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A agressão que é "detalhe" e a "ousadia" contra uma agressão maior

O Notícias ao Minuto esteve à conversa com um dos ativistas que interrompeu António Costa, na passada segunda-feira, enquanto este discursava.

A agressão que é "detalhe" e a "ousadia" contra uma agressão maior
Notícias ao Minuto

14:30 - 24/04/19 por Pedro Filipe Pina 

País Extinction Rebellion

O momento ficou captado pelas câmaras e tem marcado a atualidade: António Costa discursava no 46.º aniversário do PS quando foi interrompido por um grupo de jovens que subiu ao palco com aviões de papel e cartazes contra os planos para o aeroporto do Montijo. "Lamentamos estragar a vossa festa”, ouviu-se ainda, antes de os ativistas serem retirados do palco

Entre os militantes presentes, ouviram-se gritos de “PS”, mas a ação levada a cabo não era especificamente dirigida aos socialistas. “Foi circunstancial ser aquele evento, não tem nada a ver com o PS, tem a ver com o primeiro-ministro”, explica Francisco, um dos protagonistas do protesto, em declarações ao Notícias ao Minuto.

Sobre como chegaram até António Costa, Francisco opta por não adiantar detalhes, explicando ao invés que foi "com muita criatividade, determinação, tentando ter o máximo respeito por todas as pessoas presentes, e muito determinados pelo facto de termos uma mensagem justa e importante a passar".

O ativista terá alegadamente sido agredido por um segurança na sequência do episódio, tema que é hoje manchete num jornal nacional. Questionado sobre esta matéria, é o próprio ativista quem desvaloriza o episódio.

"Quando estávamos longe das câmaras e dos olhares fui realmente agredido mas é um detalhe no que aconteceu, é uma agressão absolutamente irrelevante comparando com a agressão que estamos diariamente a fazer ao nosso Planeta e à vida na Terra, nomeadamente por decisões políticas como a que abordámos", diz Francisco, acrescentando que estes ativistas estão "disponíveis para correr estes riscos por uma causa que é justa".

A ação que visou António Costa foi, na verdade, apenas a última e a mais mediática de uma série de "ações de desobediência civil não violentas" que visaram as mais diversas entidades.

O grupo de ativistas em causa estava ligado ao Extinction Rebellion (‘extinção’ e ‘rebelião’, em português), que nasceu em Londres mas que está presente em mais de 300 cidades.

Foram várias as ações que têm ocorrido desde 15 de abril, dia que marcou o início de uma semana de rebelião a nível internacional, já com vários episódios por cá.

À porta da Nestlé, lembraram o uso excessivo de plástico, criticando uma das maiores empresas alimentares do planeta de ‘greenwashing’ - expressão que aplicam a medidas que, em termos ambientais, fazem mais pelo marketing do que pelo meio ambiente propriamente dito.

Nos 50 anos da refinaria da Galp, em Matosinhos, surgiram 'vestidos' de energias renováveis e pediram uma “transição energética justa”. Interromperam ainda uma emissão na CMTV criticando o que dizem ser o silêncio cúmplice dos media, e junto de uma loja da H&M lembraram o impacto no Planeta da indústria da moda, com produções em grande quantidade, muitas vezes com salários baixos em países em desenvolvimento.

Entre os visados por estes protestos não violentos esteve também a EDP e o Ministério da Agricultura. “São estas pessoas que estão em cargos de poder e têm impacto direto” nas escolhas, explica-nos.

Porquê estas ações?

Entre as exigências dos manifestantes estão "coisas muito simples: que os governos digam a verdade acerca da crise ecológica, o que está a acontecer, uma urgente redução de gases de efeito estufa e que a transição energética justa – que tem de acontecer – seja feita através de democracia direta e participativa", afirma Francisco.

Nas redes sociais multiplicam-se comentários e referências a estes protestos, em particular o que envolveu António Costa. E segundo este ativista, um dos impactos mais imediatos já se faz sentir. "Eu estava ao lado do primeiro-ministro, que há uns meses afirmou que havia um consenso nacional em torno da questão do aeroporto, e desde o momento em que o protesto aconteceu até agora tem sido imparável a quantidade de mensagens de apoio".

Francisco alerta em particular para o que será "o custo real desta decisão". “Queremos proteger o Estuário do Tejo, queremos uma cidade onde se possa viver. E isto é incompatível com os mais de 50 milhões de passageiros, que é o número a que querem chegar, e que não é sustentável. Defendemos uma cidade para as pessoas e não para os lucros e o desenvolvimento de transporte ferroviário, com comboios mais baratos e acessíveis" como alternativa ao tráfego aéreo.

'Business as usual'

Os riscos das alterações climáticas e o impacto da atividade humana no Planeta têm sido tema cada vez mais presente nos media e nos debates políticos nas últimas décadas. Mas, critica Francisco, "há anos e anos que ouvimos os políticos falar e a pegar no discurso da sustentabilidade para depois continuarem a fazer o que sempre fizeram, o 'business as usual'".

Para o ativista, o protesto é também uma forma de ir para lá do discurso e forçar ações e por isso opta por realçar "a quantidade de pessoas que aparece com o sentido exato de que faz parte deste Planeta, que partilha com outros seres humanos e outras espécies, e que temos de ser interdependentes” se queremos sobreviver.

"As pessoas têm necessidade desta ousadia e percebem a necessidade de deixar de falar e começar a agir", remata, admitindo que se adivinham mais ações futuras, tal como já tinha avisado o ativista Sinan Eden em declarações à agência Lusa.

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