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Belém é a cidade da natividade, mas também a da ocupação e da resistência

Mais de dois milhões de cristãos visitam, anulamente, a cidade de Belém, na Cisjordânia, em particular a Igreja da Natividade, local onde se acredita que nasceu Jesus Cristo. Cidade carregada de simbolismo histórico e religioso, Belém é também palco dos confrontos entre israelitas e palestinianos.

Belém é a cidade da natividade, mas também a da ocupação e da resistência
Notícias ao Minuto

08:30 - 25/12/17 por Pedro Bastos Reis

Mundo Natal

Na altura do Natal, é quase obrigatório olhar para a história e ir à origem do cristianismo. Por esse motivo, todos anos, é inevitável olhar para Belém, onde se acredita que terá nascido Jesus Cristo.

A história da natividade é mais do que conhecida. Segundo os evangelhos, Maria e José terão saído da Nazaré rumo a Belém para um censo, e o pequeno Jesus acabou por nascer, numa manjedoura, pelo caminho.

É precisamente em Belém que se situa a famosa Igreja da Natividade, construída no ano de 399 e reconstruída já no século VI. Uma caverna em particular, sobre a qual a igreja foi construída, é considerada como o local exato do nascimento de Jesus. Em 2012, a Igreja da Natividade foi reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO.

Notícias ao MinutoCave da Igreja da Natividade. Acredita-se que tenha sido aqui que nasceu Jesus© Reuters

Por ter sido em Belém que nasceu Jesus Cristo, a história e simbolismo da cidade estão intrinsecamente ligados ao cristianismo. Pelo seu significado histórico e religioso, é um dos principais destinos de milhões de fiéis de todo o mundo. Estima-se que cerca de dois milhões de pessoas visitem a cidade anualmente.

Este Natal não será exceção, e milhares de pessoas rumam a Belém para as celebrações festivais. Muitos hotéis estão lotados e as luzes e eventos que assinalam o nascimento de Jesus Cristo fazem-se notar. Mais de quatro mil hotéis, neste momento, estão com cerca de 90% de lotação. Alguns estão lotados. No entanto, a tensão que se vive nas ruas e as décadas de confrontos entre israelitas e palestinianos contrastam com uma época em que se pretende assinalar a paz.

"O exército israelita entra quando quer, não tem vergonha nenhuma"

O ano de 2017 ficará na história como o ano em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu Jerusalém como a capital de Israel, uma decisão que rompe com todo o consenso internacional relativamente à Cidade Santa, e cuja resistência se tem feito notar um pouco por todo o mundo, mas sobretudo nos territórios palestinianos.

Belém, situada na Cisjordânia e localizada a cerca de 10 quilómetros de Jerusalém, é, precisamente, um dos principais pontos de resistência do povo palestiniano contra a decisão de Trump. Nas últimas semanas, a cidade onde nasceu Jesus Cristo é também a cidade onde milhares de pessoas saem às ruas, enfrentando os militares israelitas que tentam pôr fim a qualquer ato de protesto.

Notícias ao MinutoBelém tem sido palco de confrontos entre palestinianos e militares israelitas© Reuters

As imagens que nos chegam mostram a intensidade dos confrontos. Palestinianos atiram pedras contra os militares israelitas, que por sua vez respondem com gás lacrimogéneo, balas de borracha e munições. Desde que estalaram os confrontos, já morreram pelo menos 10 palestinianos e centenas ficaram feridos, sobretudo na Faixa de Gaza.

Shahd Wadi é luso-palestiniana e denuncia a “política de colonização, de limpeza étnica, e uma política de opressão diária” no dia a dia do povo palestiniano. Relativamente à cidade de Belém, que já visitou por várias vezes, aponta o facto de os militares israelitas entrarem nos territórios palestinianos e deterem pessoas indiscriminadamente, incluindo crianças.

“O exército israelita entra quando quer, não tem vergonha nenhuma. Entra e se quiser prender alguém prende. Entra à meia da noite, a qualquer hora, não há limites”, lamenta.

Com o intensificar dos protestos, a presença do exército tornou-se a realidade do dia a dia. No entanto, nem sempre é assim e nos momentos de menor tensão os militares aparecem menos, ficam mais confinados aos checkpoints – zonas controladas pelo exército que decide quem entra e quem sai dos territórios palestinianos, uma das principais políticas de ocupação perpetrada pelas forças israelitas.

O muro da ocupação é a tela da resistência

Outro reflexo da segregação e ocupação nos territórios palestinianos é o muro de cerca de 700 quilómetros que atravessa a Cisjordânia. Shahd Wadi recorda “uma imagem cruel”, em que o muro, na cidade de Belém, atravessa, inclusive, um cemitério. “Nem os mortos podem morrer em paz, nem os vivos podem visitar os seus familiares”, desabafa a ativista e investigadora em questões palestinianas e feministas.

Mas se o “muro da vergonha”, como é apelidado, funciona, por um lado, como política de segregação, por outro é também uma forma de resistência. A barreira que divide é também uma tela de arte, cheia de imagens e slogans contra a ocupação.

Notícias ao MinutoBanksy abriu um hotel em Belém. Muro serve de tela para a resistência© Reuters

Este ano, o artista Banksy, cuja identidade não é conhecida, inaugurou em Belém o The Walled Hotel, que, além de vários trabalhos de street art, segundo o próprio artista, tem “a pior vista do mundo”. Todos os quartos do hotel estão virados para o muro, a forma que Banksy encontrou para obrigar quem o visitar a lidar com a segregação e ocupação sofridas pelo povo palestiniano.

Palco de confrontos, ocupação e resistência, Belém é, por estes dias, um dos principais destinos religiosos, e milhares de cristãos procuram estar próximos do local onde nasceu Jesus Cristo.

Apesar de a Cisjordânia ser maioritariamente muçulmana, há também uma forte percentagem de cristãos, particularmente em Belém. Nesse sentido, no Natal, é quase tradição os presidentes palestinianos juntarem-se à minoria cristã na Igreja da Natividade. Muitos muçulmanos fazem o mesmo, e juntam-se mesmo aos cristãos para rezar.

“Na última vez que fui à Igreja da Natividade tirei uma fotografia de uma palestiniana, muçulmana, a rezar dentro da própria Igreja. Achei isso muito bonito, porque há muita convivência entre religiões”, recorda Shahd Wadi.

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