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"Este ano foi mais agressivo do que 2003. Foi medonho, parecia o inferno"

Situação "muito complexa" em Monchique não dá descanso aos habitantes da vila e das aldeias em redor. Comparações com o incêndio de 2003 são inevitáveis, e, sendo ainda cedo para balanços, salta à vista a velocidade com que o incêndio de 2018 se tem propagado.

"Este ano foi mais agressivo do que 2003. Foi medonho, parecia o inferno"
Notícias ao Minuto

22:54 - 06/08/18 por Pedro Bastos Reis

País Monchique

Esta segunda-feira, quarto dia de um fogo que não dá descanso, ficou marcada por mais um dia de difícil luta contra as chamas em Monchique, numa situação “muito complexa” e que continua a gerar enorme preocupação.

Durante a manhã, a situação parecia mais calma, beneficiando de uma ligeira descida das temperaturas, mas alterações no vento e a onda de fumo que manchou o céu de Monchique impossibilitou que os meios aéreos descolassem para combater as chamas que continuavam a lavrar na região. O combate foi travado, durante bastante tempo, com recurso a máquinas de rasto e pelos mais de mil operacionais que estão no terreno.

Enquanto recuperava de um longo fim de semana de preocupação e de lutas travadas contra as chamas que se aproximavam das casas, Vilson Rosa, de 30 anos, residente em Monchique, recordou ao Notícias ao Minuto o “inferno” vivido durante o final de tarde e a noite de domingo.

As chamas aproximavam-se da casa dos pais e dos vizinhos, pelo que Vilson decidiu fazer o que estava ao seu alcance para proteger a casa. “Chegámos lá, ainda as estradas não estavam cortadas, mas o fogo já estava relativamente perto, a dois quilómetros de distância”, recorda Vilson, que em cerca de 10 minutos viu o fogo aproximar-se de uma forma repentina.

Enquanto várias localidades nas redondezas de Monchique eram evacuadas, e com as chamas perto de entrar na vila, a Guarda Nacional Republicana (GNR) e membros da Proteção Civil chegaram à casa dos pais de Vilson para retirar os habitantes, que recusaram as ordens. “Chegaram para nos retirar, mas recusámos. Tentaram insistir, recusámos e foram embora”.

Vilson tem noção do risco da sua decisão, mas diz que, se tivesse abandonado a casa dos pais, “aquilo ia arder tudo”. Muniu-se de “baldes de água, mangueiras e motobombas” e combateu as chamas como conseguiu. Reitera que percebe “perfeitamente” as intenções da Proteção Civil, que está ali para protegê-los, mas sublinha o conflito existente entre os dois lados. “Concordo com eles [com a Proteção Civil], percebo perfeitamente. Mas há os dois lados: nós queremos proteger o que é nosso, eles querem-nos proteger a nós”, remata.

Muitas pessoas pernoitaram na escola básica de Monchique, depois de as chamas se terem aproximado da entrada da vila. A prioridade da Proteção Civil foi desde o início garantir que as pessoas ficavam em segurança. O balanço das casas ardidas ainda está por apurar, mas autoridades admitem que muitas casas, incluindo de primeira habitação, terão sido consumidas pelas chamas.

“Este ano foi muito mais agressivo do que em 2003”

Perante as condições do terreno e a intensidade e velocidade das chamas, foi impossível para os bombeiros estarem em todos os focos de incêndio. Essa foi precisamente a informação que deram a Vilson, já depois de a situação estar mais controlada.

“Só há um acesso. É eucapliptal de um lado e do outro. É uma estrada super estreita, é completamente impossível passar ali”, explica.

Por esse motivo, nos primeiros momentos em que as chamas chegaram perto da casa dos seus pais, Vilson e os seus vizinhos tiveram de enfrentá-las ainda sem o apoio dos bombeiros. “Ninguém apareceu. Só mais tarde, perto do café da minha irmã, próximo da Estrada Nacional, é que os bombeiros disseram que era impossível lá chegar”, recorda.

Felizmente, a casa dos pais de Vilson 'salvou-se', apesar de ter ardido a horta e o mato à volta. Já um dos seus vizinhos não teve tanta sorte, e o anexo da sua casa acabou por arder.

Este “inferno”, como é descrito o incêndio que lavra sem cessar há quatro dias, gera comparações imediatas com o de 2003. Para Vilson, que na altura tinha 15 anos, o fogo deste ano foi “muito mais agressivo”, “mais repentino.”

“Não sei se foi mais grave, mas foi mais agressivo. Mais repentino. No outro [incêndio de 2003], tivemos quase um dia inteiro à espera que o fogo chegasse. Desta vez, não tivemos tempo para nada, o fogo chegou e, quando olhámos para o lado ele já estava à porta de casa. Tínhamos água e conseguimos aguentá-lo. Foram 10 minutos em que aconteceu tudo”, relembra. “Este ano foi muito mais agressivo do que em 2003. Foi medonho, parecia um inferno”.

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