Na altura, Merkel procurava - numa conferência de imprensa a 31 de agosto de 2015 - encorajar o país perante um fluxo maciço de requerentes de asilo da guerra civil na Síria.
Estas breves palavras tiveram um impacto profundo que gerou apoios, várias críticas e acabou por levar a uma subida significativa do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), segundo partido mais votado nas últimas eleições gerais.
Uma década depois as opiniões continuam a dividir-se, apesar do chanceler alemão, Friedrich Merz, liderar o governo longe destas palavras.
Na última grande conferência de imprensa de verão em Berlim, em julho passado, Merz disse sobre a declaração de Merkel: "Dez anos depois, sabemos que claramente não conseguimos o que ela queria naquela altura".
Merz afirmou ter corrigido as políticas de imigração e asilo de Merkel e do antecessor Olaf Scholz, tendo indicado que o número de pedidos de asilo ter caído 43% no último semestre para 65.495.
Sob Merz, o governo alemão suspendeu a reunificação familiar durante dois anos para pessoas com protecção subsidiária - não consideradas refugiadas - e impôs controlos fronteiriços, entre outras medidas.
Para o professor de ciência política Wolfgang Schroeder, "a Alemanha alcançou muito".
"Acolhemos numerosas pessoas em emergência, especialmente pessoas das regiões de conflito na Síria, no Afeganistão e no Iraque. Mais tarde, muitas outras vieram da Ucrânia. No total, cerca de seis milhões de migrantes chegaram entre 2015 e 2024. Portanto, em termos quantitativos, fizemos muito", acrescentou ao jornal alemão HNA.
Ainda assim, o politólogo assumiu que não foi possível "melhorar as condições e as formas concretas de integração".
No inquérito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre migrantes, a Alemanha ficou em 49.º lugar entre 53 países em termos de popularidade.
"Conseguimos tanto, somos capazes. E quando algo se interpõe no nosso caminho, tem de ser ultrapassado", disse Angela Merkel a 31 de agosto de 2015, quando quase 900 mil requerentes de asilo chegaram à Alemanha.
Khalid Al Abud, jornalista sírio, já vivia na Alemanha em 2015 e foi voluntário num centro de acolhimento de refugiados. Na altura, ficou impressionado com a disposição dos cidadãos em ajudar, confessou.
"Nos meses e anos seguintes a 2015, a cultura de acolhimento tornou-se cada vez menos evidente. Os partidos de direita começaram a incitar o sentimento contra os refugiados. Em 2016, a então líder da AfD Frauke Petry falou em fuzilar refugiados na fronteira", lembrou, numa entrevista feita pela fundação Robert Bosch.
"Seria bom se o público e os meios de comunicação alemães nos ouvissem mais. E não apenas quando se trata de cursos de idiomas ou integração no mercado de trabalho (...) Também temos algo a dizer sobre os transportes públicos, a escassez da habitação, o salário mínimo, sobre todas as questões que afetam a vida quotidiana neste país", considerou.
Num artigo de opinião, o jornal Rheinische Post escreveu que a situação é agora diferente.
"O sucessor de Merkel, Friedrich Merz, nega que tenhamos conseguido ou que venhamos a conseguir. É claro que ele tem de manter a sua clientela satisfeita. Mas não seria melhor para o homem que finalmente quer enfrentar e limpar, que quer fazer as coisas, acreditar mais nas suas próprias forças no país", perguntou o jornal alemão.
Num documentário feito pela televisão pública ARD a propósito dos 10 anos da famosa frase, Merkel mostrou-se surpreendida por ainda ser alvo de críticas por ter dito: "nós conseguimos".
"Olho para trás e apercebo-me de que foi uma decisão especial que tive de tomar", partilhou, lembrando a grande cultura de acolhimento que existia na Alemanha.
"Era meu dever assumir as preocupações de todos no país, entre a moderação e o centro. E foi aí que a AfD desempenhou um papel, mas os outros também tiveram um papel", sustentou.
"É um processo, mas já alcançámos muito até agora. E o que ainda precisa de ser feito deve continuar a ser feito", sublinhou Merkel.
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