e URSS, o festival mostrou, em palco, o Coro dos Cossacos de Kuban, mas também o 'rock' os Dexy's Midgnight Runners, o 'folk' de Judy Collins, e ainda assistiu à estreia, em Portugal, de Chico Buarque.

Ruben de Carvalho foi, além de jornalista, autor de vários livros, uns mais políticos, como o 'Dossier Carlucci-CIA', sobre o primeiro embaixador dos EUA em Lisboa após a revolução, e outros mais culturais, como 'As Músicas do Fado' ou 'As Palavras das Cantigas', em que organizou um livro póstumo de José Carlos Ary dos Santos.

Nos últimos tempos, tinha na Antena 1 o programa 'Radicais Livres', em que debatia e falava com Jaime Nogueira Pinto sobre temas da atualidade. Um à Esquerda e outro à Direita, recordou Nogueira Pinto hoje ao Público, se uma discussão chegasse a um impasse, havia solução: "Uma piada punha tudo no sítio".

Ruben de Carvalho, o "intelectual comunista"

"Um intelectual comunista, um homem de combate de ideias", assim definiu Jerónimo de Sousa o camarada Ruben de Carvalho. 

Ao recordar o histórico comunista, o líder do PCP destacou "um homem que assumiu diversas tarefas, cargos e responsabilidades" e que, ao longo do seu percurso, se destacou pela "participação e intervenção tanto na luta anti-fascista, como no movimento estudantil que levou a prisões sucessivas, a última das quais a 7 de abril de 1974".

Ruben de Carvalho, que morreu aos 74 anos, "com toda responsabilidade enquanto membro do Comité Central, teve uma contribuição importantíssima na Festa do Avante", sobretudo no domínio "dos programas musicais". Foi, em suma, "um homem do jornalismo, da rádio, da imprensa e que deu contribuição importante para a nossa cultura".

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também lamentou a morte do dirigente do PCP,  recordando-o como um "defensor da liberdade desde jovem", que "deixa um rasto de saudade".

Já o primeiro-ministro considerou que a morte do antigo dirigente comunista Ruben de Carvalho representa a perda de um um amigo e de homem de cultural.

[Notícia atualizada às 14h33]

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