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"O Brasil revelou o seu lado mais ignorante e mais perverso"

Milton Hatoum considera que, "nestas eleições, o Brasil revelou o seu lado mais ignorante e mais perverso", falando a propósito do seu novo romance, 'A noite da espera', ambientando na ditadura brasileira e que apresenta semelhanças com a atualidade.

"O Brasil revelou o seu lado mais ignorante e mais perverso"
Notícias ao Minuto

14:31 - 28/02/19 por Lusa

País Milton Hatoum

"A noite da espera", lançado agora em Portugal pela Companhia das Letras, começou a ser escrito em 2007, quando "Lula era o grande presidente do momento". Seguiram-se os outros dois volumes -- trata-se de uma trilogia chamada "O lugar mais sombrio" -- e, no total, Milton Hatoum passou quase dez anos a trabalhar neste projeto, contou em entrevista à agência Lusa.

"Eu não sabia que o Brasil se ia tornar esse horror, porque é um horror o que está acontecendo no meu país, não tenho outra palavra para nomear essa ascensão do ultraconservadorismo e às vezes até do fascismo, que está em alguns ministros. O Brasil, nessas eleições, revelou o seu lado mais ignorante e mais perverso, mais cruel", desabafou o escritor, referindo-se às Presidenciais do passado mês de outubro, no seu país, em que foi eleito Jair Bolsonaro.

Milton Hatoum encara, por isso, com "muita preocupação" a atual vida política no Brasil, porque não se trata apenas de uma "ameaça", "há de facto uma perseguição aos intelectuais, mas sobretudo às minorias: às mulheres, aos negros, aos homossexuais, que são agredidos todos os dias. Tenho amigos que tiveram de sair, homossexuais, os que puderam sair, ou já saíram ou vão sair".

"O romance, no fundo, está falando desse Brasil. O livro, às vezes, é mais visionário do que o escritor. Eu jamais pensaria em 2008, em 2010, em 2012, que o Brasil fosse mudar tanto para pior".

"É um governo que tem um núcleo de direita muito conservadora, que é o ministro da Justiça e o ministro da Economia, e tem um núcleo de extrema direita que é o próprio Bolsonaro e alguns ministros - o da Educação e o chanceler, que é um louco... Eles são delirantes, acreditam que a terra é plana, parece uma piada, parece uma coisa do outro mundo, do século XIII, é assustador. Acreditar que a terra é plana? A outra, a 'ministra das mulheres', viu Jesus Cristo numa goiabeira, quando tinha 10 ou 11 anos. São pessoas estúpidas", afirmou o escritor.

Mas é em relação ao Ministério das Relações Exteriores que Milton Hatoum manifesta mais amargura, recordando que "um dos melhores quadros intelectuais brasileiros pertence ao Itamaraty", por onde passaram "grandes intelectuais diplomatas": alguns dos "maiores poetas brasileiros", como Vinicius de Morais e João Cabral de Melo Neto, e "um dos maiores romancistas da língua portuguesa, o João Guimarães Rosa".

"Há grandes pensadores, historiadores, e ele [o presidente] escolhe a escória, o que há de mais absurdo, ele escolhe um ressentido, um medíocre para ser chanceler, um homem [Ernesto Araújo] que fala que o marxismo cultural é uma ameaça, que a Europa é um vazio cultural. É um imbecil, como é que ele pode dizer que a Europa é um vazio cultural? Ele falou com essas palavras. O presidente é um homem tosco, um homem de facto que não consegue conversar durante cinco minutos, ele não consegue raciocinar, eu acho. E esses brasileiros elegeram esse governo", lamentou.

Milton Hatoum mostra, no entanto, alguma confiança no aparecimento de movimentos de "resistência e oposição", que já começam a ser "consideráveis".

Para o escritor, o que se passa no Brasil pode ser explicado com a herança de 25 anos de ditadura.

"Todo o país que passa por uma ditadura sofre consequências graves, porque cria uma espécie de anquilose mental, de parasitas políticos, pessoas que não sabem mais pensar, refletir, debater, a falta da prática do debate é nociva à democracia", disse à Lusa.

Na vanguarda da oposição acredita estarem os artistas, "como sempre", "os músicos, os cineastas, os diretores [encenadores, realizadores]", considerou, lembrando como recentemente o realizador Wagner Moura fez, no festival de cinema de Berlim, "um pronunciamento veemente contra Bolsonaro".

O filme apresentado era o "Marighella", sobre Carlos Marighella, o escritor e guerrilheiro, opositor à ditadura que foi assassinado em S. Paulo, em 1969 -- e que por acaso também é referido no romance de Hatoum -, "figura muito emblemática", conhecida de "todos aqueles que estavam envolvidos em movimentos estudantis".

Carlos Marighella, um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional durante a ditadura militar (1964-1985), militante a quem Caetano Veloso dedicou a canção "Um Comunista", foi poeta e autor, entre outros livros, de "Brasil", ensaio/manifesto de libertação do seu país, publicado em Portugal pel antiga Latitude, em 1971, e do "Manuel do Guerrilheiro Urbano", que também teve edição portuguesa, pela Assírio & Alvim.

"O Wagner Moura, os atores, as atrizes, em Berlim, mesmo no Brasil, os músicos, estão muito mobilizados. Os escritores também, os poetas, os professores, os intelectuais... Só que na nossa voz, o altifalante é um volume mais baixo, não temos o alcance que tem o Chico Buarque, o Caetano Veloso, o [Gilberto] Gil, a Maria Bethânia, a Gal, o Milton Nascimento. Eles falam para um público muito grande, muito amplo".

Esta realidade tem que ver também com a posição difícil que o escritor ocupa atualmente no Brasil, um país com baixos índices de leitura - apesar das dezenas de festivais literários que organiza -, porque não se interessa, ou porque se interessa mas não tem dinheiro para comprar um livro.

Tempos diferentes dos relatados em "A noite da espera", quando também havia muito mais tempo e disponibilidade mental para ler, e os escritores brasileiros, norte-americanos e europeus eram referências e inspiração.

Um dos mais citados é o heterónimo pessoano Álvaro de Campos, também o favorito de Milton Hatoum, que travou conhecimento com este poeta por intermédio de um diplomata, que foi transportado para o romance no papel de embaixador Faisão.

"Ele [o diplomata] foi uma espécie de formador intelectual do nosso grupo. Tinha uma biblioteca fabulosa, falava bem inglês francês, alemão, italiano, tinha livros do mundo todo e havia uma espécie de sarau. Era um refúgio, a casa dele, onde a gente ia escutá-lo falar de literatura e de teatro. E Fernando Pessoa era um dos poetas preferidos, de modo que, nessa época, eu também comecei a ler Fernando Pessoa e, dos heterónimos, o Álvaro de Campos, o engenheiro metafísico, eu acho-o maravilhoso".

Aliás, Fernando Pessoa "será uma espécie de farol poético no segundo livro" da trilogia, adianta Milton Hatoum.

Para o futuro, o escritor tem "algumas ideias": "Este tempo que estamos a viver é tão assustador, que eu já pensei até escrever alguma coisa sobre isso, sobre os ricos do Brasil. Acho que esse é um momento tão assustador que é impossível não falar nada sobre isso, a gente não pode silenciar", defende.

E se o escritor não tem o altifalante suficientemente alto, há sempre quem lhe possa ampliar a voz: "A noite da espera" já tem cineastas interessados em filmá-lo.

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