Macau: Tabu sobre motins de 1966 ainda vive, meio século depois

Muitos recusam falar, outros preferem dizer que não se lembram. Os motins do '1,2,3' aconteceram há 50 anos, mas persistem reservas na comunidade chinesa de Macau em recordar um dos mais tensos episódios da história local no século XX.

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Mundo China

Quando o '1,2,3' chegou, a 3 de dezembro (12/3) de 1966, tinha 22 anos. Ouviu falar de um "conflito muito grave, com mortos e tudo", mas confessa não saber muito, apenas que "a polícia portuguesa entrou em confronto com os comunistas" diz um dos septuagenários que recorda fugazmente à agência Lusa que na altura "não havia muita gente com televisão e existiam poucos jornais" chineses e por isso pouca informação sobre o que sucedia, para apontar, de seguida, que também não lhe parece ser "um assunto a que as pessoas prestem muita atenção".

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O conflito começou com o embargo das obras de uma escola ligada ao Partido Comunista Chinês na ilha da Taipa em 15 de novembro de 1966.

Em 03 de dezembro, uma manifestação de estudantes e professores junto ao Palácio do Governador foi dispersada pela polícia e em protesto pela ação policial seguiram-se manifestações um pouco por toda a cidade, com tumultos de violência crescente.

Os confrontos entre populares e polícia generalizaram-se, edifícios públicos foram saqueados, estátuas derrubadas e foi decretada a lei marcial e o recolher obrigatório.

Os motins continuaram até ao dia seguinte e resultaram em oito mortos e em mais de uma centena de feridos.

A página do '1,2,3' só foi virada em 29 de janeiro de 1967, com a assinatura de acordos considerados humilhantes para o governo português de Macau.

A primeira coisa que vem à cabeça da senhora Wong, de 90 anos, de compras na mão junto ao Jardim de Camões, foram os inéditos dias vividos sob recolher obrigatório e lei marcial decretados na sequência da agitação social, que se saldou em oito mortos e em mais de uma centena de feridos.

Au, de 65 anos, era uma adolescente quando os motins estalaram e também não esquece a proibição de andar na rua, em determinados dias e a certas horas, nem os tiros e, a seu ver, a gravidade do '1,2,3' só encontra paralelo com a violência, relacionada com disputas entre associações criminosas, do final dos anos 1990 em Macau.

Chou, de 90 anos, vai mais longe, ao recordar que "muita gente", incluindo ele, "tinha mesmo medo que fosse haver uma guerra". Tanto que "muitos fugiram de Macau na altura" por causa dos motins que, a seu ver, foram o que de "mais grave" aconteceu na pacata cidade onde nasceu e cresceu.

A "raiva" e o "medo" são as palavras que Hong, de 72 anos, invoca para falar dos acontecimentos do '1,2,3' cuja "culpa" atribui ao então governo português.

O investigador da História de Macau João Guedes considera que "o incidente da escola foi um pretexto" que "não deixa de ter uma simbologia ideológico-partidária", já que Macau era administrado por Portugal que vivia numa "ditadura anticomunista".

Na obra "Macau na Política Externa Chinesa (1949-79)", de 2006, o historiador Moisés Silva Fernandes divide em quatro as correntes de pensamento entre autores portugueses sobre as causas que estiveram na origem do '1,2,3', que estalou alguns meses depois de ter sido lançada a Revolução Cultural na China.

A primeira atribui os acontecimentos "à tentativa gorada para se reconhecer e estabelecer relações diplomáticas com o regime de Pequim, em 1964; a segunda "às atividades subversivas do Kuomintang (partido nacionalista) em Macau; a terceira à "incompetência política" da administração portuguesa; e a quarta "avalia os acontecimentos como um conflito entre uma classe média chinesa em ascendência e uma classe média macaense defensora do 'status quo'".

A Grande Revolução Cultural Proletária, que agitou a China de maio de 1966 até à morte de Mao Zedong dez anos depois, pretendeu purgar a República Popular da "infiltração de elementos burgueses" nas estruturas do governo e da sociedade.

 

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