“Se tivesse nessa situação outra vez, voltaria a fazê-lo"
Em causa está o pedido de acesso por parte do ex-espião à faturação detalhada do telemóvel do jornalista do Público para descobrir a sua fonte.
País Jorge Silva Carvalho
O ex-espião dos Serviços Secretos Portugueses e antigo diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, Jorge Silva Carvalho, foi condenado em 2016, pelos crimes de violação do segredo de Estado, acesso a dados pessoais, abuso de poder e devassa da vida privada.
Silva Carvalho revela que está arrependido, mas admite que, se tivesse na mesma situação, “provavelmente” mandava novamente espiar a faturação detalhada do telemóvel do jornalista do Público para descobrir a sua fonte.
Ao longo deste tempo, o ex-espião esteve em silêncio, mas decidiu agora quebrá-lo com o lançamento, esta sexta-feira, do livro ‘Ao Serviço de Portugal’.
Numa entrevista, dada à RTP3, decidiu levantar a ponta do véu do que se vai poder ler no seu livro e revelou que o objetivo é mostrar que, muitas vezes, o trabalho dos Serviços de Informação e Segurança (SIS) podem ser catalogados de ilegais, apesar de não o considerar.
Quando questionado sobre o facto de ter mandado espiar a faturação detalhada do telemóvel de um jornalista para descobrir a sua fonte, Jorge Silva Carvalho defendeu-se dizendo que “uma situação que envolva uma potencial fonte do SIS, que envolva uma potencial fuga de informação, é sempre vista com um máximo de preocupação”.
Por essa razão, e para defender o segredo de Estado, o antigo espião diz que, apesar de aceitar a penalidade, provavelmente voltaria a fazer o mesmo pedido.
“Uma fuga de informação, por mais que seja lateral, cria um precedente gravíssimo, pois uma fonte que fala uma vez, fala duas ou três. Eu aceito a penalidade mas, muito provavelmente, se eu tivesse nessa situação outra vez, voltaria a fazê-lo naquele contexto”, confessa.
Ainda assim, Silva Carvalho garante arrependimento. “Estou arrependido porque envolveu pessoas que nunca deviam ter sido envolvidas, nomeadamente, pessoas que só trabalharam para o serviço e para o Estado e que foram injustamente envolvidas. Continuo a achar que houve um comportamento incorreto, houve uma situação que foi avaliada como sendo a única forma de averiguar com toda a certeza a natureza da fuga, mas a decisão não foi só minha”, sublinhou.
Já quanto à decisão do tribunal, o ex-espião diz que percebe, mas que a divulgação dessa informação também deveria ter sido julgada.
“Essa notícia que envolve a tal consulta da lista telefónica de um jornalista foi publicada num jornal, não foi largada por mim, ela constituía para todos os efeitos um segredo de Estado, portanto alguém entregou a esse jornalista e a esse jornal esta informação e essa divulgação constitui uma violação do segredo de Estado, um ato criminal, e no entanto, esse assunto nunca nem foi tido em consideração”, frisou.
Recorde-se que um dos casos pelos quais Silva Carvalho foi condenado teve a ver com o facto de ter mandado espiar a faturação detalhada do telemóvel do jornalista Nuno Simas, à altura jornalista do Público. O ex-espião quis ter acesso à lista telefónica do jornalista para descobrir quem eram as suas fontes de informação das notícias que este andava a escrever sobre as Secretas portuguesas. O ex-dirigente do SIED foi, em 2016, condenado a pagar-lhe 3500 euros de indemnização.



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