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Política de contenção da China é resposta a política externa "excessiva"

A especialista em política chinesa Susan L. Shirk afirmou, em entrevista à Lusa, que uma política externa "excessivamente assertiva" colocou a China num "beco sem saída", numa altura em que vários países reveem a sua relação com Pequim.

Política de contenção da China é resposta a política externa "excessiva"
Notícias ao Minuto

08:45 - 30/07/23 por Lusa

Mundo Especialista

À Lusa, a autora de "Overreach: How China Derailed Its Peaceful Rise" e professora na Escola de Política e Estratégia Global da Universidade da Califórnia, explicou que a "postura agressiva" de Pequim, a aproximação à Rússia e o "controlo implacável" sobre a sociedade, levaram os Estados Unidos, Europa ou o Japão a percecionar a China como uma "ameaça".

O Presidente chinês, Xi Jinping, acusou já "os países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, de implementarem uma política de contenção, cerco e repressão" contra o país.

A especialista contrapõe e aponta que a "política de cerco e contenção foi autoimposta por Pequim".

"É uma resposta aos excessos da política externa chinesa", afirmou, prosseguindo: "Existem pessoas na China que percebem isso e que gostariam que houvesse uma moderação".

Nos últimos anos, sob a liderança de Xi, a diplomacia chinesa abdicou de um "perfil discreto", para adotar uma postura mais assertiva.

A China passou a enviar, com frequência quase diária, aviões e navios de guerra para as proximidades de Taiwan, ilha que reivindica como uma província chinesa, apesar de funcionar como entidade política soberana.

O país asiático militarizou ainda ilhas disputadas no Mar do Sul da China, apesar dos protestos dos países vizinhos.

A coerção económica é, também, frequentemente utilizada por Pequim, através do bloqueio da importação de produtos de vários países, em casos de disputas diplomáticas.

Este novo perfil da política externa chinesa abalou a relação entre Pequim e vários países, que estão agora a rever as suas orientações estratégicas para a China.

No mês passado, a Alemanha tornou-se o mais recente país a fazê-lo.

"A China mudou. As decisões políticas chinesas tornam necessário alterar a forma como lidamos com a China", lê-se num documento, de 64 páginas, aprovado pelo Governo alemão e que especifica a estratégia futura de Berlim face a Pequim.

Susan L. Shirk questiona na sua obra mais recente se Xi Jinping está ciente dos "custos reais" que uma política externa "agressiva" acarreta para o país.

"Um dos principais argumentos do meu livro é como a estrutura da ditadura personalista de Xi cria tanta pressão sobre os funcionários subordinados, por causa da campanha anticorrupção e dos expurgos, que as pessoas ficam ansiosas por aderir às suas diretrizes, sem levantar questões", descreveu.

"Os funcionários passaram também a ter medo de comunicar à liderança os custos reais das suas políticas", notou.

Xi, que assegurou no ano passado um terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista (PCC), é o líder chinês mais forte das últimas décadas.

O político reverteu as reformas adotadas por Deng Xiaoping nos anos 1980, que visaram institucionalizar a sucessão do poder político, basear a tomada de decisão num processo de consulta coletiva ou afastar o PCC dos órgãos administrativos do Estado.

Numa estratégia contrária, Xi centralizou o poder na sua figura e afastou rivais políticos e a dissidência interna.

Uma vasta campanha anticorrupção resultou na condenação à prisão perpétua ou à pena de morte de milhares de quadros e funcionários do partido, líderes de empresas e organizações públicas e oficiais do exército.

Além de combater a corrupção, a campanha tem como propósito reforçar o "controlo ideológico" e afastar rivais políticos, com as acusações a altos quadros do regime a incluírem frequentemente "excesso de ambição política" ou "conspiração".

Esta semana, Qin Gang foi removido do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, após mais de um mês ausente de cerimónias públicas. Não foi dada qualquer razão para a sua substituição ou desaparecimento.

Num tom de conclusão, Susan L. Shirk apelou, porém, a que se evite o "fatalismo" e a "falta de esperança" nas relações com a China.

"Há todo um legado, na China pós--Mao [Zedong], de ajustes pragmáticos nas políticas, de forma a reduzir os custos e beneficiar a China", lembrou.

"O Ocidente deve comunicar à China que, se fizer as escolhas certas agora, será reconhecida e apoiada, o que traria benefícios para o país", acrescentou.

Leia Também: Nova rota de contentores entre a China e a América Latina

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