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Em Matosinhos, meninos ciganos trocam ruas de bairro pela escola

No bairro da Biquinha, em Matosinhos, todas as crianças ciganas frequentam a pré-escola, graças a um projeto e uma mediadora social daquela etnia que estão a mudar a tradição.

Em Matosinhos, meninos ciganos trocam ruas de bairro pela escola
Notícias ao Minuto

10:22 - 10/03/19 por Lusa

País Projeto social

Junto à Estrada da Circunvalação, num bairro onde vivem 4.000 pessoas, 270 das quais de etnia cigana, incide sobre estas um projeto iniciado em 2004, chamado 100 + Preconceito, e uma aposta, a da criação de uma mediadora social, Élia Maia, para facilitar o passar da mensagem à comunidade.

O sossego é a primeira sensação ao entrar no bairro rumo ao local onde está o Gabinete de Apoio Individualizado da Associação para o Planeamento Familiar (APF), palco da conversa de Nuno Teixeira e Élia Maia com a agência Lusa, num espaço de duas salas, no rés-do-chão de um dos blocos habitados por ciganos.

Distribuído por áreas de atendimento públicas e privadas, a APF desenvolve ali o seu trabalho de sensibilização e de ajuda à comunidade cigana.

Atualmente com 27 anos, Élia ligou-se ao projeto logo após ter saído da escola, aos 12 anos, numa fase, explicou à Lusa, em que era encarada pela comunidade "não como um objetivo, mas como uma obrigação imposta pela sociedade".

Apesar da renúncia aos estudos, a jovem cigana "chamou a atenção pelo seu perfil", explicou Nuno Teixeira, começando a participar em "cada vez mais ações" do projeto.

Um compromisso fez o resto e aos 20 anos ingressou nas Novas Oportunidades e completou o 12.º ano, tornando-se então na "primeira mediadora social cigana do país" e com um "projeto muito bem definido: fazer a ponte entre o projeto e a comunidade e ser também a voz cigana nas sessões de esclarecimento promovidas pela APF", revelou Nuno Teixeira.

Élia quer formar-se em psicologia e vai candidatar-se à faculdade ao abrigo do "Mais 23" mas, enquanto isso não acontece, frequentará "formações complementares como mediadora social" promovidas "pelo Alto Comissariado para as Migrações que recentemente lançou um projeto para mediadoras municipais", disse o coordenador.

Desde novembro de 2018 em funções, Élia fala "na primeira pessoa de e para os ciganos", o que não impede alguns, disse, "de continuarem a pensar que sair do seu percurso é deixar de ser cigano" resultado de viverem "em famílias com mentalidade mais fechada".

Reiterando "sempre" ter mostrado que queria fazer "um percurso diferente" e de por vezes "ouvir coisas" de que não gosta e que "são mentira", afirmou como seu "maior objetivo conseguir chegar aos ciganos" e, também, fora da comunidade, utilizar o seu exemplo "como desmistificador do que se pensa da cultura cigana".

"Temos de ser nós, ciganos, a mostrar que mudamos, que nos capacitamos, porque o conhecimento vai dar capacidade e, assim, mostrar que a nossa cultura mudou", acentuou Élia Maia, falando de uma luta para "dar autonomia ao povo cigano".

Sobre a evolução registada na comunidade, a colaboradora da APF falou das crianças que "já frequentam a pré-escola", mas também das "mães que os incitam a estudar", numa espécie de herança de um centro comunitário da APF que "retirou as crianças da rua, ensinando-os a brincar, ao mesmo tempo que fez a transição para o meio escolar", revelou Nuno Teixeira.

Mas se há crianças no pré-escolar, o não às creches continua a pontificar, assumindo Nuno Teixeira que "o valor dado pelo cigano à criança, tornando-a no centro da família, torna difícil confiar em alguém para cuidar dela, numa cultura em que a mãe fica em casa a cuidar dos filhos".

Élia Maia reconhece estar a viver a "sua missão" e, disse à Lusa, daqui por dez anos imagina-se num projeto seu, uma associação, auxiliando o seu povo.

Parceiro importante no projeto, a Câmara de Matosinhos rotula de "sucesso o que está acontecer no bairro", acentuando a presidente Luísa Salgueiro que "todas as crianças frequentam o I e II Ciclo do Agrupamento de Escolas Óscar Lopes".

"Temos uma comunidade muito bem integrada, que consegue apresentar níveis de formação idênticos aos da restante população, quebrando um certo estereótipo que persiste em relação à comunidade cigana", disse Luísa Salgueiro.

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