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Eleições russas: A matrioska Putin vai continuar a cimentar o poder

A grande dúvida nas eleições presidenciais russas deste domingo não é a vitória (mais do que certa) de Vladimir Putin, mas sim a participação do povo russo. O líder tem reforçado a política externa militarista da Rússia. A tensão com o Ocidente tem aumentado e deverá marcar um novo mandato de Putin.

Eleições russas: A matrioska Putin vai continuar a cimentar o poder
Notícias ao Minuto

08:00 - 18/03/18 por Fábio Nunes

Mundo Presidenciais

O povo russo vai este domingo às urnas para escolher quem vai liderar os destinos do país nos próximos seis anos. Não se esperam grandes surpresas nestas eleições, que devem servir para Vladimir Putin consolidar ainda mais o seu poder. A novidade na candidatura do atual líder russo é que vai concorrer a estas eleições como independente e não pelo seu partido, o Rússia Unida.

Uma sondagem recente levada a cabo pela WCIOM, prevê que Putin irá conseguir 69,7% dos votos. Anteriores sondagens, apontavam para um resultado semelhante. “Neste momento restam apenas umas pequenas questões porque as grandes já estão resolvidas. A maior é que Vladimir Putin vai ser, sem dúvida, reeleito pela quarta vez presidente da Rússia”, afirma José Milhazes ao Notícias ao Minuto.

Uma dessas pequenas questões reside na participação do povo russo. “Resta saber qual a afluência às urnas, esse é o problema principal. O Kremlin está a fazer de tudo, nomeadamente as declarações bombásticas de Putin nos últimos tempos, para mobilizar o eleitorado de forma a que haja uma grande afluência e isso fará com que a vitória de Putin tenha um peso maior”, diz-nos o jornalista.

O Kremlin estará a apontar para uma participação na ordem dos 70%. Algo que de acordo com as últimas sondagens não se deverá registar.

Mas apesar da vitória de Putin ser praticamente um dado adquirido, o presidente não é o único a disputar estas presidenciais. Tem sete opositores.

Pavel Grudinin é um empresário candidato pelo Partido Comunista russo; Vladimir Zhirinovsky é o candidato populista da extrema-direita do partido LDPR, já concorreu por cinco vezes à presidência; Grigori Yavlinsky, é o cofundador do partido liberal Yabloko; Ksenia Sobchak é uma personalidade da televisão russa, que decidiu concorrer a estas presidenciais pelo partido Iniciativa Cívica; Boris Titov é uma figura mais desconhecida para a população russa e é o candidato do Partido do Crescimento; Sergey Baburin é candidato por um partido nacionalista; Maxim Suraykin é o candidato nomeado por uma fação alternativa ao Partido Comunista.

“Quanto aos seus oponentes, é possível constatar que uma das questões relevantes destas eleições será a previsível grande derrota do candidato comunista, Pavel Grudinin. Este candidato capitalista que foi apresentado pelos comunistas poderá ficar abaixo dos 10%”, refere José Milhazes.

De resto, o jornalista e escritor não acredita que algum adversário de Putin vá além dos 10%. “As sondagens apontam isso e, como diria Estaline, o principal não é como se vota, é como se contam os votos. Não deverão surgir surpresas nenhumas”.

Convém ainda referir que Alexei Navalny, o seu principal opositor, foi afastado das eleições depois de ter sido acusado por um tribunal russo de fraude. Acusações que Nalavny disse serem falsas e terem motivações políticas.

As comparações cada vez mais naturais entre Putin e Estaline

A confirmar-se a reeleição, Putin assegura mais um mandato de seis anos, mantendo-se à frente dos destinos da potência de Leste até 2024. O antigo agente do KGB está no poder desde 1999, sobretudo como presidente, mas também como primeiro-ministro (Dmitri Medvedev foi o presidente da Rússia entre 2008 e 2012, mas todos sabem que a figura mais poderosa continuava a ser Putin).

A comparação com Estaline torna-se cada vez mais evidente. “Se for do ponto de vista de concentração de poderes, efetivamente Vladimir Putin arrisca-se a ser o homem com mais poderes no país depois de Estaline. Isso é uma questão importante porque Putin concentra nas suas mãos e nas dos seus amigos, não só o poder político mas também o poder económico. Os grandes gigantes públicos, que extraem e exportam petróleo e gás estão nas mãos de amigos de Putin e são, entre aspas, empresas públicas. Nesse sentido, digamos que a capacidade de mandar na Rússia é impressionante”.

Notícias ao MinutoVladimir Putin lidera os destinos da Rússia desde 1999© Reuters

“Resta saber até quando é que ele continuará a conseguir manter este sistema de centralização (...) Nesta campanha eleitoral prometeu dez anos de acontecimentos brilhantes se for reeleito, vamos lá ver quais serão estes acontecimentos brilhantes, caso ele cumpra as suas promessas, o que é difícil de acreditar”, acrescenta José Milhazes.

Sem necessidade de grandes aparições públicas durante o período de campanha eleitoral, Putin fez um discurso no parlamento que ganhou grande destaque. O líder russo apresentou ao mundo um novo míssil que nuclear que definiu como “invencível”. Um discurso que mereceu críticas do Ocidente, mas que tinha como objetivo apelar ao sentimento de orgulho do povo russo.

Para o especialista na Rússia, “há um grande exagero” do presidente. “Principalmente, no que diz respeito às armas cujos desenhos e cujas demonstrações fez no discurso perante o parlamento. Há sinais que indicam que Putin parece estar a ultrapassar os limites da normalidade internacional e isso constitui um perigo verdadeiro para a Rússia e para o Ocidente”.

Envenenamento de ex-espião e guerra na Síria aumentam tensão com Ocidente

As eleições ficam ainda marcadas pelo caso do envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal. Este não foi um caso isolado, basta relembrar a morte de Alexander Litvinenko. Desta vez o Reino Unido acusou formalmente a Rússia de envolvimento neste ataque e expulsou 23 diplomatas russos do país.

Notícias ao Minuto[O envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal, em solo britânico complicou ainda mais as tensas relações da Rússia com o Ocidente]© Getty Images

Os Estados Unidos, Alemanha e França uniram a sua voz à do Reino Unido e também responsabilizaram Moscovo por este ataque.

Washington foi ainda mais longe e anunciou sanções a 19 cidadãos e a cinco empresas russas devido à interferência nas presidenciais de 2016.

No entender de José Milhazes, também a demissão de Rex Tillerson de Secretário de Estado norte-americano, pode representar endurecimento na posição dos EUA face à Rússia. “Penso que a substituição de Tillerson pelo chefe da CIA à frente da diplomacia norte-americana também pode ser um sinal de que a posição dos EUA em relação à Rússia vai ser mais dura. Por estas razões e, até pela forma como a Rússia está a gerir este conflito com a Grã-Bretanha, poderá ter sérias consequências num novo mandato de Putin”.

O apoio da Rússia ao regime de Bashar al-Assad no conflito que continua a decorrer na Síria é outro dos pontos de divergência entre o Kremlin e a comunidade internacional. “Penso que a guerra na Síria está para durar muitos e muitos anos. No Afeganistão já dura há mais 40 anos e nunca mais parece terminar. A Síria vai pelo mesmo caminho. A Rússia meteu o pé na argola no Afeganistão e pode estar a fazer o mesmo na Síria”, realça o jornalista.

Atualmente, é difícil imaginar uma Rússia sem Vladimir Putin ao leme. No entanto, e a menos que haja alguma mudança constitucional, há um limite de dois mandatos consecutivos para o presidente da Rússia, o que significa que em 2024 terá de haver uma mudança no poder.

Poderá é não ser uma mudança muito drástica pelo que dá a entender José Milhazes, que acredita que será sempre “alguém já dentro do sistema”. Eventualmente com Putin a continuar a encabeçar o verdadeiro poder.

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