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A marcha de sete dias dos talibãs até ao poder. Como aconteceu?

Em apenas sete dias, qualquer sonho de um Afeganistão livre morreu.

A marcha de sete dias dos talibãs até ao poder. Como aconteceu?

Na semana passada, muitos ainda se agarravam à esperança de que os talibãs pudessem ser contidos, embora as principais rotas comerciais, a esse ponto, já estivessem sob o seu controlo, bem como as passagens fronteiriças e as áreas mais remotas.

Em apenas uma semana, os combatentes conseguiram conquistar cidade após cidade, derrubar o governo e 'arrecadar o grande prémio': Cabul.

Nas ruas, anúncios com mulheres em roupas ocidentais foram tapados com tinta branca, enquanto homens de calças de ganga e camisola correram a vestir as tradicionais túnicas, conta a Associated Press. Na embaixada dos Estados Unidos, funcionários destruíram rapidamente documentos oficiais, enquanto helicópteros levaram diplomatas para segurança.

Vários foram os dedos ainda com vestígios de tinta roxa - marcas da votação em eleições, um símbolo democrático - que acorreram freneticamente aos multibancos para levantar as economias de uma vida.

Tudo em sete dias. Mas como é que tudo isso aconteceu?

Segunda-feira 

O dia amanheceu com notícias de que os talibãs teriam conseguido reivindicar Aybak e Sar-e Pul no norte do país. Em alguns locais, as forças pró-governo renderam-se sem lutar, noutros, onde ocorreram tiroteios, os moradores foram forçados a deixar as suas casas e a fazer-se ao caminho por centenas de quilómetros a pé.

A queda de Aybak e Sar-e Pul agrada aos combatentes, tendo sido vistos posteriormente em vídeo a saborear a vitória do lado de fora de um dos prédios governamentais que agora controlavam.

Apesar de tudo, ainda permaneciam 29 capitais de província por conquistar.

Terça-feira

Na capital do Qatar, Doha, o enviado americano Zalmay Khalilzad deixa um aviso aos talibãs: Quaisquer ganhos feitos pela força seriam recebidos com condenação internacional e garantir-lhes-iam um status de párias globais. A eficácia da diplomacia é diminuída, no entanto, após a investida das forças talibãs na cidade de Farah, no oeste do país. 

À medida que se aproxima o prazo autoimposto de 31 de agosto pelos EUA para a retirada das suas tropas, os talibãs vão ganhando terreno, enquanto centenas de milhares de afegãos são deslocados. Os parques de Cabul começam a ficar lotados com os novos sem-abrigo, enquanto as Nações Unidas divulgam registos de civis mortos e feridos que dizem saber que vão aumentar. “Os números reais”, diz a chefe de direitos humanos da ONU, Michelle Bachelet, “serão muito maiores”.

Quarta-feira 

Mais três capitais de províncias caem em Badakhshan, Baghlan e Farah, dando aos talibãs controlo de dois terços do país. Com essas regiões perdidas, o presidente afegão Ashraf Ghani, desesperado para repelir os insurgentes, tenta na província de Balkh, já cercada por terras controladas pelo grupo, obter ajuda de senhores da guerra ligados a alegações de atrocidades e corrupção. 

Na Casa Branca, Joe Biden assina um plano para uma evacuação em grande escala dos afegãos que querem fugir do país, depois de uma nova análise dos serviços de inteligência ter deixado claro que o governo e os militares do país não querem ou são incapazes de montar qualquer resistência significativa. As forças especiais afegãs, encarregadas de assumir grande parte do fardo de defender várias frentes, são cada vez mais escassas.

Quinta-feira

Qualquer esperança de que os sucessos dos talibãs possam limitar-se às regiões mais remotas do Afeganistão desvanece-se à medida que a segunda e a terceira maiores cidades do país são capturadas. Com Kandahar e Herat, uma dúzia de capitais de província estão agora nas mãos dos talibãs. Ao mesmo tempo, com a segurança a deteriorar-se rapidamente, os EUA mudam o curso e anunciam que vão ser enviados 3 mil soldados para ajudar na evacuação da embaixada.

Os combatentes talibãs conseguem chegar a Herat após duas semanas de ataques. Enquanto se movem, testemunhas contam que membros do grupo detidos na prisão da cidade são vistos a mover-se livremente nas ruas.

Sexta-feira

À medida que os talibãs conseguem entrar cada vez mais no país que procuram mais uma vez governar, relatos de homicídios por vingança começam a espalhar-se, incluindo o  de um comediante, o de um responsável de comunicação do governo, entre outros.

Em Herat, dois alegados saqueadores desfilaram pelas ruas com maquilhagem preta espalhada no rosto como forma de lembrar a versão implacável da lei islâmica que os talibãs impuseram. Em Kandahar, os militantes controlam uma estação de rádio que transmitia canções pashto e indianas para as casas dos moradores, música proibida pelos talibãs. As músicas pararam abruptamente e a estação foi renomeada como Voice of Sharia.

Depois, terminaram a 'limpeza' pelo sul do país com a conquista de mais quatro capitais de província - entre as quais Helmand, onde norte-americanos, britânicos e outras forças aliadas da NATO travaram algumas das suas batalhas mais sangrentas durante a guerra, agora em vão.

Sábado

Ashraf Ghani, agora antigo presidente afegão, fez um discurso na televisão no qual jurava não desistir de 20 anos de conquistas desde que os talibãs foram derrubados. Mas o grupo segue em frente, conquistando mais vitórias.

Ao longo da fronteira com o Paquistão, as províncias de Paktika e Kunar caem. No norte, a província de Faryab é tomada. E no centro do país, Daykundi é capturada. A maior de todas, Mazar-e-Sharif - a quarta maior cidade do país, uma área fortemente defendida - ficou agora sob o controlo do grupo.

Em Cabul, formam-se longas filas do lado de fora do aeroporto internacional. Afegãos que procuram fugir empurram carrinhos carregados de tapetes, televisores e pertences enquanto esperam horas para entrar no terminal.

A sul da capital, fica a província de Logar. A norte, os insurgentes tomam Mihterlam, supostamente sem lutar. Houve relatos de membros dos talibãs no distrito de Char Asyab, a apenas 11 quilómetros de Cabul. O destino da cidade parece quase selado.

Domingo

Os talibãs tomam Jalalabad, a última grande cidade além da capital, e seguiu-se uma série de vitórias. As capitais das províncias de Maidan Wardak, Khost, Kapisa e Parwan, bem como o último posto de fronteira controlado pelo governo do país, caem nas mãos dos combatentes e as forças afegãs na Base Aérea de Bagram, que abriga uma prisão com 5 mil reclusos, rendem-se.

Os insurgentes não tinham a força aérea e poucos dias antes não tinham uma cidade importante. Eram superados em número pelas tropas afegãs, treinadas pelos militares americanos. No entanto, o impossível tornou-se verdade: a capital Cabul - e os seus 5 milhões de habitantes - era deles.

Ghani, que horas antes exortara o seu povo a não desistir, acabou por fugir sozinho e o seu palácio abandonado foi ocupado por combatentes fortemente armados.

A noite cai com combatentes dos talibãs posicionados em toda a capital. Esquadras de polícia abandonadas são reclamadas e, em ruas quase vazias, os homens carregam a bandeira preta e branca dos talibãs.

A vitória ficou completa.

Leia Também: Força Aérea dos EUA descobre restos humanos em trem de aterragem de C-17

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