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Afeganistão. Imprensa vive grave crise após um ano de talibãs no poder

A comunicação social afegã atravessa um grave período após um ano de Governo talibã, devido à crise económica e à crescente censura e repressão, segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e a Comissão para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

Afeganistão. Imprensa vive grave crise após um ano de talibãs no poder

A CPJ, com sede em Nova Iorque, salienta num novo relatório que a liberdade de imprensa no Afeganistão se degradou acentuadamente desde que os talibãs tomaram o poder em Cabul, a 15 de agosto de 2021, e denuncia detenções, agressões e restrições de movimentos a jornalistas, especialmente mulheres.

"Os movimentos dos talibãs para reprimir os meios de comunicação estão a ter um impacto devastador. As medidas particularmente restritivas contra as jornalistas equivalem a uma tentativa de apagar as mulheres da vida pública", disse num comunicado a presidente da CPJ, Jodie Ginsberg.

O relatório da CPJ baseia-se em entrevistas a profissionais e documenta também casos de ataques e restrições impostas aos meios de comunicação social desde que, em agosto do ano passado, os talibãs recuperaram o poder no Afeganistão.

Segundo a CPJ, desde então, o número de órgãos de comunicação sofreu uma redução significativa e o número de mulheres jornalistas caiu a pique.

O documento indica que a situação se deve tanto às políticas dos talibãs, como à profunda crise económica que se vive no país, cujo novo regime a maior parte da comunidade internacional não reconheceu.

Ao mesmo tempo, a CPJ destaca o compromisso que demonstram ter com a profissão muitos jornalistas, tanto os que permaneceram no país como os muitos que estão no exílio, e pede mais apoio internacional para eles.

"Os talibãs devem sofrer uma pressão internacional significativa, para mudarem de rumo e pararem de atacar a imprensa livre", sustentou Ginsberg.

Segundo outro relatório publicado esta semana, pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o Afeganistão perdeu cerca de 60% dos seus jornalistas desde a queda de Cabul nas mãos dos talibãs - tendo as mulheres sido as profissionais mais afetadas - e quase 40% dos seus meios de comunicação social.

Segundo o estudo da RSF, sediada em Paris, o Afeganistão perdeu no último ano 39,95% dos seus órgãos de comunicação social e 59,86% dos seus jornalistas.

Três quartos das mulheres jornalistas estão agora no desemprego, num contexto de profunda crise económica e de repressão da liberdade de imprensa, indicou a organização.

"Dos 11.857 jornalistas contabilizados antes de 15 de agosto de 2021, agora só há 4.759. As mulheres são as mais afetadas: 76,19% perderam o emprego", precisou a RSF no documento.

O secretário-geral da organização, Christophe Deloire, lamentou num comunicado que o jornalismo tenha sido dizimado no Afeganistão e os meios de comunicação social submetidos a regulamentação "que restringe a liberdade de imprensa e abre caminho à repressão e à perseguição".

"As autoridades devem comprometer-se a pôr fim à violência e ao assédio aos trabalhadores nos meios de comunicação e devem permitir-lhes fazer o seu trabalho sem serem importunados", acrescentou.

A "carnificina" infligida ao jornalismo afegão foi particularmente forte no caso das mulheres: elas desapareceram completamente em 11 das 34 províncias do país, referiu a RSF.

"Das 2.756 mulheres jornalistas e trabalhadoras nos meios de comunicação social antes de 15 de agosto [do ano passado], só 656 continuam a trabalhar. Dessas, cerca de 84,6% trabalham na região de Cabul", precisa a ONG no documento.

A RSF recolheu o testemunho de várias jornalistas refugiadas em países vizinhos, mas também o de Meena Habub, diretora da Rouidad News, uma agência de notícias que criou após o regresso ao poder no país dos talibãs.

"Preferi ficar no meu país para continuar a dar notícias e a defender o que as mulheres conquistaram nos últimos 20 anos. As condições de vida e de trabalho das mulheres jornalistas no Afeganistão sempre foram difíceis, mas a situação atual não tem precedentes", lamentou Habub.

Leia Também: Afeganistão. "Usar a burca é como ser sepultada viva"

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