"Putin usa a história e ideologia como buffet. Vai buscar o que servir"

Durante vários anos, Steven Lee Myers foi o correspondente do New York Times em Moscovo. Viu a Rússia de Putin crescer e mudar. E não tem dúvidas de que Putin vai ficar por mais uns anos no poder.

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Entrevista a Steven Lee Myers © Getty Images

Entrevista a Steven Lee Myers - Steven Lee Myers © Michael Lionstar.

Entrevista a Steven Lee Myers - O Novo Czar: A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin, de Steven Lee Myers © Divulgação

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O Notícias ao Minuto falou com Steven Lee Myers, o autor de 'O Novo Czar: A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin' (Edições 70).

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A biografia do líder russo já está nos escaparates nacionais e conta-nos a vida do antigo espião tornado político. Dos tempos como agente do KGB na antiga União Soviética a líder russo, ‘O Novo Czar’ vai buscar o seu título a uma ideia de Nina Kruscheva, bisneta do ex-líder da URSS Nikita Kruschev, que falou de Putin como o ‘czar da democracia’ russa.

Casado com uma açoriana, o norte-americano Steven Lee Myers fala-nos de um homem difícil de decifrar e cujas ações têm impacto no mundo.

Para nós, portugueses, a Rússia está do outro lado do continente. Por que razão devemos estar atentos ao que ali se passa?

A Rússia tem sido e será sempre um dos países mais importantes do mundo. É uma potência nuclear, tem assento no Conselho de Segurança [da ONU]. Mesmo que quiséssemos ignorar a Rússia após o colapso da União Soviética é impossível fazê-lo.

Esteve sete anos na Rússia. Como é que era a vida de um americano lá? A Rússia que conheceu no primeiro ano era diferente da que viu no último ano em que lá esteve?

Isto pode surpreender os meus amigos que nunca foram à Rússia mas acho que Moscovo é uma das melhores cidades do mundo e provavelmente nunca foi um sítio tão bom para se viver como agora. E ao dizer isto refiro-me aos russos. O progresso económico feito, [o facto de] ser um centro cultural… e isto é verdade para outras cidades russas. Ainda há imensa pobreza, questões de Direitos Humanos, corrupção, mas como sítio para viver é fantástico. A primeira vez que lá estive foi em 1998 e era um tempo de turbulência económica. Dá para ver a diferença. Testemunhei essa diferença entre 2002 e 2007.

O livro mostra-nos Putin como um homem que se adapta às circunstâncias. Quem é Putin, ideologicamente falando?

É uma pergunta difícil de responder. Putin não abraçou nenhuma linha ideológica clara. Adaptou-se. Fê-lo ao longo dos anos. Pelo seu percurso, sempre foi um homem do KGB e ao mesmo tempo um dedicado assessor de um dos maiores democratas, Anatoli Sobtchak. Putin tem esta capacidade de mudar com o tempo e as circunstâncias. Tentar definir o Putinismo é difícil até porque ele mudou. Ideologicamente, nunca foi um comunista de linha dura. Quando voltou à presidência, em 2012, vimos diferenças nas políticas e nas declarações, dele e de outros no Kremlin, assumindo posições mais conservadoras em questões sociais, como os direitos dos homossexuais. Putin usa a história e ideologia como um buffet. Vai buscar o que servir no momento.

Em 2018 há eleições. Putin recandidatar-se-á?

A não ser que haja algo de imprevisível vai concorrer outra vez em 2018, que já não está assim tão longe. Como mudaram a Constituição, vai poder ser presidente até 2024. Nessa altura já teremos passado ou estaremos no fim da administração Trump. É uma quantidade incrível de tempo. Mas acho que não há grandes dúvidas de que se recandidatará. Será antes do Mundial de futebol. Tal como em Sochi [Jogos Olímpicos de Inverno, em 2014], estará mais uma vez no centro do palco, onde ele quer estar e onde quer que a Rússia esteja. Em 2024 já haverá dúvidas sobre como o fará. Se tivesse de adivinhar, e é difícil a esta distância, diria que será como em 2008: haverá alguém que continuará o seu legado.

A não ser que haja algo de imprevisível, Putin vai candidatar-se outra vez em 2018, que já não está assim tão longe

Putin poderá ser afastado em eleições ou a mudança poderia chegar de outra maneira, por exemplo através de uma tentativa de golpe de estado?

Muita gente fala em golpe de Estado mas parece-me descuidado e pouco útil para perceber o que se passa. O nível de controlo que Putin tem é bastante grande. Há quem diga que é frágil mas, honestamente, ele mostrou ser resiliente.

Donald Trump será o futuro presidente dos Estados Unidos. As relações com a Rússia vão mudar?

Acho que pouco irá mudar. Trump expressou admiração por Putin e sugeriu que havia questões em que Rússia e EUA podiam negociar. Foi uma posição invulgar para um candidato republicano, mas Trump quebrou muitas tradições dos republicanos. Trump terá luta dentro do próprio partido. No Congresso já se discute a manutenção de sanções à Rússia. Apesar de toda a admiração que estes dois líderes parecem ter um pelo outro há de facto divergências muito concretas num grande número de assuntos entre a Rússia e EUA.

No livro fala da relação de amizade entre Putin e Berlusconi. Encontra semelhanças nas personalidades e no que poderá ser a relação de Trump com Putin?

Trump e Putin vão tentar dar-se bem ao início. Vimos isso com Bush. Ele e Putin deram-se bem no início. O Berlusconi é uma boa analogia. O Trump é um homem de negócios, uma figura mediática, que percebe o poder dos media e usa-o a seu favor, o que contribuiu para ser eleito, da mesma maneira que Berlusconi. Tal como o Putin.

A Rússia tentou interferir nas eleições norte-americanas? Que tinha a Rússia a ganhar com isso?

Eles queriam interferir e fizeram-no. Isso não é o meu ponto de vista, é o que dizem os Serviços de Informação. Não é claro se a Rússia o fez para apoiar Trump ou para atacar a Clinton, ou ambos. Mas algumas pessoas com quem falei acreditam que a Rússia queria trazer descrédito às eleições americanas, o que iria minar o criticismo dos EUA acerca do estado da democracia na Rússia. É como se pudessem dizer ‘olhe, o vosso sistema é uma trapalhada’.

É uma questão de balançar críticas?

Sim, é uma forma de equilibrar. Os russos, os americanos, os portugueses, toda a gente tem diplomatas e espiões que querem compreender o que se passa. O que foi invulgar desta vez é que foram apanhados.

Putin sempre foi desconfiado em relação aos outros, às motivações alheias e até à democracia, mas tornou-se mais paranoico

O livro deixa-nos com a sensação de que não vai haver novidades tão cedo na Península da Crimeia.

No terreno, a Crimeia faz parte da Federação Russa. A anexação está concluída. Nesta altura seria preciso revertê-la. É importante realçar que nenhum país, nem mesmo aliados da Rússia, reconheceu a anexação como legal. Isto lembra-me a anexação soviética dos países bálticos nos anos 40. Nunca foi reconhecida pelos Estados Unidos ou Europa. E demorou 45 anos para esses países recuperarem a independência. Acho que será uma situação similar com a Crimeia. Só daqui a muitos anos é que a Rússia e a Ucrânia chegarão a um acordo.

A liderança de Putin tornou-o mais paranoico?

Ele sempre foi desconfiado em relação aos outros, às motivações alheias e até à democracia, mas tornou-se mais paranoico e acho que as razões para tal se devem à acumulação de poder ao longo dos anos. Outra coisa é que Putin parece ter confiado cada vez mais num num grupo restrito de pessoas. Muitas delas vindas do mesmo mundo de segurança, antigos militares ou agentes.

Partilham as mesmas ideias.

Sim. Quando confias num grupo tão circunscrito de pessoas e não gostas de ouvir versões dissidentes (o que acontece com muitos líderes), então as pessoas dizem-te o que queres ouvir e a informação que te chega acaba por confirmar aquilo em que acreditas ou no que as pessoas acham que queres acreditar. Este tipo de [mentalidade de] grupo pode ser perigoso. Durante muito tempo pensei que Putin criticava os EUA por uma questão de política, de mensagem interna, fazendo dos EUA o inimigo. Ele dizia algumas coisas estranhas sobre o que os EUA queriam fazer, mas cheguei à conclusão de que Putin acredita de facto nestas conspirações.

Putin está mais perigoso?

Os apoiantes de Putin diriam que não é perigoso, mas se começarmos pela guerra na Geórgia, com tropas russas a invadir um país vizinho, e avançarmos até 2014, vendo a Ucrânia, para onde enviou tropas e depois começou uma guerra civil no leste do país: são ações perigosas. São violentas. Custam vidas. Nalguns aspetos temos de olhar e dizer: sim, nalguns aspetos a Rússia tem agido de forma agressiva. 

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