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Missão no Ártico. "Problema é que urgência só será percebida em 30 anos"

Estreia no sábado 'Expedição ao Ártico: Um Ano no Gelo', no canal Odisseia, a maior expedição científica da história ao Pólo Norte. O cientista Manuel Dall’Osto, que participou na campanha, falou com o Notícias ao Minuto.

"O Ártico está a aquecer duas vezes mais rapidamente do que o resto do planeta. Hoje, o gelo marinho no verão cobre apenas metade da área que cobria há 40 anos. O sistema de arrefecimento do mundo está avariar", pode ouvir-se no documentário 'Expedição ao Ártico: Um Ano no Gelo', o relato da maior campanha científica alguma vez enviada ao Pólo Norte, reunindo cientistas de todos os cantos do planeta em torno de uma única missão: recolher a maior quantidade de dados possível sobre o Ártico ao longo de um ano.

O documentário estreia este sábado, dia 23 de outubro, no Canal Odisseia.

A Expedição MOSAiC (Observatório Multidisciplinar para o Estudo do Clima Ártico), cujos resultados preliminares foram recentemente apresentados, envolveu 300 cientistas de 20 países, a bordo do quebra-gelo alemão Polarstern, que se propuseram a estudar a camada de gelo do Ártico - considerado pelos cientistas o "epicentro do aquecimento global".

Manuel Dall'Osto, que trabalha atualmente no Instituto de Ciências do Mar de Barcelona, foi um dos participantes, com a função de estudar como se formam as nuvens naquela região inexplorada. Em conversa com o Notícias ao Minuto, o cientista falou de uma expedição que "foi um êxito". "Serão necessários anos para desenvolver todos os modelos e compreender todos os dados", indicou.

Notícias ao Minuto Manuel Dall'Osto, em primeiro plano, com o Polarstern, um navio quebra-gelo de investigação de alta tecnologia, ao fundo© Reprodução/AMC Networks  

Dall'Osto chegou ao Polarstern na última parte da missão, que começou em setembro de 2019 e terminou no ano passado. Embora já se tenha passado um ano desde o fim da histórica expedição, a pandemia do novo coronavírus tem dificultado o encontro presencial dos envolvidos. Ainda assim, foi possível chegar a algumas conclusões preliminares.

"Algo que vimos que não se sabia é que se forma um lençol de água superficial no Ártico que não tem sal. Quando o mar arrefece, no inverno, forma-se o gelo marinho. Depois, quando neva, a neve cai em cima do gelo marinho. Tudo isto é uma camada que pode variar entre 1 e 5 metros de gelo e neve. Na primavera e no verão, quando tudo isto derrete, coloca muita água doce - porque a neve não é água salgada - por cima do mar. É que é como colocar um lago de água doce em cima do mar Ártico. O que isto faz é bloquear muitos fluxos de energia e criar muitas alterações", disse.

"Isto só foi possível descobrir porque tivemos ali um barco um ano inteiro", acrescentou.

Notícias ao Minuto O Polarstern - aqui durante a noite polar - transportou equipamentos que nunca foram instalados no Ártico Central© Reprodução/AMC Networks  

Uma das principais conclusões avançadas pela missão é a de que o ponto crítico de um aquecimento global irreversível pode já ter sido ultrapassado, com as consequências a poderem seguir-se em cascata nas próximas décadas. Quando questionado sobre se ainda seria possível evitar que as costas dos países fiquem submersas até ao final deste século, o cientista é perentório: "Acho que não é possível evitá-lo, vai acontecer em alguns países".

Seguramente, já estamos numa fase de adaptação - adaptação às alterações climáticas. Há países onde vão existir problemas. Estive em Veneza e, seguramente, Veneza vai ser afetada. Como algumas ilhas das Maldivas. Algumas partes costeiras vão mudar, assim como a distribuição de pescas, o turismo. Efeitos a que vamos assistir nas próximas décadas. Se não fizermos nada, será bastante mais catastrófico

No entender do cientista, porém, a previsão atempada destas consequências não chega para os cidadãos. "O problema é este: é uma urgência que só será percebida ao longo de 30 anos. Políticos e cidadãos colocam-no como prioridade secundária porque não são capazes de ver as alterações. Mas as próximas gerações vão ficar um pouco zangadas connosco."

É este facto que torna clara a principal urgência climática, neste momento. "Informar a população de que as alterações climáticas existem, estão a decorrer e já estão a afetar o planeta: já há um clima com mais tempestades, mais incêndios, verões mais quentes, invernos mais frios."

Notícias ao Minuto Um cientista prepara-se para fazer medições de neve. Outro vigia o território circundante, por causa dos ursos polares© Reprodução/AMC Networks  

Manuel Dall'Osto sublinha que as alterações climáticas, "para a comunidade científica, são claras, estão estabelecidas." "Há anos que dizemos que as alterações climáticas são urgentes, mas, infelizmente, as alterações climáticas são uma modificação que se perceberá em cerca de 30 anos. E para nós, humanos, é muito difícil compreender uma mudança tão distante."

O cientista refere o papel dos jornalistas e dos especialistas como primordiais na função de informar e ajudar a compreender. "Nós, os cientistas, não debatemos as alterações climáticas. Nós já o demonstrámos. Agora há um problema de comunicação, em que os cientistas precisam de informar os políticos e a população para que as coisas possam mudar."

Leia Também: Administração de Biden suspende exploração de petróleo e gás no Ártico

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