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Anúncio de "cessar-fogo" na RCA não é viável, dizem analistas

Uma semana depois do anúncio surpreendente pelo presidente da República Centro-Africana (RCA) de um "cessar-fogo unilateral", dos seus soldados e aliados russos e ruandeses, vários analistas consideram que esta trégua não é viável.

Anúncio de "cessar-fogo" na RCA não é viável, dizem analistas

A RCA, um dos países mais pobres do mundo, tem sido palco de numerosos conflitos desde a sua independência da França, em 1960, com a última guerra civil, iniciada em 2013, a persistir, se bem que a intensidade tenha descido desde há três anos. Mas 13 acordos de paz assinados desde 2007 e vários anúncios de cessar-fogo não vingaram.

Ainda há cerca de dez meses, dois terços do país eram controlados por grupos armados, dos quais os principais lançaram uma ofensiva em dezembro de 2020 para derrubar o presidente Faustin-Archange Touadéra, que disputava um segundo mandato presidencial.

Foi reeleito e chamou em seu socorro Moscovo e Kigali, que despacharam, respetivamente, paramilitares -- "mercenários" segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) -- da sociedade privada Wagner e tropas especiais. Estas forças reconquistaram a maior parte do país e repeliram os rebeldes para a selva, de onde saem para ações de guerrilha.

Em 15 de outubro, Touadéra justificou o "cessar-fogo unilateral" com a necessidade de favorecer a abertura de um "Diálogo Republicano", que prometeu logo a seguir à sua reeleição, mas que nunca viu o dia, nem tem data para ser anunciado.

Na sua alocução, Touadéra felicitou-se por a Coligação dos Patriotas para a Mudança (CPC, na sigla em Francês) ter "assinado o compromisso de cessar toda a ação armada". Ao mesmo tempo, excluiu todos os grupos armados do futuro Diálogo Republicano.

"O nosso objetivo é desembaraçarmo-nos da rebelião. Não dialogamos com os que têm armas", declarou o porta-voz da presidência, Albert Yaloké Mokpeme, em resposta à AFP.

"Se os grupos armados baixarem as armas, é uma contradição mantê-las fora do diálogo político", retorquiu o deputado oposicionista e antigo primeiro-ministro Martin Ziguélé. "Veremos o que o governo vai propor, mas recusar que participem, é correr o risco de colocar tudo em causa", avançou à AFP.

"Faz-se a paz com inimigos, não com amigos", insistiu Roland Marchal, do Centro de Investigações Internacionais (CERI) do Instituto de Ciências Políticas (Sciences Po) de Paris, para quem a trégua só persistirá se a "reconciliação" integrar os grupos armados.

A mesma leitura é feita por Thierry Vircoulon, de Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI): o cessar-fogo "é feito para se ter boa imagem aos olhos dos parceiros internacionais", um mês depois de uma cimeira em Luanda onde os vizinhos da África Central, a União Africana e a ONU impuseram a ideia de um cessar-fogo, para se lançar um diálogo "inclusivo".

Os rebeldes não dizem outra coisa: "A verdadeira condição para que o cessar-fogo funcione é o presidente comprometer-se com um diálogo inclusivo", afirmou o porta-voz da CPC, Serge Bozanga, durante uma entrevista telefónica com a AFP, acrescentando: "Touadéra apenas quer ganhar tempo e reforçar-se militarmente".

Tudo vai depender no terreno também das centenas de paramilitares russos, que lideram a contraofensiva ao lado de um exército centro-africano muito mal equipado e formado.

Estes paramilitares são acusados pela França e pela ONU de "possíveis crimes de guerra" e de se fazerem pagar com suculentos contratos de exploração mineira e "predações".

Apesar de estarem em debandada, os rebeldes mantêm capacidade de perturbação, com recurso a ações de guerrilha e engenhos explosivos improvisados.

"Os rebeldes dispersam-se facilmente e têm tempo para se reorganizar", estimou Roland Marchal. Vão continuar a "operar" e a "matar civis", receou Lewis Mudge, da Human Rights Watch.

Para mais, a estação seca que se aproxima é propícia "às ações militares", adiantou Vircoulon.

Apesar de os grupos armados já não representarem uma ameaça para o poder em Bangui, graças aos 12 mil 'capacetes azuis', mas sobretudo às centenas de paramilitares russos, "os rebeldes podem esgotar o regime financeiramente", concluiu Roland Marchal.

Entretanto, na quinta-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, assegurou que a Wagner não está ao serviço do Estado russo.

Os seus membros "não refletem os interesses do Estado russo, nem agem em seu nome", disse Putin, acrescentando: "é uma empresa privada e trata-se de interesses privados".

As suas declarações foram feitas em resposta a perguntas sobre a presença destes paramilitares no Mali, durante um fórum em Sotchi.

Na sua opinião, se os interesses de sociedades privadas como a Wagner "começam a entrar em conflito com os interesses do Estado russo", então Moscovo terá de "reagir".

O grupo Wagner, com o qual as autoridades russas desmentem qualquer relação, fornece serviços de manutenção de equipamento militar e formação, mas também é acusado, designadamente pela França, de agir por conta da Federação Russa, onde esta não quer aparecer de maneira oficial.

A sua direção seria exercida pelo riquíssimo empresário russo Evguéni Prigojine, dado como próximo de Putin.

A Wagner não tem qualquer existência legal na Federação Russa, onde as sociedades militares privadas são proibidas por lei.

A presença dos homens do grupo Wagner tem sido assinalada em vários países de África, como a RCA e Moçambique, mas também na Líbia, e na Síria.

Estes paramilitares têm sido acusados de abusos vários, por testemunhas, organizações não governamentais e responsáveis da ONU.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por grupos armados juntos na intitulada Séléka, o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.

Desde então, o território centro-africano tem sido palco de confrontos entre estes grupos, que obrigaram quase um quarto dos 4,7 milhões de habitantes da RCA a abandonar as suas casas.

De acordo com dados disponibilizados na página oficial do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), estão empenhados na RCA 188 militares portugueses no âmbito da missão da ONU no país (MINUSCA).

No âmbito da missão da União Europeia (EUTM-RCA) de formação e aconselhamento das forças de segurança e defesa, estão empenhados outros 20 militares.

Em 30 de setembro, a 10.ª Força Nacional Destacada (FND) para a RCA, composta por 180 militares, recebeu o Estandarte Nacional, prevendo-se que esteja operacional a partir de 15 de novembro.

O comandante desta FND, tenente-coronel Jorge Pereira, vai chefiar um grupo composto por 169 homens e 11 mulheres, sendo que, a maior parte -- 91 -, são militares do Regimento de Comandos, incluindo-se também três da Força Aérea.

Leia Também: 180 militares portugueses partem em missão para a RCA em outubro

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