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Julgamento de homicídio do primeiro PR do Burkina Faso recomeçado

O julgamento dos alegados assassinos do presidente "revolucionário" do Burkina Faso, Thomas Sankara, morto em 15 de outubro de 1987 num golpe, recomeçou hoje em Ouagadougou após duas semanas de suspensão, a pedido dos advogados dos acusados.

Julgamento de homicídio do primeiro PR do Burkina Faso recomeçado
Notícias ao Minuto

23:19 - 25/10/21 por Lusa

Mundo Thomas Sankara

A defesa dos suspeitos do assassínio do primeiro Presidente da República daquele país africano pediu, em 11 de outubro, mais tempo para estudar "os 20 mil documentos do caso".

O primeiro dia de julgamento, dedicado a questões processuais, permitiu organizar uma lista de 60 testemunhas que o tribunal pretende ouvir, por videoconferência por serem residentes no estrangeiro.

Entre as testemunhas estão o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês Roland Dumas, bem como o ex-ministro da Cultura Jack Lang.

O tribunal também pretende ouvir Jean-Christophe Mitterrand, filho do antigo Presidente de França François Mitterrand, que era conselheiro do seu pai para assuntos africanos na época dos factos.

"Existem antigos ministros de França, antigos diplomatas", disse Mamadou Coulibaly, advogado de defesa. "Colocámos os nomes, mas os endereços ainda estão a ser investigados. Significa que alguns provavelmente não sabem que devem testemunhar", acrescentou.

Na reabertura do julgamento, a rede internacional "Justiça para Thomas Sankara, justiça para África" sublinhou o risco de não ser abordado o papel desempenhado por França, Estados Unidos da América e países da África Ocidental, como a Costa do Marfim, de Félix Houphouët-Boigny, e o Togo, de Gnassingbé Eyadema, corrompido pelas posições anti-imperialistas do então jovem Thomas Sankara adorado pela juventude africana.

Doze dos 14 réus estiveram hoje presentes no reinício do julgamento, incluindo o general Gilbert Diendéré, de 61 anos, um dos principais chefes do exército durante o golpe de 1987.

O principal réu, o antigo presidente Blaise Comaoré, que chegou ao poder através desse golpe, ainda não compareceu nas sessões de julgamento. Os advogados denunciaram "um julgamento simulado" perante "um tribunal excecional".

Blaise Comaoré, afastado do poder em 2014 e desde então vive na Costa do Marfim, é acusado de "cumplicidade em assassínios", "ocultação de cadáveres" e "ataque à segurança do Estado".

As mesmas acusações pairam sobre o general Gilbert Diendéré, que já cumpre uma pena de prisão de 20 anos no Burkina Faso por tentativa de golpe em 2015.

Entre os acusados também estão militares da guarda presidencial de Comaoré. Um dos quais, o ex-suboficial Hyacinthe Kafando, suspeito de ser o líder do comando que assassinou Thomas Sankara, encontra-se em fuga.

A viúva de Thomas Sankara, Mariam, que veio de França, onde reside, para assistir ao julgamento, assinou uma petição a pedir que fosse filmado "pelo bem da história". O pedido foi rejeitado no dia de abertura do julgamento pelo tribunal militar.

O julgamento, que deverá durar entre dois e quatro meses, continua na terça-feira com o interrogatório de um dos acusados, Ilboudo Yamba Élisée, militar apresentando com um dos que dispararam sobre Thomas Sankara e os seus 12 companheiros que também foram assassinados.

Thomas Sankara, que chegou ao poder num golpe de Estado em 1983, foi morto com doze dos seus companheiros por um comando durante uma reunião na sede do Conselho Nacional da Revolução (CNR) em Ouagadougou. Tinha 37 anos de idade.

Thomas Sankara deixou uma marca indelével em África, onde ficou conhecido com o "Che Guevara Africano".

Líder icónico, assumiu o poder muito jovem, com apenas 39 anos, na sequência da revolução de 4 de agosto de 1983, onde combateu ao lado dos seus irmãos de armas e se assumiu como "protagonista de uma história fantástica de amizade e solidariedade entre as revoluções africanas dos anos 80", na expressão de Carine Kaneza-Nantulya, diretora para os Assuntos Jurídicos na divisão de África da organização não-governamental de defesa dos direitos humanos norte-americana Human Rights Watch, em declarações à Lusa.

Logo no ano seguinte à sua chegada ao poder, Sankara mudou o nome do país, numa tentativa de enterrar com as insígnias da República do Alto Volta a herança do poder colonial francês. O país de Sankara passou a chamar-se República Democrática e Popular do Burkina Faso, que significa "país do povo honesto".

O "Che Africano", que queria "descolonizar as mentalidades" e perturbar a ordem mundial através da defesa dos pobres e oprimidos, acabaria por ser assassinado em 15 de outubro de 1987, juntamente com 12 dos seus companheiros que faziam parte do núcleo duro da sua "entourage" política.

Leia Também: Província no Burkina Faso encerra escolas devido à presença 'jihadista'

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