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Cimeira alternativa de quem vive do mar faz-se perto da reunião da ONU

Pescadores da América Latina e vendedoras de pescado da costa africana reúnem-se a poucas dezenas de metros da Conferência dos Oceanos da ONU, em Lisboa, com organizações da sociedade civil que tencionam preencher um livro branco para entregar aos líderes mundiais.

Cimeira alternativa de quem vive do mar faz-se perto da reunião da ONU
Notícias ao Minuto

16:40 - 28/06/22 por Lusa

Mundo Oceanos

O 'Ocean Base Camp', instalado junto à marina do Parque das Nações, é uma espécie de cimeira alternativa, na qual organizações de várias partes do mundo partilham preocupações com o estado dos oceanos e as dificuldades quotidianas de quem vive do mar, nas diversas latitudes do globo.

"A nossa intenção é ser uma casa longe de casa, não só para as ONG. [O Ocean Base Camp] Tem uma programação própria liderada por ONG, mas as pessoas que têm vindo aqui, quem nós convidamos, não são apenas pessoas de organizações não-governamentais. Convidamos toda a gente a participar e a conhecer o trabalho que temos feito relativamente ao tema da conservação marinha", disse à agência Lusa Ana Matias, da Sciaena, uma das entidades que organizou a iniciativa em parceria com a Fundação Oceano Azul.

A manhã de hoje foi dedicada a testemunhos de várias proveniências, que uma artista plástica foi ilustrando nas paredes.

Num espaço informal, no qual não é preciso acreditação para entrar, qualquer cidadão pode contactar com os vários temas em discussão e deixar uma mensagem para os líderes mundiais reunidos até sexta-feira no pavilhão Altice Arena.

As organizações disponibilizam um livro branco, que depois de preenchido gostariam de entregar ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

"Há várias ameaças ao oceano que neste momento estão a influenciar ou a impactar a sua capacidade para resistir às alterações climáticas", referiu Ana Matias, destacando a necessidade de criação de uma moratória, por parte dos governos, para travar as intenções de exploração de minério em alto mar.

Numa sessão dedicada à pesca de pequena escala, e liderada por pescadores, marcaram presença Antónia Djaló, vendedora de pescado da Guiné-Bissau, e Alfonso Simon, pescador de uma comunidade indígena do Panamá.

Antónia representa uma organização de pesca artesanal que inclui 22 países da costa ocidental de África e também as mulheres que retiram do mar o sustento.

"Temos uma grande escala de mulheres vendedeiras e transformadoras", contou.

A dirigente associativa soma 30 anos nesta atividade. É grossista, vende, transforma e exporta pescado para o Senegal. Envia também mercadoria para regiões mais distantes dentro da Guiné-Bissau.

As alterações climáticas, disse, estão a afetar o mar, mas não só: "Neste momento não há pescado. Isso já traz um desastre para as mulheres. As mulheres neste momento não estão a vender a 100%".

O problema agrava-se numa comunidade em que metade das mulheres vive da venda de pescado. "Não há outro serviço, não há grande capacidade de fazer outro negócio de benefício para elas. Costumam vender peixe", garantiu a empreendedora, reclamando ação dos governos.

"Tudo o que estamos a falar é problema dos governos, dos governantes, da governação", sublinhou.

Os conflitos entre os pescadores e os fiscais das zonas de reserva são outro problema, atestou, lamentando as multas em zonas não balizadas.

Do outro lado do Atlântico, no Panamá, os pescadores enfrentam problemas semelhantes, com escassez de recursos e falta de apoio governamental, de acordo com o testemunho de Alfonso Simon, pescador da comarca Ngobe-Buglé.

"Pescamos há muitos anos, o problema que temos há décadas é que o Governo não nos consulta, não conta connosco como pessoas, humanos, necessitados", lamentou.

"O Governo decide o que quer. Todos os programas e projetos passam por cima da comunidade pesqueira", disse Alfonso, lembrando que o Governo é eleito com o voto popular.

Recordando as palavras de um colega africano, sustentou que os pequenos pescadores "levam alimento ao mundo" e não são os responsáveis pela destruição dos ecossistemas.

Os governos e as empresas multinacionais terão essa responsabilidade, na opinião do pescador, para quem as zonas de pesca estão cada vez mais limitadas.

A construção de centrais termoelétricas, sem que a opinião dos pescadores seja ouvida, foi uma das críticas que deixou à reportagem da Lusa.

"Quero pedir respeito para o meu setor, para os meus indígenas, para a comunidade piscatória, que nos respeitem como humanos", declarou Alfonso, no final de uma manhã em que ouviu testemunhos de outras zonas do globo, não muito diferentes.

Leia Também: Índia lembra que atividades ligadas ao mar vão empregar 40 milhões

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