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Saladino "tem algo que qualquer líder pode aspirar", diz historiador

O professor de história Jonathan Phillips traça o perfil de uma figura considerada de "esperança" no Próximo Oriente com caraterísticas que "qualquer líder pode aspirar", no livro "A vida e a lenda do sultão Saladino".

Saladino "tem algo que qualquer líder pode aspirar", diz historiador
Notícias ao Minuto

21:49 - 12/06/21 por Lusa

Mundo Jonathan Phillips

Saladino, cujo nome resulta da corruptela latina de Salah al-Din (digno da fé), curdo, nasceu em 1137 em Tikrit e morreu em 1193, sendo conhecido pela sua conquista de Jerusalém em 1187, logo a seguir à batalha de Hatim, sendo um herói para os muçulmanos e respeitado por cristãos.

Ao longo da história o seu nome tem sido invocado por vários líderes - desde Nasser (Egito), passando por Saddam Hussein (Iraque) ou Assad (Síria) - e até nos mais recentes confrontos em Jerusalém, frente à mesquita de Al-Aqsa.

"Ele tem algo que qualquer líder pode aspirar", afirma, em declarações à Lusa Jonathan Phillips, professor de História das Cruzadas no Royal Holloway (Universidade de Londres), a propósito da tradução em português do seu livro sobre Saladino, disponível em Portugal.

Saladino é sagaz, é alguém "que aprende muito rapidamente", percebe o que é necessário para resolver ou lidar com uma situação de forma muito rápida, aponta. Em certa medida, é ainda hoje uma "figura de esperança" no Próximo Oriente.

Já muito se escreveu sobre Saladino - livros de história, de viagens, documentos religiosos, sobre governo e filmes, só para citar alguns exemplos -, mas nesta obra "o que tentei fazer de forma diferente foi dar um contexto rico para a época em que ele viveu e falar sobre a sua carreira e um pouco mais sobre as pessoas em seu redor, a sua corte - o fantástico departamento de publicidade dos seus secretários, que foram tão instrumentais" para descrever os seus feitos - "e é por isso que sabemos hoje tanto sobre ele", explicou.

"Se houvesse 'spin doctors' no século XII, media modernos, Saladino estaria no topo disso", salienta, apontando que na génese do livro esteve também o objetivo de perceber como a memória de Saladino sobreviveu através dos séculos.

Saladino "foi um homem que aproximou pessoas e expulsou invasores da cidade sagrada de Jerusalém" e isso é um legado que ficou, prossegue, sublinhando que foi "um bom governante", não apenas por remover os invasores, mas também pelas suas "qualidades pessoais, que são admiráveis".

"Ele é claramente muito bom com as pessoas, tem uma família muito leal que o apoia, em comparação com Henrique II de Inglaterra, no mesmo período, ou com os monarcas ibéricos, que estavam sempre a lutar uns contra os outros", destaca.

Além disso, "é também muito bom a escolher pessoas", está rodeado de "talento" e, portanto, "tem um núcleo fiel junto de si e acho que isso é, em grande parte, o seu sucesso".

Saladino é também "ambicioso", conduzido pela religião e "compulsivamente generoso, que é uma das coisas que transparece sobre a sua personalidade", salienta o historiador.

Questionado sobre se é preciso um novo Saladino para resolver os conflitos a Oriente, Jonathan Phillips considera natural que muitas pessoas "aspirem a ser como ele pelas admiráveis qualidades pessoais e a capacidade em unir pessoas", citando o exemplo do líder do Egito Nasser, que tentou "unir o mundo árabe sob a sua liderança".

Na atualidade, quem conseguisse assumir o estatuto de Saladino seria "alguém extraordinariamente influente e muito admirado", mas trata-se de algo "impossível" pela sua grande dificuldade.

Jonathan Phillips relata que numa palestra perto de Detroit, quando estava a acabar o livro sobre o sultão, uma estudante de Hama, Síria, lhe relatou que os jovens daquele país tinham "Saladino no 'screensaver'" dos seus telemóveis.

"O facto dela ter dito que muitos tinham Saladino no 'screensaver' mostra que ele tem uma ressonância ampla como líder, como figura de esperança".

O eco das ações de Saladino sobreviveu ao longo dos séculos: "o contraste entre as histórias de banho de sangue em 1099 e das milhares de vidas cristãs poupadas em 1187" foram utilizadas pelos autores muçulmanos "para demonstrar as qualidades do seu soberano, ao passo que para os cristãos se tornou motivo de admiração e [...] é em parte o motivo para o sultão ter uma reputação tão favorável em toda a cristandade", lê-se no livro.

Vários séculos depois, Jerusalém continua a ser palco de um longo conflito. Questionado sobre se, da perspetiva de historiador, será possível alcançar a paz, Jonathan Phillips salienta que "o diálogo é necessário e crucial".

Sem querer aprofundar o conflito entre Israel e a Palestina, o historiador refere que o "diálogo" foi um elemento "importante" entre Saladino e Ricardo, Coração de Leão, na Terceira Cruzada, como também o envolvimento entre pessoas.

"Por isso, tem de haver diálogo, diálogo de confiança, é a única forma que pode fazer funcionar" a paz na região.

Sobre se há algo a aprender com a vida de Saladino, Jonathan Phillips salienta o facto de ele conseguir "unir as pessoas".

Saladino "tem essa ressonância poderosa no Oriente Próximo e está lá como uma figura de esperança, alguém que se admira e se aspira em muitos aspetos. Ele não é perfeito", mas alcançou um feito "notável".

Por isso, espera que "as pessoas consigam perceber um pouco porque é que ele é tão importante no Oriente Próximo e porque é que o seu nome sobreviveu através dos séculos".

Relativamente ao próximo livro, ainda sem nada fechado, o historiador aponta para a Terceira Cruzada, desta feita na Europa Ocidental, no sentido de compreender o impacto na sociedade.

"Estou interessado em olhar para o legado das Cruzadas, compreender quão amplo é e todas as diferentes maneiras em que é invocado no Ocidente", recordando que a "extrema direita usa um pouco isso" neste momento, e como é lembrado ao "longo dos séculos em diferentes contextos".

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